O Globo, País, p. 10-11
31 de Mar de 2013
Indústria da seca agrava pior estiagem em 50 anos
Agricultores na miséria denunciam preço extorsivo de carros-pipa
Letícia Lins
Enviada especial
Floresta (PE) - Ao sair de casa, na última terça-feira, para visitar uma filha no centro da cidade sertaneja de Floresta, a 439 quilômetros de Recife, Manoel Afonso dos Santos, de 82 anos, delegou uma triste tarefa à mulher, Maria Fátima Alves Laurentino, de 46: deixar com fome o cavalo Canário por um dia, para que não faltasse ração aos bois Sereno e Mineiro e ao bezerro Boa Vista. Morando em uma casa de taipa, sem direito a água nem colheita, ele adotou esses rodízio para administrar os seis hectares do sítio Riacho do Ouro, onde, ao longo dos últimos doze meses, viu sumir o patrimônio de uma vida, na pior seca em meio século. Assistiu à morte de 31 bichos e vendeu cinco outros, "a preço de banana" para garantir o sustento dos que sobreviveram.
Em Serra Talhada, também no sertão, a 418 quilômetros de Recife, José Lopes da Costa, de 78 anos, vive a mesma dor: já perdeu 20 cabeças de gado. Há um mês, vendeu uma "junta de boi de trabalho" por R$ 5 mil para garantir alimentação dos que sobraram. Era bicho "danado de bom", que Zeca do Jazigo, como o agricultor é mais conhecido, não pretendia comercializar por dinheiro algum. Em São Caetano, no agreste, José Albertino da Silva, de 75 anos, já não tem "mais nenhum bichinho". Nem tentou plantar melancia, milho, feijão e mandioca porque "a terra não molhou" no seu sítio, chamado ironicamente Poço D´Água.
Além de verem os rebanhos minguarem Afonso, José e Albertino são a prova de que a indústria da seca não acabou: eles vêm gastando os últimos trocados na compra de água, já que a frota oficial não atende à demanda das populações da caatinga.
- Água virou ouro, e tem muita gente enricando com ele - reclamaram Maria Angelina Cordeiro, de 71 anos, e sua filha, Josefa Márcia, de 29.
Elas moram no Sítio Mocós, em Tacaimbó, também no agreste, uma zona de transição entre a Zona da Mata e o sertão. Beneficiária de aposentadoria rural, Maria pôde comprar água. Este ano já gastou R$ 600 só com pagamento de carros-pipa. Contou que a venda da água, transformada em artigo de luxo, virou um negócio tão rentável, que há pessoas vendendo até automóveis para comprar caminhões-tanque:
- Teve um aqui perto que vendeu um açude por R$ 3 mil - disse ela, referindo-se a Albino Jota Barros, que não foi localizado em casa pelo GLOBO.
Carro-pipa chega a custar R$ 180
O comprador do açude, segundo a agricultora, secou a represa e vendeu a água a um preço muito alto para os lavradores já descapitalizados com a estiagem. O problema, porém, é mais abrangente: O GLOBO não esteve em uma só casa onde os moradores não compraram água na atual seca. Os preços não são baixos: variam de R$ 120 a R$ 180 cada carro-pipa. Na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tacaimbó, a 169 quilômetros de Recife, a maioria dos lavradores levantou as mãos, quando pergunta se já tinha gasto dinheiro com água este ano.
- Não comprei, mas não por falta de necessidade, mas por falta de dinheiro. Minha cisterna está seca - reclamou José Herculino de Macedo, de 66 anos.
Quem comprou reconhece a exploração. Angelina contou que parentes seus, que moram na cidade com água encanada, têm conta mensal de R$ 36 com uma família do mesmo tamanho da sua. Ela não entende por que tem que pagar um preço tão exorbitante pelo que é um direito. Em Pernambuco, há 1.476 carros-pipa em operação: 638 do Exército e 838 do governo estadual. Isso sem falar nos mobilizados pelas prefeituras. Mas, segundo a população da caatinga, a oferta está longe de atender à demanda. Assim quem quase mais nada têm a oferecer é explorado. Gente como Adriano João da Silva, de 23 anos, residente em São Caetano, vizinho a seu Albertino, que está vendendo o rebanho para comprar água e comida para a família e os caprinos:
- O governo diz que vem todo mês uma carrada, mas não chega. A gente compra a R$ 130 no caminhão, e nem boa a água é, é salobra a danada. Até os bichos acham ruim - disse Adriano.
