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Itaituba fervilha com promessa de desenvolvimento

Valor Econômico, Caderno Especial, p. F8
19 de set de 2014

Itaituba fervilha com promessa de desenvolvimento

Por Andrea Vialli | Para o Valor, de Itaituba (PA)

Tratores revolvem a terra sob um sol escaldante, num constante vai e vem para limar do chão os troncos de árvores e os últimos resquícios de vegetação amazônica. A alguns metros dali, uma fila de caminhões carregados de soja do Mato Grosso aguarda o momento para desembarcar os grãos, que seguirão seu caminho em grandes barcaças pelo rio Tapajós até encontrar os navios graneleiros e seguir viagem mundo afora.

O pequeno distrito de Miritituba, que faz parte do município de Itaituba, no oeste do Pará, foi escolhido por um grupo de empresas para sediar empreendimentos portuários, em um novo corredor logístico que promete escoar uma importante parcela da produção do agronegócio brasileiro. E toda a região vive a expectativa de se tornar a nova fronteira para a infraestrutura na Amazônia. Até 2022, a bacia do Tapajós, que se estende do Mato Grosso ao Pará, deve receber oito terminais portuários e seis usinas hidrelétricas, além da conclusão dos trabalhos de pavimentação da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém.

Com seus cerca de 100 mil habitantes, Itaituba fervilha com a promessa de uma nova era de desenvolvimento. A cidade, que tem 70% de sua economia baseada no garimpo de ouro, já passou por ciclos extrativistas que não trouxeram prosperidade perene, caso do próprio ouro, da madeira e da pecuária. Agora, a preocupação é de que o novo momento econômico traga um desenvolvimento mais ordenado para a cidade.

Uma onda migratória já está prevista - gente que vai chegar para trabalhar na construção das hidrelétricas e dos portos: a prefeitura do município estima que serão mais de 50 mil novos habitantes nos próximos dez anos. "Não queremos repetir a experiência de Altamira. Queremos desenvolvimento sim, mas ordenado, planejado" diz Nayá Fonseca, procuradora geral de Itaituba. Ela faz menção ao inchaço populacional enfrentado pelo município paraense a partir do início das obras da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Subitamente, Altamira viu sua população saltar de 100 mil habitantes (dados do Censo de 2010) para mais de 140 mil em pouco mais de dois anos.

Embora apenas um terminal portuário esteja operando e a maior parte dos empreendimentos ainda na fase de licenciamento ambiental, alguns efeitos do boom da infraestrutura já podem ser sentidos em Itaituba.

A cidade sente os efeitos da especulação imobiliária, com casas e terrenos sendo vendidos a preços inflacionados - uma casa que há um ano valia R$ 300 mil hoje está à venda por R$ 600 mil, e terrenos que custavam R$ 400 mil hoje são oferecidos a R$ 8 milhões. Nos últimos doze meses, o município também registrou um aumento de 50% nos atendimentos nos postos de saúde e em seu único hospital e já teme o aumento de casos de prostituição e uso de drogas como o crack. "Estamos revisando nosso plano diretor para que atenda a um planejamento urbanístico, com zonas bem definidas para abrigar a indústria e os serviços que virão com os portos", diz a procuradora.

O município também está engajado em uma agenda de desenvolvimento sustentável com empresas e ONGs. Entre as prioridades, estão a capacitação da mão de obra local e a aprovação de um plano de saneamento básico para Itaituba - no cenário atual, o esgoto corre a céu aberto até desembocar no Tapajós, a coleta de lixo é precária e o abastecimento de água chega a apenas 20% das residências.

Confiantes no futuro, trabalhadores já chegam para trabalhar nos terminais de carga. É o caso de José Castro Silva, gerente do pátio de triagem da estação de transbordo da Bunge em Miritituba - o primeiro terminal que entrou em operação, há quatro meses. Silva, que trabalhava no ramo da construção em Manaus, veio aproveitar a maré de progresso em Itaituba e os salários promissores para a região, entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil.

A princípio chegou sozinho, mas logo trouxe a esposa e três filhos para morar na cidade. "Aproveitei a oportunidade e estou satisfeito. Em Manaus a vida estava mais difícil, com trânsito e custo de vida alto" diz Silva.

Em poucos meses, a rotina da família se ajeitou: a filha mais velha está matriculada em uma faculdade de administração em Itaituba e os planos incluem financiar uma casa. "Pretendo fincar raízes aqui", diz Silva, de olho no vai e vem dos caminhões que estacionam no pátio, cerca de 200 veículos, todos os dias - devem chegar a 400 por dia no auge da safra da soja.

A estação de transbordo da Bunge em Miritituba é fruto de uma parceria com o grupo Amaggi e faz parte de um investimento de R$ 700 milhões em infraestrutura portuária e logística para escoar a produção de soja do Mato Grosso pelo Norte do país. "Essa nova rota de exportação, que privilegia o modal hidroviário, reduz em aproximadamente 20% a distância entre os grãos brasileiros e a Europa, desafogando o sistema logístico do Sudeste, que há muito tempo trabalha acima do limite", afirma Martus Tavares, vice-presidente de assuntos corporativos da Bunge.

