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Irresponsáveis

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: MARZAGÃO, Augusto
19 de Mar de 2007

Irresponsáveis

Augusto Marzagão

Fala-se muito, principalmente agora, em redução do desmatamento e combate a outros crimes ambientais. Pura ilusão. Não temos, no caso brasileiro, agentes de fiscalização numericamente suficientes para uma ação efetiva contra os que desmatam, que estão pouco se lixando para o que possa advir, no correr do século, da sua ação predatória.

O que interessa a eles é o presente, o agora. É abarrotar as burras com toda a argentaria que a criminosa depredação da natureza possa proporcionar. São mercenários.

Pouco adianta apontar dedos acusadores para os ricos, como se eles fossem os únicos culpados pelos males que já afligem ou deviam afligir a todos. Esquecemos que eles atulham seus bivaques dentro da nossa casa porque consentimos, ou porque fingimos ignorar que alguns dos nossos familiares prestam-se à reles condição de laranjas da cobiça internacional.

Não encaramos a verdade, os que nos dizemos pobres, sempre que a pobreza sirva de justificativa para as nossas fraquezas. Varremos a fuligem das queimadas para debaixo do tapete com a maior sem-cerimônia. Não encaramos a nossa própria culpa, não a reconhecemos, não tentamos - tentar já seria alguma coisa - corrigi-la ou minimizar seus efeitos nocivos.

Não dou um mês, se tanto, para o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas ser expurgado da pauta da mídia, do discurso das autoridades e do traquinas afã dos ambientalistas de última hora. Mesmo com o reforço que a causa nobre da preservação do ecossistema amazônico acaba de receber, no lançamento da Campanha da Fraternidade 2007, no Pará, pela palavra refletida, talvez por isso dura e afiada, do secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB). O prelado, no conclave, sentado ao lado da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, disse, com o tom civilizado que a razão costuma imprimir à voz, as verdades candentes que todos conhecemos, mas que a maioria faz por não ouvir. Uma de suas sentenças, aparentemente tímida, com praticamente os mesmos termos de tantas outras ditas e repetidas, tem de fato, pela responsabilidade do prolator, a contundência do azorrague: "O próprio governo avalia que o processo de desmatamento continua além daquilo que podia ser feito para a Amazônia"...

Escrevi uma vez, não há muito tempo, que somos suicidas vocacionais. Peço licença para retificar: o que somos - a palavra é esta com toda a carga negativa que contém - é irresponsáveis !

O Globo, 19/03/2007, Opinião, p. 7

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