Para economizar, ele gasta três horas diárias no jumento para arranjar água barrenta nos açudes que ainda têm "um espelhinho" na caatinga. Precisa de 250 litros por dia para matar a sede das 40 cabras que restam.
Dez milhões afetados pela seca
Segundo a presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Tacaimbó, Antônia dos Santos Nascimento, há 300 reclamações de que falta ajuda dos caminhões oficiais. Apesar disso, o Ministério da Integração Nacional informou que a Operação Carro-Pipa é a maior já executada no país, coordenada pelo Exército. São 4.649 unidades, atendendo a 763 municípios, levando água a 3 milhões de pessoas. Só essa operação já custou R$ 510,1 milhões ao governo. Cerca de dez milhões de nordestinos foram afetados pela seca.
No cenário devastado, furto de cisternas piora a situação
Ao percorrer 1.200 quilômetros, foi possível ter a dimensão dos danos causados pela seca. Os açudes, barreiros e rios, como o Pajeú e o Riacho do Navio, estão secos. O verde da caatinga transformou-se num amontoado de galhos cinzentos, como às margens da BR-232, que liga Recife ao agreste. Ao lado da pista, as carcaças de bois mortos são facilmente encontradas.
Só no quilômetro 176 da BR, na altura do município de Belo Jardim, havia 16 carcaças, algumas recentes, cena que se repetiu 16 quilômetros adiante, no município de Sanharó.
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), prometeu que, até 2014, todas as casas da caatinga terão uma cisterna, de concreto ou de polietileno, como as distribuídas pelo governo federal, que diz ter entregue 250 mil unidades no semiárido. Muitas, não foram instaladas e já houve casos de furto, como em Floresta, disse Josélio Amaro Lisboa, coordenador do Comitê Gestor Municipal. Ele denunciou o sumiço de duas à polícia.
Os ladrões de cisternas (cada uma armazena 16 mil litros) não foram identificados. Elas foram furtadas às margens da rodovia PE-360. Iriam ser instaladas em duas escolas municipais, no vilarejo de Jericó. Ao contrário das cisternas de concreto, instaladas pela Articulação do Semiárido (ASA), as do governo não têm número de série, o que torna difícil seu rastreamento. Têm só o carimbo do "Água para todos", o slogan "País rico é país sem pobreza" e a marca de fábrica.
Os efeitos da seca deverão ser tema da reunião que a presidente Dilma Rousseff terá com os governadores em Fortaleza esta semana. Até o momento, são 1904 municípios nordestinos em estado de emergência. O Ministério da Integração Nacional informou que já investiu R$ 5 bilhões (desde 2012) para reduzir os efeitos da estiagem sobre a população do semiárido, por meio de benefícios como o Bolsa Safra, o Seguro Garantia Safra, a venda de milho subsidiada e crédito a juros baixos. O ministério negou que a indústria da seca persista, já que os beneficiários das medidas emergenciais constam do Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal identificados como de baixa renda.
'Sem aposentadoria rural, já tinha morrido'
Pesquisa aponta em 47,5% das cidades do semiárido, um terço dos moradores vive de programas federais
Letícia Lins
Floresta (PE) - As medidas adotadas pelo governo federal, se amenizam o sofrimento do sertanejo, mostram que décadas de estiagens prolongadas não foram suficientes para levar o homem da caatinga a uma convivência mais harmoniosa com o semiárido. Essa região carece de intervenções e programas que, segundo reconhece o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, deveriam ter sido implantadas há mais de um século. Segundo o ministro, só agora elas estão sendo providenciadas. Documento divulgado em Recife pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) /Nordeste 2, indica que, em 47,5% dos municípios do semiárido, um terço da população tem a renda proveniente de transferências governamentais.
