VOLTAR

Índios voltam a bloquear estrada em Roraima

OESP, Nacional, p. A5
16 de Jan de 2004

Índios voltam a bloquear estrada em Roraima
Novo protesto contra reserva Raposa Serra do Sol impede acesso ao município de Uiramutã

Zequinha Neto
Especial para o Estado

Uma semana depois de encerrado o movimento que parou Roraima, 80 índios interditam a ponte sobre o Rio Contão. A ação, tomada por lideranças, impede o acesso ao município de Uiramutã, no nordeste do Estado. Os índios são contrários à demarcação da reserva Raposa Serra do Sol.
Segundo o presidente dada Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima (Sodiur), Silvestre Leocádio, a intenção não é impedir o direito de ir e vir das pessoas. "Somos brasileiros e entendemos isso, mas estamos conversando com as pessoas e mostrando nossa indignação", observou. "Agora, os estrangeiros estão sendo impedidos de prosseguir viagem."
Os índios continuam se movimentando no interior do Estado e, desde o início da semana, estão sendo monitorados por agentes da Polícia Federal. Um grupo de agentes seguiu ontem para a região.
Segundo o líder da Sodiur, o objetivo da interdição da ponte é evitar que "pessoas ditas missionárias entrem na reserva apenas com a finalidade de incutir a desordem entre nós". Os índios planejam ainda estender a medida para a cidade de Pacaraima, situada ao norte do Estado, que mesmo estando dentro da reserva São Marcos, é um dos principais acessos à reserva Raposa Serra do Sol, pela BR-174. Os índios irão pedir ao governo federal que consulte a população antes de tomar qualquer decisão oficial sobre a demarcação. "Mais uma vez iremos propor a realização de um plebiscito", diz Leocádio. "Fizemos um documento com a assinatura de todos os índios contrários a homologação em área contínua e levaremos ao presidente. Somos a maioria. Não um grupo, como andam dizendo."
Luta - Os empresários do setor produtivo afirmaram que continuarão lutando e que não sairão com facilidade da área em questão. Alegam que investiram muito na montagem das fazendas e que nem mesmo o pagamento de uma possível indenização seria suficiente para atendê-los. O presidente da Associação dos Arrozeiros de Roraima, Paulo César Quartiero, deixa claro em suas manifestações que é favorável "a desobediência civil para que sejamos vistos como brasileiros".

'Ou se gosta deles ou não. Não há meio termo'
A revista The Economist vai à região e constata a profunda divisão entre índios e fazendeiros
A criação da reserva Raposa/Serra do Sol "é restauração, não expropriação", diz um dos seus defensores. Implantá-la "é um ato de extermínio", ao qual "só falta o crematório", diz, de outro lado, um de seus críticos. "Ou as pessoas gostam dos índios ou os odeiam. Não há meio termo", esclarece uma advogada em Boa Vista.
Esses depoimentos, que mostram como é difícil negociar a paz entre os dois lados, naquele pequeno quadrado no extremo Norte do País -, estão na reportagem que foi escolhida, esta semana, para abrir a seção "América Latina" da revista inglesa The Economist.
No início do mês, explica a revista, os adversários da reserva "bloquearam estradas para Boa Vista, a capital do Estado, e ocuparam as agências federal que tratam de índios e de reforma agrária. A briga não só polarizou Roraima.
Ela também joga luz sobre disputas mais amplas entre ecologistas e defensores da cultura tradicional de um lado e, do outro, os advogados do crescimento econômico."
Depois de definir as reservas como uma área onde "a terra e o subsolo pertencem ao governo, mas os índios controlam o acesso e a atividade econômica", a revista lembra que elas contam com todo o apoio de ONGs internacionais e da Igreja Católica no Brasil - e assumem, na prática, o papel de "baluartes contra forças que põem em perigo a Amazônia".
Por décadas, explica o Economist, os 15 mil índios da região tentaram recuperar suas terras de garimpeiros e fazendeiros, "que para lá levaram bebidas, sujeira e prostituição". Mas esse retorno ao passado não entusiasma Boa Vista, onde vive metade da população do Estado. A cidade tem "uma atmosfera étnica mais típica dos Balcãs do que do Brasil", na qual "brancos odeiam índios e estes aos brancos".
O que de fato está em debate, como fica claro, é o real interesse dos índios em manter a reserva e as tradições. Os críticos alegam que "as ongs e a Igreja estão querendo impor um estilo de vida de simplicidade e isolamento que os índios não querem mais. "Ao contrário, eles querem TVs, carros, tudo", conta à revista o índio Gilverto Makuxi, do grupo indígena Arikom. Se a "Raposa" for levada adiante, ele prevê, "haverá uma guerra entre nós". No outro lado da disputa, os ecologistas e outros defensores da reserva entendem que esses críticos "foram pagos pelos plantadores de arroz". A definição da reserva como "um ato de extermínio", por exemplo, é de um plantador de arroz da região, Paulo César Quartiero. (Gabriel Manzano Filho)

OESP, 16/01/2004, Nacional, p. A5

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.