O Globo, O Pais, p.8
23 de Mar de 2005
Jucá foi PFL e PSDB e comprou briga com índios
Adriana Vasconcelos e Evandro Éboli
Por ironia do destino, a única nomeação feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ontem fora do PT foi a do ex-tucano Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo Fernando Henrique no Senado. Na década de 80, no governo Sarney, Jucá presidiu a Fundação Rondon e a Fundação Nacional do Índio (Funai). Foi um presidente bastante controverso na Funai, construindo ali uma imagem de inimigo da causa indígena.
Um processo que corre em sigilo de Justiça no Supremo Tribunal Federal há mais de cinco anos investiga um suposto desvio de verbas em Cantar, município de Roraima. Mas este ano Jucá conseguiu uma certidão do superintendente regional da Polícia Federal de Roraima, delegado Osmar Tavares Melo, atestando que não consta registro de antecedentes criminais contra ele.
Indicado para pôr ordem na Funai, Jucá demitiu dezenas de funcionários acusados de cumplicidade com os índios. Também demarcou as terras dos ianomâmi, em Roraima, em ilhas, e não em área contínua, como defendiam entidades indigenistas. Somente alguns anos depois, no governo Fernando Collor, o então ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, reviu a demarcação e homologou o território em área única. Jucá foi acusado ainda de permitir exploração ilegal de madeiras em terra indígena e de apoiar assinatura de contratos que permitiam a exploração nessas áreas.
Vida pública teve início no PFL
Em seu segundo mandato de senador, o pernambucano Jucá começou a vida pública no PFL, já passou pelo PSDB e hoje, no PMDB, faz planos para garantir maior eficiência à administração petista. Esta salada partidária, justifica ele, só vem comprovar que a política tem construções próprias, das quais é importante sempre tirar as melhores lições. Por isso, não se sente constrangido de ter pulado da condição de ex-líder de Fernando Henrique para a de vice-líder do governo Lula e agora ministro da Previdência.
Economista formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Jucá foi nomeado por Sarney para assumir o posto de governador do então território federal de Roraima, onde acabou dando seguimento à carreira política. É casado com a atual prefeita de Boa Vista, Tereza Jucá. Foi designado em 2003 para relatar a reforma tributária e, ano passado, para a relatoria geral do Orçamento de 2005.
Ao transmitir o comando do ministério para Jucá, o senador Amir Lando (PMDB-RO) não conseguiu disfarçar a mágoa por ter sido preterido pelo próprio partido. Apesar de ter iniciado seu discurso de despedida agradecendo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a oportunidade de ter sido seu ministro, Lando fez questão de lembrar das muitas vezes em que foi alvo do que considerou injúrias, calúnias e julgamentos precipitados.
Perguntei-me muitas vezes se devia agüentar esse holocausto. Suportei em silêncio porque o que estava em jogo era o interesse do país desabafou Lando, que negou guardar mágoas de Lula e garantiu que continuará apoiando o governo como senador.
Jucá tentou contornar a situação elogiando Lando:
O ministro Amir Lando fez um belíssimo trabalho e caberá a mim dar continuidade. Ele continuará sendo peça importante para o aperfeiçoamento do serviço público.
O Globo, 23/03/2005, p. 8
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