- A aposentadoria rural é minha valia. Dela como, boto água, compro ração. Se não fosse isso, já tinha morrido de fome - disse José Albertino da Silva, de 75 anos.
Segundo autoridades do governo, é essa rede de proteção social (Bolsa Família, Bolsa Estiagem e aposentadorias rurais) que dá à atual seca um aspecto diferente: ainda não há registro de saque a feiras e mercados públicos, frequentes nas estiagens anteriores. Mesmo assim, a situação é considerada grave.
Só em Pernambuco, levantamento da Secretaria estadual de Agricultura indica que 17% das propriedades de leite (18.700) encerraram as atividades e que o rebanho mingou de 2,5 milhões para 1,6 milhão de cabeças: 200 mil morreram de sede, 370 mil foram levados para outros estados e 330 mil foram precocemente abatidas. Há 12 meses não se produz feijão nem milho nos municípios atingidos pela estiagem em Pernambuco. Dos 500 mil hectares de sequeiro (terreno sem irrigação), 370 mil deixaram de produzir em Pernambuco, onde mais de 120 municípios se encontram em estado de emergência.
O governo federal informou que já foram efetuadas mais de 271 mil operações de crédito nos 1.360 municípios afetados pela seca no Nordeste, e que os contratos somam R$ 2,13 bilhões. Mas na caatinga, a história é outra: os agricultores reclamam da burocracia e da dificuldade de acesso ao dinheiro. Dizem que o milho subsidiado não é suficiente, e já relatam até a ocorrência de desvio do produto. Como as sacas são brancas, sem carimbo da Conab, também fica difícil rastreá-las no caso de comércio irregular.
- É muito triste que se ganhe dinheiro com a desgraça dos outros. A gente sabe que o milho chega, é desviado para outros municípios, depois volta para Tacaimbó, não sei que fórmula é essa - reclamou Antônia dos Santos Nascimento, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais do município.
Milho só atende de 30% a 50% da demanda
De acordo com relatos ouvidos nos municípios percorridos pelo GLOBO, a quantidade da ração só atende de 30% a 50% da demanda. A Conab reconheceu a falta de milho (subsidiado) "em alguns municípios do Nordeste" e reclama da "limitada capacidade de armazéns" na região. E admitiu a existência de desvios. "O milho sendo comercializado a R$ 18, muito abaixo do mercado local (em torno de R$ 40) facilita a ocorrência de desvios por criadores", explicou. Já foi apurado um caso em Patos (PB).
Em maio do ano passado, quando foi visitado pelo GLOBO, Manoel Afonso de Santana já tinha perdido 20 dos 40 bois. Menos de um ano depois, na última terça-feira, mostrava um grande sacrifício para sustentar os quatro animais que restam (três bovinos e um equino). Ele e a mulher têm percorrido a caatinga, em busca dos últimos pés de macambira e mandacaru, plantas espinhentas que brotam do solo pedregoso do semiárido. Cortam os dedos retirando os espinhos, "pinicam" tudo (transformam em pedacinhos) e misturam com sal.
Colhidos e limpos, os vegetais se transformam em comida aos animais. O problema, e também a solução, é que o sal dá muita sede. Mas sem água, o gado não consegue digerir as plantas de folhas duras e fibrosas que lhe são ofertadas, na ausência do pasto. A cisterna doméstica secou e ele já gastou esse ano R$ 480 comprando água, para não deixar os últimos bichos morrerem de sede.
- Aqui já faltou água até para cozinhar. A gente comeu rapadura, açúcar, esses brebotes. Só sabe o aperreio quem está provando dele - disse Afonso.
Rebanho já perdeu 400 animais
Não muito longe do sítio Riacho de Ouro, o fazendeiro Sérgio Jardim compartilha das mesmas queixas. Diferentemente dos seis hectares de Afonso, sua fazenda pode ser considerada grande, com 300 hectares, em Jericó/Jatobá, a mais de 50 quilômetros de Floresta. Ele tinha um rebanho de 600 animais, dos quais só restam 200. Revoltado, fez um protesto: pôs carcaças de alguns bois mortos no cercado de sua propriedade. E deixou armada até os dias de hoje uma inusitada e macabra árvore de Natal, de cujos galhos pendem caveiras de bois. Ele disse que, ao contrário do que o governo propaga, a seca não é a maior dos últimos 50 anos:
- Pelos relatos dos antigos, é a maior do século - afirmou, lembrando que, há três anos, Floresta não tem uma boa chuva.