Além do empreendimento da Bunge que já opera desde abril, outros dois terminais portuários receberam licenças ambientais e começam a ser construídos lado a lado em Miritituba. Um deles é a estação de transbordo da Cianport (joint-venture entre as empresas Fiagril e Agrosoja, ambas do Mato Grosso), um investimento de R$ 37 milhões, que deve gerar 120 empregos diretos e indiretos. "A expectativa é movimentar 500 mil toneladas de grãos no início da operação de transbordo, prevista para julho de 2015, até atingir 4,5 milhões de toneladas em 2018", diz Luiz Antônio Pagot, consultor da Cianport.

Também teve início a construção de um terminal de cargas que será operado pela Hidrovias do Brasil S/A, empresa controlada pelo fundo P2 Brasil, criado por Pátria Investimentos e Promon. Os trabalhos de preparo do terreno começaram há cerca de 40 dias, e a previsão é de que o terminal entre em operação na safra 2015/2016.

A construção dos terminais portuários anima o empresariado local. Depois de realizar os trabalhos de terraplanagem e fornecer materiais de construção para o terminal da Bunge, a empresa Acari, de Itaituba, preparava - literalmente - o terreno para o empreendimento da Hidrovias do Brasil. "Montamos estrutura e reforçamos o maquinário para aproveitar as oportunidades, já que as empresas estão chegando com a intenção contratar mão de obra e prestadores de serviços da própria região", diz Hugo Márcio, sócio diretor da Acari.

A empresa começou com um negócio de extração de areia fundada pelo pai de Márcio e hoje emprega 80 pessoas em Itaituba - 25 só na terraplanagem do futuro terminal, com a perspectiva de 30 novas contratações para os próximos meses. "Os portos já estão movimentando nossa economia, e esperamos que isso continue com as hidrelétricas do Tapajós."

Município quer conciliar ecologia e crescimento

Por Andrea Vialli | De Itaituba (PA)

De um lado, a exuberância do bioma amazônico, com suas florestas, riquezas naturais e o leito caudaloso do Tapajós. Do outro, a promessa do progresso por meio de portos, hidrelétricas e do fortalecimento do setor de comércio e serviços. No meio, uma população que já viveu dias de apogeu com o ouro na década de 1980 e nos últimos anos vem enfrentando uma economia estagnada. Conciliar os objetivos de desenvolvimento econômico e social com impacto mínimo ao meio ambiente não costuma ser uma tarefa fácil na Amazônia, mas o município de Itaituba quer mudar esse quadro.

Uma aliança entre prefeitura, empresas do setor de logística que vão operar os terminais portuários e a ONG ambientalista The Nature Conservancy (TNC) já está sendo articulada, com o objetivo de preparar Itaituba e região para o novo ciclo econômico que está chegando com os empreendimentos de infraestrutura. O plano é canalizar parte dos recursos financeiros que serão injetados na economia local para a preservação dos recursos naturais e para o desenvolvimento sustentável da região.

As seis hidrelétricas que serão construídas no Tapajós devem gerar em torno de R$ 400 milhões em compensações pelo uso dos recursos hídricos - só Itaituba deve receber R$ 157 milhões por ano em compensações. "A expectativa em relação aos empreendimentos já causa efeitos como a especulação imobiliária, que exerce pressão extra sobre as áreas de conservação no entorno do município", afirma Gustavo Pinheiro, coordenador de infraestrutura inteligente da TNC.

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na região cresceu 28% entre 2012 e 2013.

Para a Prefeitura de Itaituba, os empreendimentos trarão um aumento significativo da arrecadação de impostos - em 2013, o município arrecadou R$ 12 milhões, considerando todos os tributos. Com os empreendimentos de infraestrutura, a expectativa de arrecadação para 2015 é da ordem de R$ 20 milhões - esse valor só em Imposto sobre Serviços (ISS). "Nesse novo momento econômico, planejamento é a palavra chave para gerenciar esses recursos de modo a atender as necessidades da população", diz Eugênio Cerqueira Viana, diretor de Indústria e Comércio da prefeitura de Itaituba.

Além do boom de infraestrutura, o diretor afirma que Itaituba pretende também apostar em segmentos como o turismo ecológico - no curso do Tapajós, há comunidades ribeirinhas, polos pesqueiros, cavernas, locais de reprodução de quelônios e fazendas-modelo. "Para explorar essa nova vocação, será preciso um ambiente preservado", diz.

Com a construção dos primeiros empreendimentos logísticos, como o terminal de cargas da Bunge, alguns acordos já estão sendo assinados entre a prefeitura e o setor de logística. Seis empresas associadas à Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Hidrovia Tapajós (Atap) firmaram o compromisso de desembolsar R$ 12 milhões, em 15 parcelas, como forma de compensar o município pelo impacto das obras.

Entre elas, Bunge, Cargill, Hidrovias do Brasil, Cianport e Chibatão Navegações. Além dos recursos, as empresas devem auxiliar a prefeitura de Itaituba na execução de uma série de tarefas, como a elaboração de um plano de saneamento básico para o município, a instalação de uma unidade do Corpo de Bombeiros e de um centro de referência em assistência social, e na compra de equipamentos como semáforos e uma ambulância. "Temos uma agenda mínima com a prefeitura, que inclui treinamento da mão de obra local, melhorias na área de saúde e no abastecimento de água. Juntas, as empresas do segmento podem harmonizar a gestão das demandas socioambientais", diz Kléber Menezes, presidente da Atap.

Valor Econômico, 19/09/2014, Caderno Especial, p. F8

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