OESP, Economia, p. B15
15 de Mar de 2009
Jirau, um lugar bem longe da crise
Depois de atrasos e confusão, uma das maiores obras do PAC, a usina no Madeira, finalmente está em andamento
Leonardo Goy, PORTO VELHO
Com a economia em ritmo acelerado por causa das obras das hidrelétricas do Rio Madeira, Rondônia pode experimentar níveis de crescimento chineses neste ano, apesar dos efeitos da crise internacional no Brasil. "Nosso Estado está blindado contra a crise", disse o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Rondônia (Fiero), Denis Roberto Baú.
Depois de muito atraso, provocado por brigas políticas, disputas empresariais e questões burocráticas e ambientais, as Usinas de Jirau e Santo Antônio começam a sair do papel.
Com a injeção de dinheiro na construção das usinas - cerca de R$ 20 bilhões em cinco anos -, a Fiero calcula que o Produto Interno Bruto (PIB) do Estado vai crescer 7% a 10% este ano. As duas usinas vão gerar cerca de 60 mil empregos diretos e indiretos.
Enquanto isso, o resto do País vive uma situação bem diferente. Na semana passada, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) anunciou que deverá revisar para próximo de zero sua expectativa de crescimento da economia neste ano. Alguns economistas falam até em retração do PIB em 2009.
Em Rondônia, não se teme o desemprego. Em janeiro, o Estado foi um dos únicos a registrar aumento no número de postos de trabalho: de 0,63%, o equivalente a 1.060 vagas. Isso em um mês em que o desemprego no País cresceu 0,32%, com 101.748 vagas fechadas.
Jirau e Santo Antônio são exceções no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que não vem apresentando os resultados esperados. Levantamento recente feito pela reportagem do Estado em 75 projetos de energia, logística e transportes de carga e urbano mostrou que 62% deles estavam com o cronograma atrasado. As obras não progridem por fatores como restrições ambientais ou incapacidade do governo de gastar as verbas do programa. No ano passado a sobra chegou a R$ 1,895 bilhão.
Em um Estado pouco industrializado como Rondônia, a instalação de duas hidrelétricas gigantes - que, juntas, vão gerar 6.450 megawatts, a metade de Itaipu - tem um efeito decisivo na economia local.
O setor imobiliário já começou a experimentar o aquecimento. Segundo Baú, da Fiero, há 130 edifícios - a maior parte residencial - em construção em Porto Velho. "Esses prédios deverão atender à população que terá aumento de renda e vai poder comprar a casa própria."
O boom imobiliário inclui obras de alto padrão. Em um bairro nobre da capital está em construção o edifício Portal do Madeira, com 24 andares e apartamentos de 380 metros quadrados. Segundo os encarregados da obra, todas as unidades já foram vendidas, por cerca de R$ 750 mil cada uma.
A crise não deve, ao menos por enquanto, atingir as hidrelétricas. Segundo Victor Paranhos, presidente da Energia Sustentável do Brasil - que está construindo Jirau - as obras não foram afetadas. "Ao contrário, estamos é precisando de mão de obra. Estamos treinando pessoal". A aparente imunidade contra a crise vem do financiamento garantido pelo BNDES e porque 70% da energia que as usinas vão produzir já estão contratadas pelas distribuidoras.
Opções para os moradores: casa nova ou dinheiro
Ricardo Brandt, PORTO VELHO
Três alternativas foram dadas aos moradores pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil, responsável pela obra da usina e pela retirada das famílias da área atingida pelas águas. Uma delas será a mudança para um novo "distrito" que começou a ser construído próximo a Jaci-Paraná. Numa área de 800 metros quadrados, uma pequena cidade em forma de condomínio já começou a ser construída, com 1.300 casas de 70 metros quadrados e em alvenaria.
Os empreendedores a chamam de Pólo Jirau de Desenvolvimento Sustentável, mas entre os locais o "condomínio" já foi batizado de Nova Mutum. As outras duas opções são: receber uma carta de crédito ou uma indenização. Para isso, as famílias e os imóveis foram cadastrados pelo consórcio formado pelas empresas Suez e Camargo Correa e pelas estatais Eletrosul e Chesf.
"Muitos estão recusando a mudança, porque será como chegar numa casa estranha. Eles têm suas atividades aqui nessa área e temem enfrentar problemas para conseguir trabalho na Nova Mutum", diz Rosilene Prestes Oliveira, de 34 anos, nomeada administradora pela prefeitura de Porto Velho. "Sabemos que na nova vila terá área de lazer, água encanada, esgoto. Mas é uma área limitada, que nunca vai poder se expandir", lamenta a moradora.
