O Globo, Ciência, p. 32
12 de Mar de 2009
Irreversível
Aquecimento pode fazer Amazônia perder até 85% da área
Mesmo que o melhor dos cenários sobre as mudanças climáticas se concretize - ou seja, o mundo consiga reduzir substancialmente as suas emissões de carbono nas próximas décadas e o governo brasileiro controle o desmatamento - o destino da Floresta Amazônica parece já estar traçado: ela pode sofrer perdas de até 40% de sua área até 2100. Num cenário mais extremo, no entanto, a destruição pode chegar a 85%. É o que revela um estudo bombástico apresentado ontem, durante uma conferência sobre o clima, em Copenhague, na Dinamarca.
O trabalho, conduzido por pesquisadores do britânico Hadley Centre, um dos mais respeitados centros de pesquisas climáticas do planeta, é o primeiro a mostrar que a floresta vai sofrer danos inevitáveis, ainda que as autoridades consigam limitar o aumento das temperaturas globais em torno de 2 graus Celsius, teto para todas as atuais negociações sobre o clima.
Com isso, além da perda de biodiversidade, a Amazônia teria reduzida a sua capacidade de absorver CO2, agravando ainda mais o aquecimento global. A descoberta, dizem os pesquisadores, mostra que os impactos das mudanças climáticas na Amazônia podem ser bem maiores do que o imaginado.
- Os impactos do aquecimento global na Floresta Amazônica são bem piores do que pensávamos -- assegura Vicky Pope, do Hadley Centre. - À medida que as temperaturas continuarem subindo ao longo deste século, os estragos vão se acumulando, não sendo sentidos de forma óbvia agora, mas se apresentando no futuro.
A razão disso, explicam os cientistas, é a chamada inércia da floresta, um fenômeno que faz com que impactos demorem muito tempo para atingir todo o seu potencial dentro do ecossistema.
- Por causa disso, a Floresta Amazônica vai sofrer perdas inevitáveis, entre 20% e 40%, mesmo que as emissões de CO2 sejam estabilizadas - explica o pesquisador Chris Jones, do Hadley Centre, que liderou o estudo. - Isso acontecerá antes mesmo que esses impactos se tornem visíveis em outros lugares.
Maiores extremos climáticos
Segundo Jones, o mesmo fenômeno se aplica aos oceanos, o que explicaria previsões de que o nível do mar continuará a subir por alguns anos, mesmo que as emissões de CO2 sejam controladas.
- Com a ajuda de modelos climáticos feitos em computadores, descobrimos que esses ecossistemas estão comprometidos com as mudanças no clima, fazendo com que suas consequências sejam sentidas por mais tempo.
O estudo do Hadley Centre indica que essa inércia do ecossistema amazônico se iniciaria a partir de um aumento de cerca de 1 grau Celsius nas temperaturas globais em relação aos níveis pré-industriais. Atualmente, as temperaturas mundiais estão em torno de 0,75 grau Celsius mais elevadas.
Emissões recentes de CO2 garantiriam uma elevação concreta e inevitável de pelo menos 1,3 graus Celsius.
- Até esse valor, o impacto na floresta não seria muito grande, mas a partir de dois graus, ele traria perdas de até 40% da área da floresta, com grande mortandade de árvores. Já elevações acima dos 3 graus Celsius, trariam efeitos catastróficos, com uma área perdida em torno de 75% - conta Jones, lembrando que, a partir de 4 graus, a perda poderia chegar a 85%. -- De qualquer forma, sendo pragmáticos, podemos dizer que algumas perdas serão irreversíveis.
Consequências em todo o planeta
As perdas na Floresta Amazônica terão efeitos em todo o planeta, como explica Peter Cox, professor da Universidade de Exeter e especialista em clima.
- Os trópicos conduzem o clima no mundo e grandes perdas na Amazônia afetariam todo o planeta - conta Cox. - Embora não se saiba exatamente como isso vá acontecer, podemos esperar mais extremos climáticos em todo o mundo.
Além disso, dizem os especialistas, a perda de área da Amazônia inverteria o seu papel de sumidouro de carbono, fazendo com que a floresta passasse a emitir mais CO2 na atmosfera.
- Destruir a Floresta Amazônica quer dizer também transformá-la de sumidouro em emissora de carbono -- diz Peter Cox.
Para os pesquisadores, essas perdas de área da floresta seriam exemplos do que classificam como "feedback positivo" do aquecimento global. Nesse processo, o aumento das temperaturas mundiais causaria maior emissão de CO2, que, por sua vez, traria mais elevação de temperaturas, alimentando constantemente esse ciclo.
O especialista Tim Lenton, da Universidade de East Anglia, resumiu o sentimento geral após a divulgação do trabalho dos pesquisadores do Hadley Centre.
- Quando eu era mais novo, acreditava que a derrubada de árvores iria destruir a floresta. Hoje, vejo que o aquecimento global é, sim, o maior perigo para esse ecossistema.
O Globo, 12/03/2009, Ciência, p. 32
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