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Irrealismo

O Globo, Opiniao, p.6
27 de Abr de 2005

Irrealismo
Movida por uma visão ideológica que chega às raias do dogmatismo, a ala mais radical dos ambientalistas tem assumido posições pouco racionais, e que em última análise são prejudiciais ao próprio meio ambiente.
A oposição às usinas nucleares expõe claramente esse dilema: embora nenhuma outra forma de produção de energia seja tão limpa quanto a obtida com a fissão nuclear — porque não há emissão de gases do efeito estufa — e os mais recentes avanços tecnológicos assegurem um baixíssimo nível de risco, nada disso impede que os extremistas do ambientalismo continuem se opondo ferozmente à energia atômica. Com isso, agem como se fossem partidários do aquecimento global.
Equívoco semelhante é a oposição sistemática aos produtos agrícolas transgênicos, que por resistirem melhor a pragas e insetos permitem o cultivo com menos aplicação de agrotóxicos e portanto menos dano ao meio ambiente. Não há, é verdade, garantia absoluta de risco zero, mas a rigor todo progresso tecnológico contém alguma dose de risco. Assim, não se pode fechar a indústria farmacêutica porque ela fabricou alguns remédios que pareciam muito eficazes e após algum tempo se revelaram nocivos; pode-se apenas exigir testes mais rigorosos — e o mesmo deveria valer para os transgênicos. Pretender simplesmente bani-los é de um radicalismo ambientalista que chega a ser antiambiental.
Não há como negar que o ativismo dos verdes” já produziu excelentes resultados. Ajudou decisivamente a melhorar os padrões de segurança da indústria e do transporte de petróleo, criou uma mentalidade de reciclagem de materiais antes inexistente e contribuiu de maneira importante para a bem-sucedida campanha contra a emissão de clorofluorcarbonos, que destroem a camada de ozônio. Tornou ainda os países mais conscientes da necessidade de preservar recursos naturais, levando à elaboração de leis nesse sentido.
Mas posições razoáveis freqüentemente deixam de sê-lo quando levadas ao extremo. É o que está acontecendo hoje com o ambientalismo radical, que deixa de ser lógico quando se torna ideológico, perdendo contato com a realidade.

O Globo, 27/04/2005, p. 6

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