OESP, Caderno 2, p.D9
17 de Dez de 2005
Jovens da Amazônia estão com a corda toda
Com doação de restos de madeira, uma ONG ensina moradores de 14 a 21 anos de regiões carentes de Manaus a fazer violões, cavaquinhos, violas e bandolins
Liege Albuquerque
Pau-rainha, marupá, breu branco, preciosa e tauari são as madeiras da Floresta Amazônica usadas no lugar dos tradicionais cedro, magno e pinho abeto na construção de instrumentos de corda ecologicamente corretos. Com restos de madeira doadas por madeireiras certificadas pelo Forest Stewardship Council (FSC), violões, violões de sete cordas, cavaquinhos, violas caipiras e bandolins são produzidos há sete anos em uma oficina profissionalizante na periferia de Manaus.
A organização não governamental Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela) treina gratuitamente jovens carentes de 14 a 21 anos, no bairro Zumbi, zona leste de Manaus, na arte de produção de instrumentos de corda acústicos. "Depois de aprenderem a arte, alguns abrem os próprios ateliês, outros ficam trabalhando na ONG conosco", conta uma das instrutoras, Antonia Souza, de 23 anos.
Segundo ela, 99% do que é produzido na escola é vendido para o exterior. No ano passado, dois violões seguiram de presente para o ministro da Cultura Gilberto Gil e para o músico Lenine. "Lenine trocou vários e-mails com a gente, falando estar impressionado com o material do violão, a sonoridade do instrumento", diz Antonia.
A durabilidade das madeiras foi atestada em pesquisa desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e a Universidade de Brasília (UnB). Na prática, o luthier cubano Raul Lage Garcia, de 59 anos e 43 de lutheria, a única madeira que não chega ao nível do pinho abeto são a marupá e o breu branco, para o tampo dos instrumentos.
"A velocidade da transmissão do som do pinho abeto é superior às usadas", destaca. "Mas com a infinidade de árvores na floresta, não admiro que haja muito tesouro superior ao pinho abeto escondido por aí", diz Garcia, que veio de Cuba para Manaus há seis anos, num convênio do Ministério de Cultura daquele país com a Oela.
De acordo com Garcia, o pau-rainha, usado para o fundo e para as laterais, não perde em nada para o jacarandá, usado tradicionalmente.
"A madeira é elástica, flexível e se curva facilmente com o calor", conta. Para construir a escala e o cavalete do instrumento é usada a madeira da preciosa, onde é tradicional o ébano. "Esta também não perde em nada à usada nos instrumentos há séculos", defende Garcia.
Os instrutores garantem que a única madeira não certificada utilizada pela oficina é a que é feita para a roseta do instrumento, onde se faz um trabalho de marchetaria. Para este 1% do total de madeira usado no instrumento são usados o cedro e o marfim.
O valor de um instrumento varia bastante, segundo Antonia. O de um violão, cobrado no mercado por um valor de cerca de R$ 3 mil, é vendido pela metade do preço pela Oela. "Dá para ser mais barato porque recebemos a madeira de madeireiras que fazem as doações fixas."
Na escola de lutheria, os adolescentes aprendem a construir os instrumentos e depois, se quiserem, também a tocar. O estudante Elizeu Melo Rosa, de 13 anos, depois de seis meses com aulas teóricas, está construindo seus primeiro cavaquinho. "Depois de construir, quero aprender a tocar nele mesmo e depois fazer outros para vender", planeja.
OESP, 17/12/2005, p. D9
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