CB, Brasil, p. 12
19 de Abr de 2004
Isolados e salvos dos males da civilização
Renata Giraldi
Da Equipe do Correio
Antropólogos da Fundação Nacional do Índio (Funai) identificaram na semana passada a existência de quatro povos que nunca tiveram contato com o homem branco. Essas tribos vivem no extremo sul do Acre, na fronteira com o Peru, a 600 quilômetros de Rio Branco. Para respeitar o isolamento dos índios, a Funai negocia com o governo peruano um acordo bilateral de proteção da área, de tal forma que invasores não ameacem as etnias.
Imagens aéreas foram feitas pela equipe técnica da Funai, que identificou uma série de diferenças entre as tribos. Alguns povos fazem malocas em formato triangular, enquanto outros preferem o tipo retangular. Há os que plantam roçados ao redor das malocas e os que mudam freqüentemente, construindo acampamentos, chamados de tapiris, próximos à beira de rios e do mar. Apenas em uma das tribos um índio foi fotografado (de um avião).
De acordo com o antropólogo Antônio Pereira Neto, esse indígena, que pertence a uma das tribos fixas, media cerca de 1,70m, era forte, estava nu, usava apenas braceletes de palha, tinha cabelos longos até os ombros e o corpo pintado com urucum - tinta da semente de mesmo nome que protege contra o sol e picadas de mosquito. ''Era um homem valente pois, quando viu o avião, resolveu tentar acertá-lo com uma flecha'', conta Neto. Estima-se que só nesta área haja cerca de 600 índios isolados.
Desde 1988, a Funai adota a política de preservação do isolamento desses povos, salvo exceções. ''Se eles estiverem ameaçados, a Funai interferirá. Também se quiserem contato; do contrário, não'', acrescenta ele. Até a década de 80, a orientação do governo era para buscar a aproximação com os povos isolados, o que provocou a morte de, em média, um terço deles, por falta de resistência às doenças dos brancos.
Tribos isoladas
Coordenadora do grupo técnico que localizou os índios isolados, a antropóloga Maria Elisa Guedes Vieira diz que a dificuldade em encontrar as tribos é provocada pelo esforço delas em se esconderem. ''Esses povos evitam contato. Buscam viver na floresta fechada, no topo dos morros e perto de caminhos que levam a nascentes dos rios, mas longe das margens'', explica ela. ''O positivo no caso desses povos é que nessa área específica não há conflitos agrários'', comenta ela.
Com base nas fotografias retiradas das tribos, foram identificadas roças com cana-de-açúcar, banana, mandioca, mamão, amendoim e oaca (planta utilizada para pescaria). Mas, anteriormente, o sertanista José Carlos Meirelles, que vive na base da Funai no município de Feijó e Santa Rosa do Prus, no Acre, identificou a existência dos makro - povo nômade, que vive da caça, não mantém roças e desconhece o contato com o branco.
Há três anos, a base da Funai foi invadida por cerca de 200 makro - homens, mulheres e crianças, de acordo com técnicos da fundação. Eles não destruíram nada nem mexeram nos objetos, mas mataram todos os animais, inclusive os cachorros, e levaram as linhas de pesca. ''É um sinal de que eles não conheciam os outros objetos nem mesmo as armas'', observa Neto.
Segundo o antropólogo, o acordo entre Funai e o órgão correspondente no Peru - denominado Comissão Nacional de Povos Andinos, Amazônicos e Afro-Peruanos - deve ser firmado o mais rápido o possível para garantir segurança a esses índios isolados. De acordo com ele, as madeireiras e os seringalistas têm avançado na região, o que põe em risco o modo de vida dos índios.
''Esses povos não ameaçam ninguém, porém sem a proteção governamental são eles, os índios, que correm riscos'', ressalta Antônio Neto. No estado do Acre, há 32 áreas indígenas, 28 delas já homologadas, onde vivem cerca de catorze mil índios de treze etnias diferentes.
CB, 19/04/2004, Brasil, p. 12
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.