Não se sabe ainda se a maioria dos moradores aceitará a nova casa entregue pelo consórcio ou se preferirá o dinheiro. O que se sabe é que alguns já decidiram não trocar a Mutum-Paraná pela Nova Mutum.
Mas não é só em Mutum-Paraná que o represamento obrigará a mudanças. No próprio local onde está sendo feita a obra de Jirau, moram seis pessoas, todas na casa erguida por Francisco Pereira, 55 anos, conhecido como Maranhão da Ilha. "Toda minha história está nesse lugar. É lamentável ter que deixar tudo para trás, mas é o preço do desenvolvimento."
Maranhão ainda viverá na ilha enquanto a obra não atingi-la. Ele foi contratado para tocar uma das pequenas embarcações usadas no local. "Quando tudo estiver pronto, vou ter que seguir a vida num outro lugar", desabafa.
Demora na licença obriga empresa a enfrentar as cheias
Leonardo Goy
A demora na liberação das licenças ambientais para o início das obras da hidrelétrica de Jirau (RO), agravada pelas ações judiciais que pararam o trabalho por semanas, está obrigando a construtora da usina a brigar agora contra a cheia do Rio Madeira para manter o cronograma.
A Energia Sustentável do Brasil, empresa liderada pela Suez e a responsável por Jirau, recebeu do Ibama a licença parcial, que autoriza instalar o canteiro e as ensecadeiras (espécie de diques de rochas), em 14 de novembro. Por causa das contestações na Justiça e do início das chuvas, a construção da primeira ensecadeira só terminou no dia 5 deste mês, quase quatro meses depois.
"Se não fossem as paralisações, pegaríamos menos chuva e faríamos o trabalho em um mês", disse o presidente da empresa, Victor Paranhos. Mesmo assim, a previsão de começar a gerar energia na hidrelétrica em fevereiro de 2012 está mantida.
Para se ter uma ideia de como tudo muda na época das chuvas, quando a empresa pediu a licença para a ensecadeira, no fim de julho, a vazão do rio era de cerca de 10 mil m³ por segundo. Quando o primeiro dique foi concluído, no início deste mês, o fluxo do rio era de cerca de 32 mil m³ por segundo. "É um sufoco lidar com a cheia", resumiu Paranhos.
A vila que vai sumir sob o Rio Madeira
Mutum-Paraná (RO) será submersa
Ricardo Brandt, PORTO VELHO
O distrito de Mutum-Paraná, a 200 quilômetros de Porto Velho (RO), vai desaparecer do mapa. A escola, o posto de saúde, a base da Polícia Militar e as 458 propriedades que formam o lugarejo fundado no fim do século 19, durante o primeiro ciclo da borracha, vão sumir debaixo das águas do Rio Madeira até 2011, após seu represamento a alguns quilômetros acima, onde é construída a Usina Hidrelétrica Jirau - um dos maiores projetos em andamento na área de energia do governo federal.
"Se eu pudesse escolheria ficar aqui, que foi onde tive meus três filhos e é de onde tiro meu sustento. Aqui trabalho com a madeira e, se falta dinheiro, vou até o rio e pesco o que vamos comer", diz Odilson de Souza Lima, de 55 anos, conhecido como Amazonas.
Na quinta-feira, as atenções estiveram voltadas para as obras de construção da usina que já emprega 1.100 pessoas e pode criar até 12 mil postos de trabalho diretos nos próximos anos - uma verdadeira revolução para uma região em que as pessoas tentam sobreviver com o extrativismo da madeira e do ouro e da pesca.
O megaempreendimento, encravado no coração da selva amazônica, no vizinho distrito de Jaci-Paraná, recebeu a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mutum-Paraná, a 50 quilômetros dali, ficou fora da agenda presidencial.
Uma hora depois da passagem do presidente pelas obras da usina, a reportagem do Estado visitou o povoado. Mais de 1.800 pessoas ainda moram no local. As casas são de madeira, as ruas maltraçadas, de terra barrenta.
Mutum-Paraná surgiu com a extração da borracha. Desde lá, o vilarejo viveu fases alternadas de esquecimento e bonança, como durante as obras da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré ou com o período mais recente da febre do ouro. Atualmente é a extração da madeira a principal ocupação dos moradores.
OESP, 15/03/2009, Economia, p. B15
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