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A infâmia escravagista

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: GRAZIANO, Xico
03 de Ago de 2004

A infâmia escravagista

Xico Graziano

Encravada no Vale do Araguaia, próximo ao Xingu, a Fazenda Rio Preto não conhece rival. Combina tamanho com qualidade, produção com técnica. Um gigante na agropecuária.
Ostenta 150 mil hectares, metade explorada e metade preservada em mata virgem. Suas pastagens se dividem em pequenos piquetes, de 70 hectares cada. Resulta um inusitado mosaico de lotes onde se criam 80 mil reses.
A boiada impressiona. Arame farpado, lá, é coisa antiga. Lascas imponentes configuram cercas com 6 fios de arame liso, acima do padrão rural. As estradas internas, 350 km delas, encontram-se aparelhadas contra a erosão. Um primor.
Nesse mar de capim braquiária rodeado pela Floresta Amazônica, trabalham 246 empregados, todos com carteira assinada. Somente os vaqueiros, daqueles que labutam no lombo de cavalo, somam 89 homens. Tudo é gratuito: casa de alvenaria, luz, TV, cesta básica, refeições. A criançada estuda ali mesmo. Parece uma grande família.
Romão Flor, mineiro, é o proprietário desse pequeno império agropecuário. Fala mansa, jeito simples, subiu na vida desde a meninice em Patos de Minas. Vendeu queijo, carpiu feijão, negociou burro, ganhou dinheiro e, há trinta anos, aventurou-se nas bandas do Araguaia. Enriqueceu.
Essa inusitada história de sucesso, uma espécie de Bill Gates caipira, está marcada agora pelo desgosto. Em 1o de maio deste ano, a equipe de combate ao trabalho escravo entrou na Fazenda Rio Preto. Jamais se esclarecerá o motivo da ação.
Durante horas, auditores e fiscais vasculharam a fazenda atrás do impossível. Metralhadoras e truculência não foram suficientes para encontrar o objeto desejado: a escravidão rural. Nada de correntes, jagunços, alojamentos, escambo. Tudo se registrava com acerto.
Certa frustração deve ter irritado o manda-chuva dos justiceiros, jovem delegado da PF, que impôs uma humilhação ao proprietário. Manteve-o encarcerado, ameaçado com grosseria e cano de arma, até que, noite escura, finalmente a fiscalização botou a mão no pecado: seis trabalhadores, recém-contratados, estavam sem carteira profissional.
Pronto. Um deslize menor, comum em qualquer ramo de trabalho da economia, acionou o gatilho da terrível mutação jurídica que atormenta o mundo rural do país: a deficiência formal do emprego virando trabalho escravo no campo. Uma maldosa transmutação.
Romão Flor foi indiciado pelo crime de analogia à escravidão. Os empregados temporários acabaram libertados”. As estatísticas engrossaram. Só que ninguém viu o gato. O que se passa? Engano ou engodo?
O trabalho degradante, subumano, configura um horror. E, incontestavelmente, subsiste no campo e na cidade. Todavia, bandidos rurais não podem ser confundidos com agricultores de verdade. Nem tampouco os pilantras da metrópole misturados com empresários sérios. A confusão alimenta a mentira.
Jornalistas talentosos, líderes respeitados, turvam suas análises sobre o campo pela tinta podre do passado. Esbravejam, corretamente, contra a barbárie, sem perceber que atingem o fígado do agricultor de bem.
No Vale do Araguaia-Xingu, como alhures, os fazendeiros não se opõem ao clamor contra o trabalho degradante. Concordam, inclusive, que se exproprie a terra de quem o utilize. Exigem, apenas, uma coisa: que se explique, claramente, o que caracteriza trabalho escravo.
Aplique-se a lei com rigor, mas não afrontem a razão. A confusão é tamanha que, lá no Pará e em Mato Grosso, os produtores estão sendo orientados a impedir que seus vaqueiros bebam água cristalina dos córregos: cuidado, compartilhar água com animais pode caracterizar subserviência! É o fim da picada.
A insana perseguição ao trabalho escravo na Zona Rural afugenta o emprego. Se, por um lado, ajuda a aprimorar as relações de trabalho, por outro, afasta a contratação de serviços. Normal em qualquer setor, a terceirização da mão-de-obra está sendo banida na roça. Resultado: ao invés de operar a favor, a ação pública, por passar da conta, prejudica os mais necessitados. Favorece o herbicida, não o roceiro.
Ensina Gracián, filósofo espanhol, que laranja espremida ao máximo só dá amargor. Romão Flor está indignado. Em nome de boa causa, acabou vítima da infâmia. Será reparado, um dia, quando a carne que produz e o emprego que gera superarem essa terrível discriminação que massacra o campo.

Xico Graziano foi presidente do Incra e secretário da Agricultura de São Paulo.E-mail:xicograziano@terra.com.br.

O Globo, 03/08/2004, Opinião, p. 7

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