Levantamento do Contas Abertas aponta foco em ações remediadoras
Em 2012, governo não gastou toda a verba destinada para a seca
Carolina Benevides
RIO - Levantamento da ONG Contas Abertas nas ações de Enfrentamento a Desastres Naturais, que englobam verba destinada à seca e às enchentes, aponta que em 2012 o governo federal gastou efetivamente 62% do dinheiro que havia reservado no Orçamento da União. Dos pouco mais de R$ 12,4 bilhões que havia reservado, foram pagos, incluindo o gasto com restos a pagar, R$ 7,7 bilhões.
- No que está diretamente ligado à seca, vimos que o governo gasta às vezes mais com carro pipa e Bolsa Estiagem, por exemplo, do que com obras estruturais. Então, a execução do que remedia é melhor do que a do que vai eliminar o problema - diz o economista Gil Castello Branco, fundador do Contas Abertas:
- As obras caminham lentamente e essa dificuldade já é histórica. Sabemos que muito atraso se dá por falta de capacidade técnica dos gestores nos níveis municipais e estaduais, e que isso não acontece só nessa área.
Segundo o Contas Abertas, o programa Oferta de Água, que inclui construções de barragens, adutoras e até obras da transposição do Rio São Francisco, em 2012, tinha R$ 3,4 bilhões previstos no orçamento. No entanto, foi empenhado R$ 1,9 bilhão. E pago, efetivamente, R$ 406,9 milhões.
- É pouco. E o crédito orçamentário foi perdido, porque a diferença nem ao menos foi empenhada - diz Castello Branco.
De acordo com o Ministério da Integração Nacional, o governo federal está investindo R$ 7,402 bilhões em ações de enfrentamento à estiagem. Os programas se dividem em "ações emergenciais (R$ 2,36 bilhões), linhas emergenciais de crédito (R$ 2,24 bilhões) e ações estruturantes (R$ 2, 8 bilhões)".
A Bolsa Estiagem, por exemplo, criada em junho do ano passado, beneficiou mais de 880 mil famílias em 1.316 cidades do semiárido. O Garantia Safra, entre 2011 e 2013, atendeu a mais de 769 mil agricultores em 1.015 municípios. E, ainda segundo o ministério, em 2012 e 2013, a Operação Carro Pipa repassou mais de R$ 651 milhões. Até março deste ano, foram contratados 4.649 carros-pipa, que atenderam mais de três milhões de pessoas em 763 municípios.
- Claro que minimizar o efeito da seca é importante, mas o que mudaria a vida de tantas pessoas são as ações estruturais. O governo investe, mas é muito ruim não executar o orçamento todo numa área tão necessitada. Mesmo que chegue a 60%, 70% de execução, é pouco, porque essa área deveria ser extremamente prioritária - diz Castello Branco.
No Pac2, 225 empreendimentos
Em relação às obras, em nota, o ministério informou que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC2) selecionou 225 empreendimentos nos eixos de Oferta de Água, PAC Seca, Irrigação, Drenagem e Revitalização, que somam investimentos de R$ 2,2 bilhões. Destacou ainda que "no PAC Semiárido, o governo aprovou investimentos de R$ 2,6 bilhões, em 10 estados, em 179 obras de abastecimento de água para consumo humano". Entre as obras, estão a Adutora do Pajeú, Pernambuco, que "já leva água para cem mil pessoas em Serra Talhada", a Barragem de Atalaia, no Piauí, e o Canal do Sertão Alagoano, em Alagoas.
O Globo, 31/03/2013, País, p. 10-11
http://oglobo.globo.com/pais/industria-da-seca-agrava-pior-estiagem-em-…
http://oglobo.globo.com/pais/em-475-das-cidades-do-semiarido-13-dos-mor…
http://oglobo.globo.com/pais/seca-levantamento-aponta-foco-em-acoes-rem…
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