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Jovens voluntários buscam o Brasil

OESP, Vida, p. A17
19 de Jul de 2006

Jovens voluntários buscam o Brasil
Cresce o número de estudantes estrangeiros que pagam até R$ 18 mil para trabalhar de graça em ONGs do País

Renata Cafardo

Eles pagam até 5 mil (R$ 18 mil) para vir ao Brasil trabalhar de graça. Empresas de intercâmbio internacional descobriram no voluntariado a mais nova maneira de atrair estudantes estrangeiros ao País. Os jovens estudam um pouco de português e logo são encaminhados a ONGs parceiras para trabalhar, principalmente com crianças carentes ou em projetos ambientais.

"É uma experiência de vida única. Além de aprender a língua, conheço a cultura brasileira. Isso tudo vai contar muito quando voltar para casa", diz o francês Romaim Coiffard, de 19 anos, que trabalha numa instituição com meninos de um bairro pobre no interior do Espírito Santo. A oferta brasileira casa bem com a valorização crescente que existe na Europa e nos Estados Unidos do trabalho voluntário e da vida fora do seu país.

A maioria dos que procuram esse tipo de programa terminou o ensino médio e ainda não ingressou na universidade. Eles têm entre 18 e 25 anos e fazem o que lá é chamado de gap year, ou o ano do intervalo, da pausa para direcionar melhor o futuro. Ao voltar para casa, a experiência de trabalho voluntário soma pontos no currículo para conseguir boas vagas no ensino superior.

Mas eles chegam também com a típica vontade do jovem de mudar o mundo. "Vi crianças nos faróis que tinham de estar na escola", diz Fiona Mathews, inglesa de 18 anos que chegou a São Paulo neste mês para trabalhar na ONG Monte Azul, na favela de mesmo nome, na zona sul da capital.

"Quero poder fazer as crianças mais felizes", completa a colega Georgina Bull, que chegou junto e aguardava sua viagem para Florianópolis, onde faria seu trabalho voluntário. As duas moças mal sabem soletrar seus nomes em português, tiveram poucas aulas da língua, mas teriam de se comunicar com as crianças das instituições.

"Eles moram em casas de famílias brasileiras e, quando vão embora, já falam muito bem a língua", diz Davina Cowan, da Experimento Intercâmbio Cultural, que trará cerca de 80 estrangeiros neste ano para programas de trabalho voluntário. A procura, segundo ela, tem aumentado a cada ano; em 2005, foram somente 30 estudantes.

VISTO ESPECIAL

Os estrangeiros pagam pelo programa a empresas parceiras nos seus países e o valor já inclui as passagens e a moradia. Muitos vêm com vistos de turista e ficam, portanto, no máximo três meses. Em 2005, o Ministério das Relações Exteriores divulgou uma resolução normativa sobre vistos específicos para essa situação. Para consegui-lo, é preciso provar a relação com a ONG em que se vai atuar. O prazo máximo de permanência é de dois anos.

O alemão Joachim Wilcke, de 19 anos, está aqui desde março trabalhando como monitor na Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae) do Rio Grande do Norte. Ele pagou 3.500 (R$ 12,6 mil) para vir ao Brasil por meio de um programa oferecido pela empresa AFS Intercultura.

Segundo ele, o pacote brasileiro era um dos mais baratos oferecidos na Europa. Vizinhos na América Latina, principalmente o Paraguai, além de países da Ásia e a Nova Zelândia também oferecem o voluntariado para estrangeiros. "Estou aprendendo muito e me divertindo também", diz, já em bom português.

BONS PARCEIROS

"Os estrangeiros são os melhores voluntários que temos. Os brasileiros não se comprometem, acham que só porque são voluntários podem vir um dia, faltar outro", diz o coordenador-executivo da ONG Crescer e Viver, Junior Perim. Sua instituição atende 300 crianças carentes de São Gonçalo, no Rio, e oferece atividades de arte e educação como circo, teatro, capoeira e dança.

Atualmente, trabalham com ele uma americana e uma alemã que chegaram por intermédio de outra ONG chamada Iko Poran. Diferentemente das outras que oferecem programa de voluntariado no Brasil, essa não é uma empresa de intercâmbio, mas uma instituição que participa de uma rede mundial de ONGs e faz contatos com voluntários que queiram trabalhar no Brasil. O preço é menor: são R$ 1.500 e o jovem fica alojado em uma espécie de pensão.

A Brazilian Educational & Language Association (Belta), associação que reúne empresas de intercâmbio no País, não tem números de estudantes que vêm trabalhar como voluntários, mas garante que a procura vem crescendo. O certo é que o inverso praticamente não existe. Brasileiros só procuram por trabalho fora do País quando podem ser remunerados.

Programa troca ações por créditos na universidade

SIMONE IWASSO

No Estado de São Paulo ao menos duas iniciativas foram criadas para incentivar a participação de jovens universitários em atividades voluntárias. Mas sempre com uma contrapartida. Um projeto de lei aprovado pela Assembléia Legislativa, e sancionado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), criou o Programa Universidade na Comunidade, com o objetivo de converter em créditos nos cursos de graduação as atividades em entidades filantrópicas. Assim, os estudantes poderiam atuar em organizações e ter suas horas revertidas em créditos acadêmicos. A regulamentação da lei, que ditará como isso poderá ser feito, ainda está em fase de elaboração. Outro tipo de atividade é o projeto Escola da Família, da Secretaria de Estado da Educação, que fornece bolsa a jovens universitários carentes que participam de atividades em escolas públicas nos fins de semana.

OESP, 19/07/2006, Vida, p. A17

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