VOLTAR

Juiz manda desbloquear estrada em Roraima

O Globo, O Pais, p.5
09 de Jan de 2004

Juiz manda desbloquear estradas em Roraima
BOA VISTA. O juiz federal Helder Girão Barreto determinou ontem a desocupação da sede da Funai e do prédio do Incra e o desbloqueio das rodovias de Roraima que estão interditadas há três dias por manifestantes contrários à homologação da reserva Raposa Serra do Sol. Durante o dia, porém, produtores rurais e índios resistiram à decisão e chegaram a anunciar que radicalizariam o protesto, invadindo o aeroporto e a rodoviária. À noite, porém, mudaram o tom e informaram que, hoje, após a reunião do governador Flamarion Portela (sem partido) com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, começarão a liberar as rodovias e a desocupar os imóveis.
Índios querem que reserva seja homologada em ilhas
Durante o dia, os índios que invadiram o prédio da Funai — a maioria da etnia macuxi, ligada aos fazendeiros — diziam que não sairiam de lá enquanto não tivessem uma resposta de Brasília às suas reivindicações. Eles querem que a reserva seja homologada em ilhas, ou seja, incluindo as aldeias indígenas mas deixando de fora terras cultivadas e as vilas do município de Uiramutã, as estradas e as propriedades com título definitivo concedido pela União.
Por ordem da Justiça, o desbloqueio das rodovias BR-174 (que liga Boa Vista a Manaus e à Venezuela) e BR-401 (entre a capital e a Guiana Inglesa) já havia sido marcado para hoje. Para executar a tarefa, a Polícia Rodoviária Federal contaria com o apoio das polícias Federal e Militar. Os manifestantes, porém, durante todo o dia de ontem afirmavam que não sairiam dos bloqueios, mesmo que a polícia tentasse retirá-los à força.
No total, são sete barreiras, sendo duas nas fronteiras com a Venezuela e com a Guiana. Os três acessos a Boa Vista também estão interditados. Só passam carros da polícia e ambulâncias. Cargas perecíveis são analisadas uma a uma. Caminhões-tanques estão parados no engarrafamento e, nos postos de gasolina, as filas são imensas. Se as estradas não forem liberadas, em dois dias começará a faltar alimentos em Boa Vista.
A PF levou mais de 20 homens para desocupar a sede do Incra, mas não conseguiu. Foi necessário reforço da PM, que enviou 30 homens e um caminhão. Depois de mais de duas horas de negociação, a sede do órgão foi liberada e os funcionários puderam entrar.
Religiosos mantidos reféns já foram libertados
Os três religiosos mantidos reféns na aldeia Contão, no Norte de Roraima, foram libertados ontem, após intervenção da PF. Os padres Romildo Pinto de França e Cezar Avellaneda e o missionário Juan Carlos Martinez ficaram três dias nas mãos dos índios que invadiram a aldeia de Surumu, onde funciona uma missão religiosa. Antes da libertação, porém, Martinez leu uma carta em que os índios pediam ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que atendesse às suas reivindicações.
A decisão de iniciar o desbloqueio hoje foi acertada numa reunião entre os manifestantes e o Gabinete de Gerenciamento de Crises. O gabinete, que tem representantes das polícias Federal, Militar e Rodoviária Federal, e da Secretaria de Justiça de Roraima, foi criado justamente para tentar encontrar uma solução para o impasse.

OPINIÃO
FORA DOS MANUAIS
NUMA VISÃO maniqueísta, o índio é sempre explorado pelo branco, e sempre que há conflito entre eles o índio tem razão.
E QUANDO índio briga com índio, aliado a brancos? Configura-se essa embaraçosa situação em Roraima, onde pelo menos uma tribo, a macuxi, é contra o desenho da reserva Raposa Serra do Sol, alia-se a fazendeiros que cultivam a região e se declara em pé de guerra contra políticas que a condenam ao atraso, segundo o cacique Jonas de Souza Marcolino.
COMO SE vê, a situação escapa dos manuais do politicamente correto. O governo federal, portanto, precisa agir, mas com base num diagnóstico desapaixonado da crise.

Índios contra a reserva dizem que não são minoria
Para presidente da Funai, maioria é a favor da homologação
BOA VISTA. Líderes indígenas que apóiam os fazendeiros nos protestos contra a homologação da reserva Raposa Serra do Sol disseram que o presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes, mente quando diz que eles são minoria entre os índios da região. Gomes afirma que 80% dos índios da Raposa Serra do Sol são favoráveis à demarcação continua e que os 20% restantes foram "aliciados por fazendeiros". Os fazendeiros querem deixar fora da área demarcada terras cultivadas, estradas e vilas.
- É uma mentira de quem não quer saber a verdade nem se preocupa com os anseios dos índios. Ele fala isso porque também foi missionário e foi apontado pelos padres para presidir a Funai - disse o macuxi Silvestre Leocádio, presidente da Sodiur, entidade que diz reunir mais de dez mil indígenas.
"A Funal nunca realizou um estudo completo"
Outro líder dos protestos, Gilberto Macux disse que o presidente da Funai não sabe o que se passa na região.
- A Funai nunca realizou um estudo completo, envolvendo todas as tribos. Sempre escutou apenas as ONGs e a Igreja Católica. Estamos protestando porque até hoje não pudemos manifestar nossa opinião - disse.
Ele propôs um plebiscito.
- Assim, o país saberá quantos índios existem na região e quantos são contra ou a favor da permanência das propriedades produtivas, das estradas e das vilas - disse.

O Globo, 09/01/2004, p. 5

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.