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IPCC faz previsões alarmantes para América Latina em relatório

OESP, Vida, p. A22
12 de Abr de 2007

IPCC faz previsões alarmantes para América Latina em relatório
Documento cita inundações em cidades costeiras, avanço da dengue e perdas na agricultura

Jamil Chade

Inundações de cidades costeiras como o Rio, avanço da dengue, queda na produção de milho e café, dificuldade para a produção de energia, extinção de 24% de 138 tipos de árvores no cerrado. São flashes do cenário apontado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) sobre o Brasil diante da possibilidade de um aumento da temperatura e do desmatamento, se nada for feito para lidar com a situação.

Na semana passada, os cientistas do IPCC divulgaram algumas de suas principais conclusões. Agora, foi a vez de detalhar a situação na América Latina. Os resultados são alarmantes: 178 milhões de pessoas na região poderão ter graves problemas para ter acesso à água e o número de famintos pode aumentar em 85 milhões de pessoas até 2080. Os prejuízos podem chegar a US$ 300 bilhões por ano.

Para montar suas projeções, os cientistas do IPCC se basearam em cenários que prevêem para 2080 o aumento de temperatura de 1oC a 7,5oC. No Brasil, foi registrado um aumento de 0,5oC nas últimas décadas.

Um dos efeitos das mudanças climáticas seria a elevação do nível do mar. Segundo o relatório, o aumento das temperaturas do mundo ameaça as populações de cidades como Rio, Recife e outras tantas que estão na costa atlântica brasileira. O IPCC estima que o aumento no nível do mar pode ser de 1,3 metro até 2080, provocando enchentes, migração de populações em busca de locais seguros, salinização de terras, impacto nas fontes de água potável, no turismo e na agricultura.

Além das cidades brasileiras, a ameaça de inundação seria sentida também no estuário do Rio da Prata, onde ficam Buenos Aires e Montevidéu.

Na América Latina em 2080, 3 milhões de pessoas poderiam ser vítimas todos os anos de enchentes marítimas e 36 milhões de pessoas estariam em permanente risco.

O painel indica que 43% das 69 espécies de árvores que existem na Amazônia desapareceriam até o final do século. O IPCC enfatiza a expansão da agricultura na região como responsável por eliminar cobertura de floresta de cinco fontes de água, de dez eco-regiões e pela eliminação de 40% das 164 espécies de mamíferos.

No caso do cerrado, é prevista a extinção de 24% de 138 árvores do bioma até 2050.

Segundo o relatório, a América Latina tem 16% das terras degradadas do mundo, avaliados em 1,9 bilhão de hectares. Hoje, 100 milhões de hectares já sofrem a desertificação no Brasil.

INSEGURANÇA ALIMENTAR

Os impactos das mudanças climáticas seriam intensamente sentidos na agricultura da região.

Os estudos apontam que a produtividade agrícola pode cair em 30% até 2080 na América Latina. Só a desertificação e a salinização vão afetar 50% das terras aráveis da região até 2050.

No Brasil, um dos piores impactos deve ser na área adequada para o cultivo do café, que seria reduzida. Novas pestes também prometem atingir a produção. No País, a produção de milho deve sofrer uma queda de 30% por causa das mudanças climáticas, ante uma redução de 15% na área destinada ao trigo. No restante da região, deve haver uma queda na produção de arroz, leite e carnes. Além disso, 34 dos 51 locais de maior concentração de pesca na costa latino-americana também estarão ameaçados.

Se nada for feito para evitar esse cenário, haverá 5 milhões de novos famintos na região até 2020. Em 2050 serão 26 milhões, e 85 milhões em 2080.

ÁGUA

A falta de água causará maior dificuldade para a produção de energia elétrica tanto no Brasil como na Argentina. O IPCC lembra que o País já começou a enfrentar dificuldades nesse setor e aponta que, em 2001, o "apagão" causado pelo aumento de demanda e pelas secas gerou uma queda de 1,5% no PIB brasileiro.

A situação no restante do continente também é alarmante, resultado de aumento da população, necessidade de irrigação, condições mais secas nas bacias e degelo nos Andes. Hoje, 71 milhões de pessoas não têm acesso adequado à água. Em 2050, podem chegar a 178 milhões, sem contar as que vão migrar em busca de água.

DOENÇAS

O IPCC alerta que a área de incidência da dengue no Brasil pode aumentar. Malária e cólera também devem ganhar terreno, ainda que na Amazônia uma redução das chuvas possa baixar a incidência da doença. Na Venezuela, Peru e Argentina, a doença de Chagas pode reaparecer, enquanto os hospitais terão cada vez mais casos de pessoas com problemas respiratórios.

Painel associa pobreza e ambiente
O IPCC critica duramente os governos latino-americanos e alerta que a região precisa tratar da pobreza e do meio ambiente de forma coordenada.

Para os cientistas, os prejuízos na América Latina já começaram. As incidências de desastres naturais aumentaram 2,4 vezes entre 1970 e 2005. Desde 2000, apenas 19% dos desastres geraram perdas de US$ 20 bilhões.

O relatório ainda alerta que, se a região não conseguir taxas maiores de crescimento e redução da desigualdade, estará cada vez mais vulnerável aos problemas ambientais. "Furacões poderão ocorrer onde jamais foram vistos", disse ao Estado o diretor da Estratégia da ONU para Redução de Desastres, Salvano Briceno. "Imagine o estrago que um furacão como o Katrina pode causar em São Paulo."

Se nada fizer, o painel estima que a região perderá pelo menos 1,3 ponto porcentual do PIB por ano em um cenário de aumento de 2oC da temperatura.

OESP, 12/04/2007, Vida, p. A22

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