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Joias da Mata Atlântica

O Globo, Ciência, p. 29
06 de Fev de 2009

Joias da Mata Atlântica
Estudo com anfíbios revela as florestas mais ricas do Brasil

Carlos Albuquerque

Exuberante por natureza e maltratada por séculos de ocupação humana, a Mata Atlântica - da qual restam apenas cerca de 8% de área original - ainda guarda regiões pouco conhecidas e de grande biodiversidade. É o que revela um estudo feito por um grupo de cientistas brasileiros e americanos. Ele aponta o corredor central desse ecossistema, próximo à Bahia, como uma das mais ricas em fauna e flora do país.
O trabalho, publicado na revista "Science", pode servir como referência para o aprimoramento de políticas de preservação de uma das florestas tropicais mais ameaçadas do planeta.
Liderado pela pesquisadora brasileira Ana Carolina Carnaval, da Universidade de Berkeley, na Califórnia, o grupo criou um modelo matemático para determinar que áreas da própria floresta teriam mais biodiversidade, com base na estabilidade climática ao longo dos milênios - mais estabilidade equivalendo a mais riqueza - e usando a análise genética de três espécies de pererecas como indicadora.
Animais ensinam rota do ouro verde
Ao aplicar o modelo, os cientistas descobriram que uma das áreas mais biodiversas da Mata Atlântica estaria na parte central da Bahia, uma região pouco estudada e precariamente conservada.
- Esse modelo, que é relativamente simples, serve para identificarmos as áreas mais importantes de um ecossistema - explica o pesquisador Miguel Rodrigues, da USP, um dos autores do trabalho. -- Ao analisar a distribuição e os dados genéticos desses animais, encontramos a região onde há maior diversidade genética deles, áreas que se revelaram climaticamente mais estáveis e que, por isso, funcionaram ao longo dos anos como uma espécie de abrigo. É como se fosse um hotspot dentro de um hotspot.
Segundo o pesquisador, as pererecas -- das espécies Hypsiboas albomarginatus, Hypsiboas semilineatus e Hypsiboas faber - foram usadas porque estão presentes em boa parte da Mata Atlântica. Usando-as como indicadoras, os cientistas analisaram sua distribuição atual, há seis mil anos e há 21 mil anos.
- Com base nessas coordenadas, pegamos dados climáticos disponíveis, incluindo informações sobre temperatura média anual, variação da temperatura, além de altitude, relevo e tipo de paisagem, para modelarmos a sua distribuição na Mata Atlântica, hoje, há seis mil anos e no auge do período glacial, quando as condições climáticas eram as piores possíveis - explica Rodrigues. - Esse modelo nos indicou o habitat ótimo para o animal e também as áreas em que o clima se manteve mais estável.
Os pesquisadores analisaram depois a sequência do DNA de 184 animais e cruzaram com os dados do clima. Dessa forma, observaram que a maior diversidade genética estava presente nas áreas mais estáveis, na região central do bioma, enquanto a região sul da floresta, mais instável e com animais com menor variedade genética, aparentava ter sido ocupada pela fauna mais recentemente.

- O modelo mostrou que os animais conseguiram manter populações regulares nas áreas mais estáveis climaticamente. Ou seja, eles viveram e se desenvolveram ali por mais tempo - afirma Rodrigues.
Por isso, suas populações apresentam maior diversidade genética.
Como explica o pesquisador da USP, esse foco mais preciso da biodiversidade da região pode ser extremamente útil para trabalhos de conservação.

- Esse modelo pode permitir que autoridades e grupos de conservação afinem o foco do seu trabalho.
Em vez de tentar atuar em uma grande área, o que muitas vezes é difícil, dada a escassez de recursos e pessoal, pode-se focar numa área que concentra a maior diversidade genética. E é interessante ressaltar que a grande variedade apresentada pelas pererecas sugere que ela também esteja presente em outros animais na região.
Para o pesquisador da USP, esse modelo pode ser aplicado em outros ecossistemas também.

- É um método extremamente confiável e testável, que pode ser aplicado na Floresta Amazônica, por exemplo. Em tempos de mudanças climáticas, aprimorar esse foco pode ser um mecanismo importante nos trabalhos de conservação.

O Globo, 06/02/2009, Ciência, p. 29

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