CB, Cidades, p. 24
11 de Ago de 2004
Jardim Botânico invadido
Moradores do Setor de Mansões Dom Bosco e dos condomínios da Esaf ocupam irregularmente cinco áreas da reserva ambiental. Lixo atrai ratos silvestres, os transmissores do hantavírus
Rachel Librelon
Especial para o Correio
Construções do Setor de Mansões Dom Bosco (SMDB), atrás das QIs 17, 19 e 21 do Lago Sul, e condomínios ao lado da Escola Superior de Administração Fazendária (Esaf) estão cada vez mais próximos da área de preservação do Jardim Botânico de Brasília. A administração do parque aponta pelo menos cinco áreas de conflito, ou seja, regiões em que o limite do quintal das casas está a menos de 20 metros da unidade de proteção ambiental.
Há casos extremos, como no conjunto 4 do SMDB, onde a cerca que contorna o Jardim Botânico foi arrancada. No lugar foi construído um muro, com escoamento de água voltado para a área de preservação. Em outras situações, os moradores avançam lentamente sobre o espaço que deveria ficar vazio, colocando cercas vivas, viveiros e quadras.
O lixo é outra razão de conflito entre o Jardim Botânico e a vizinhança. Nas proximidades do conjunto 10 do SMDB, a trilha aberta no meio do mato fechado virou um caminho de sujeira. Garrafas plásticas, fraldas e comidas se acumulam no local.
Sem lei
De acordo com o secretário de Administração de Parques e Unidades de Conservação (Comparques), Ênio Dutra, a Lei do Sistema Nacional da Unidades de Conservação, que determina um distância mínima de 10km entre a unidade de preservação e o adensamento populacional, não se aplica ao Jardim Botânico. A proposta é adequar a norma à realidade local. O limite, que será determinado por um estudo, deve variar de acordo com a sensibilidade da vegetação e com o que já foi construído nas redondezas do parque.
A estimativa é que a área vazia, também denominada área de amortecimento, seja estabelecida entre dez e 50 metros ao redor da unidade de conservação. No caso do Jardim Botânico, a distância ideal seria de 20 metros. Por enquanto, ninguém vai ser multado. Vamos começar, nesta semana, uma campanha de conscientização, explica o secretário. A proposta é que os moradores retrocedam e desocupem as regiões que chegam muito perto do parque. Onde não ocorrer mudança de comportamento, o secretário promete remover os invasores.
Cabe à Administração Regional do Lago Sul fiscalizar o avanço dos lotes. De acordo com a administradora regional, Natanry Osório, não há nenhuma queixa oficial de que propriedades tenham se excedido no tamanho. Segundo ela, quem estiver além dos limites, vai ser autuado pela fiscalização.
O lixo também pode ser tornar um problema para os moradores.
A diretora do Jardim Botânico, Ana Júlia Heringer, contabiliza, pelo menos, cinco espécies de roedores silvestres na fauna local, entre as quais o Bolomys lasiurus, que é o hospedeiro do hantavírus. Esse fato não seria um problema se os moradores respeitassem uma distância mínima e não jogassem lixo no local, alerta. Ana Júlia explica que há predadores naturais dos ratos na fauna do Jardim Botânico, como corujas buraqueiras, gaviões carcarás e cobras cascavel. O roedor também encontra todos os seus alimentos neste ecossistema. Dessa forma, o rato dificilmente sairia de seu habitat natural se o homem ficasse longe e não disponibilizasse alimento fácil. Fala-se que os parques são áreas de risco. Mas é o ser humano que está procurando o problema, avalia a diretora.
Dois casos no Amazonas
Dois casos da hantavirose foram confirmados no município de Boa Vista do Ramos, região do médio Amazonas, a 270 km de Manaus.
Os dois lavradores estão internados em Itacoatiara, município próximo. A Secretaria de Saúde do Amazonas está preparando uma campanha de prevenção na região. A hantavirose foi detectada no Brasil pela primeira vez há 11 anos. De lá para cá, o número de vítimas chegou a 353 pessoas 16 no Distrito Federal.
Suspeitas de Hantavirose
A Secretaria de Saúde considera casos suspeitos de hantavirose os pacientes que apresentam febre maior do que 38 graus, dificuldade para respirar, dores pelo corpo e ainda que tiveram contato com o meio rural nos últimos 60 dias.
Quem apenas esteve na zona rural, não apresenta sintomas e está com medo de ter contraído a doença, não deve procurar a rede pública. São atendidos apenas os pacientes com sintomas da doença.
Médicos particulares, no entanto, podem requisitar exames que constam no protocolo de atendimento dos casos suspeitos: raios-x do tórax e hemograma (exame de sangue).
Os exames, entretanto, apenas auxiliam o diagnóstico. Apenas o teste sorológico confirma ou não a presença do hantavírus. Poucos laboratórios fazem esse teste no DF. O laboratório Fleury é um deles. O sangue é encaminhado para os Estados Unidos. A análise fica pronta em 15 dias e o teste custa cerca de R$ 575.
CB, 11/08/2004, p. 24
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.