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29 de Mai de 2026
Jovem Yanomami usa sistema de alertas para ajudar a proteger território na Amazônia
Clara encontrou no sistema de alertas uma nova forma de proteger sua comunidade, seu território e as crianças da região
UNICEF
29/05/2026
No início da manhã, antes mesmo do café, alguns jovens Yanomami caminhavam até o rio que corta o sítio dos padres, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Entre árvores altas e o som constante da água correndo, eles mergulhavam para despertar o corpo antes de passar o dia em sala de aula aprendendo a operar uma nova ferramenta de proteção para seus territórios.
Foi ali, em meio à floresta amazônica, em um dos municípios mais indígenas do Brasil, que cerca de 20 indígenas Yanomami participaram de uma oficina de formação para uso do Sistema de Alertas, uma iniciativa realizada pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e pelo Instituto Socioambiental (ISA), com apoio do UNICEF e financiamento do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO, na sigla em inglês).
Entre os participantes estava Clara Santos Goes, de 21 anos, da comunidade Maturaka, localizada na Terra Indígena Yanomami, no Amazonas. "Eu me sinto muito bem na minha comunidade", conta Clara. "A gente come comida tradicional, convive muito com a família e pratica nossa cultura, nossas danças e cantos."
Em Maturaka, Clara cresceu cercada pela floresta, pelos rios e pelos conhecimentos transmitidos pelos mais velhos. O dia começa cedo. Às seis da manhã, ela já está acordada para preparar o café da família, que pode ter banana, pupunha e outros alimentos tradicionais misturados aos alimentos que chegaram de fora do território.
Além das atividades da casa, Clara também apoia a associação de mulheres da comunidade, ajudando na comunicação e na organização da venda de cestarias produzidas pelas mulheres Yanomami.
Agora, ela também passa a integrar uma nova rede de monitores indígenas que ajudam a proteger o território por meio do Sistema de Alertas. A ferramenta foi desenvolvida para auxiliar organizações indígenas a registrar e organizar denúncias e situações de risco dentro da Terra Yanomami, permitindo que as informações cheguem mais rapidamente aos órgãos públicos responsáveis.
Os alertas podem envolver invasões, queimadas, problemas ambientais, situações de saúde, falta de água ou outras emergências. "O que eu acho mais importante é que os próprios moradores estejam monitorando o território", explica Clara. "Muitas vezes a gente não vê quando os invasores estão chegando. Então eu acho que esse sistema vai facilitar muito a vida do povo Yanomami."
jovens indígenas aprendem a usar ferramenta no celular
UNICEF/BRZ/Sarah Paes
Tecnologia para fortalecer a proteção do território
O sistema funciona por meio de um aplicativo que permite registrar informações mesmo sem conexão com internet. Os monitores podem marcar a localização via GPS, tirar fotos e gravar áudios descrevendo o problema encontrado. Quando conseguem acesso à internet, as informações são enviadas para uma central de monitoramento.
"O sistema de alertas é uma ferramenta de monitoramento colaborativo desenvolvida para que as próprias comunidades possam enviar informações sobre riscos no território", explica o geógrafo Estevão Benfica Senra, analista do Instituto Socioambiental e facilitador da oficina.
Desde o início do projeto, em 2023, mais de 180 monitores indígenas já foram treinados em diferentes regiões da Terra Yanomami. Para muitos participantes, o sistema representa também uma forma de fortalecer a autonomia das comunidades e ampliar o diálogo com as autoridades responsáveis pela proteção do território.
"Esse sistema é muito importante porque mostra a realidade do que está acontecendo na Terra Yanomami", afirma Dário Vitória Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami. "Ele ajuda a encaminhar denúncias e mostrar os problemas para as autoridades."
jovens indígenas conversam sentados em volta de uma mesa
UNICEF/BRZ/Sidney Cad
A Terra Indígena Yanomami é o maior território indígena do Brasil, com quase 10 milhões de hectares entre Amazonas e Roraima. Mais de 33 mil indígenas vivem em 417 comunidades espalhadas pela região. Nos últimos anos, o território enfrentou o avanço do garimpo ilegal, contaminação dos rios, crises sanitárias e insegurança alimentar. Em áreas remotas, onde o acesso é difícil e a comunicação limitada, responder rapidamente às emergências pode fazer diferença na proteção das comunidades, especialmente de crianças e adolescentes.
Clara lembra que, recentemente, enchentes atingiram rios e igarapés próximos às comunidades. "As águas ficaram muito barrentas e as comunidades ficaram assustadas porque não tinha água para beber", recorda. "Agora, se acontecer novamente, talvez a gente consiga fazer um alerta e os órgãos possam ajudar."
Além da proteção territorial e ambiental, o sistema também fortalece redes locais de proteção de crianças e adolescentes em contextos de maior vulnerabilidade. Os alertas ajudam a identificar situações de risco e permitem respostas mais rápidas e articuladas entre comunidades, organizações indígenas e órgãos públicos.
jovem indígena fala para grupo de outros jovens indígenas
UNICEF/BRZ/Sidney Cad
Durante a oficina em São Gabriel da Cachoeira, os participantes receberam celulares, mochilas, manuais de instrução e camisas com proteção UV para apoiar o trabalho de monitoramento nas comunidades. Mas, para Clara, o aprendizado vai além da tecnologia. Ela conta que participar de oficinas apoiadas pelo UNICEF também ajudou a fortalecer sua confiança para falar em público e compartilhar conhecimentos com outros jovens indígenas. "Eu aprendi a dialogar mais e compartilhar o que eu sei", diz. "Isso me ajudou bastante."
Ao final da formação, depois de dias de aprendizado coletivo, os jovens voltaram para suas comunidades levando mais do que novos equipamentos. Voltaram com a possibilidade de transformar informações em proteção para seus territórios, suas famílias e suas crianças. "Espero que esse trabalho siga em frente", afirma Clara. "E que as pessoas possam ver que esse trabalho realmente está acontecendo."
https://www.unicef.org/brazil/historias/jovem-yanomami-usa-sistema-de-a…
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