O Globo, Ciência, p. 35
19 de Out de 2007
IPCC: mais participação do Brasil
Questão climática deve ser tratada como direitos humanos, diz dirigente
Carlos Albuquerque
A Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que todos os homens são iguais perante a lei. Para o cingalês Mohan Munasinghe, vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), esse mesmo princípio de igualdade deve ser aplicado nas relações entre os países e a luta contra o aquecimento global. Segundo Munasinghe, que é físico e economista, num mundo posterior ao Acordo de Kioto, que limita as emissões de C02 e expira em 2012, todos devem participar igualmente, inclusive o Brasil.
- No acordo atual, como se sabe, o Brasil não tem metas obrigatórias a cumprir. Mas se o governo brasileiro quiser ser um bom cidadão do mundo, ele vai ter que se portar com igualdade frente à ameaça do aquecimento global daqui para a frente - diz ele. - Isso, claro, vale não apenas para o Brasil, mas para todos os países, em especial os Estados Unidos e a Austrália, que não ratificaram o atual acordo. Falo isso como um cidadão do mundo também e não apenas como um dirigente do IPCC.
Munasinghe, que vai participar de uma conferência sobre mudanças climáticas, no Rio, nos dias 25 e 26 deste mês, diz que é "bastante realista" a proposta do governo brasileiro de que os países ricos dêem algum tipo de compensação (financeira, inclusive) para as nações em desenvolvimento que preservem suas reservas naturais, como a Floresta Amazônica, por exemplo.
- Acho que essa proposta tem uma lógica interessante Afinal, a Floresta Amazônica pertence ao Brasil, mas também ajuda a comunidade global em diversos níveis.
Conservá-la, através do reflorestamento ou da sua expansão, não é barato. Isso custa caro. Não podemos esperar que o Brasil, um país em desenvolvimento, arque com esses custos sozinho.
Prêmio Nobel teve valor triplo para cientistas
Há menos de uma semana, o IPCC de Munasinghe recebeu o Prêmio Nobel da Paz, honraria dividida com o ex-vice presidente dos EUA Al Gore. Para o vice-presidente da entidade, o prêmio tem um valor triplo.
- Em primeiro lugar, ele reconhece o esforço de todos os cientistas que trabalham no IPCC e o fazem sem receber dinheiro algum. Em segundo lugar, o prêmio dá credibilidade ao IPCC, que foi muito atacado pelos chamados céticos do clima. Por fim, a premiação nos dá confiança para podermos dizer aos governos que a melhor forma de combater o aquecimento global é o desenvolvimento sustentável.
Como economista, Munasinghe é realista ao falar sobre o emergente mercado de créditos de carbono.
- É um mercado ainda muito pequeno,por várias razões. A principal é que não há uma ação coletiva em torno dele. Como um reflexo de Kioto, alguns países participam. Outros, não. Por isso, os preços ainda variam muito. Mas isso vai mudar em breve. Em menos de dez anos, esse mercado talvez movimente bilhões de dólares.
Como era de se esperar, Munasinghe só tem elogios para Al Gore e críticas ao governo de George W Bush, para quem o primeiro perdeu as eleições presidenciais de 2000.
- Al Gore faz um extraordinário trabalho de divulgação dos efeitos do aquecimento global. Tirar esse tema dos meios acadêmicos e espalhá-lo para o grande público é muito importante. por isso que o IPCC vai ao Brasil. Temos muito o que dizer e isso tem que ser dito de forma clara e acessível.
Brasil, China e índia devem ser incluídos
O cingalês diz que é inviável a idéia lançada por Bush de que cada país faça, voluntariamente, suas próprias metas de redução de emissões de C02.
- Já temos um acordo coletivo, como Kioto. Como vamos verificar isso, se cada um fizer suas próprias contas e regulamentos?
0 sucessor do Acordo de Kioto será mais severo, de acordo com o vice-presidente do IPCC.
- 0 novo acordo terá que ser mais duro. As emissões aumentaram muito desde que Kioto foi criado. Teremos que fazer novas Inclusões, sempre com equilíbrio. Mas, sem dúvidas, o novo acordo vai ter que incluir índia, China e Brasil com participantes ativos também. 0 Nobel para o IPCC provou que os governos que não derem atenção para as mudanças climáticas podem sofrer uma resposta desfavorável nas urnas.
"Se o Brasil quiser ser um bom cidadão do mundo, deve lutar contra o aquecimento global, como todos"
Mohan Munasinghe Vice presidente do IPCC
O Globo, 19/10/2007, Ciência, p. 35
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.