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Índios usam tubérculo contra picada de cobra na Amazônia

Agência Amazônia de Notícias
Autor: Montezuma Cruz
29 de mai de 2008

Surucuína é uma das 160 plantas medicinais da Amazônia. O médico francês Gil de Catheu formou 36 índios agentes de saúde.

GUAJARÁ-MIRIM, RO - Em 11 de novembro de 1982 o Vale do Guaporé recebeu de braços abertos o médico francês Gilles de Catheu, 49 anos, o Gil. No natal daquele ano, liderando uma equipe missionária fluvial de quatro pessoas, ele se inseriu na saga de outros franceses que se destacaram na Amazônia Brasileira desde os idos de 1920.

Entre os Oroin (Pakaas-novos), conheceu o uso de plantas medicinais para diversos tratamentos de saúde. "Passei a tratá-los como se fossem meus parentes", lembra. Catheu deparou com a hepatite atacando implacavelmente povoados, seringais e aldeias indígenas ao longo do Rio Guaporé e afluentes. Foi trabalhar e aprender com eles. Cinco agentes de saúde Orowari dominam o conhecimento da surucuína, uma batata utilizada como antídoto contra a picada de cobra jararaca. O ancião Palitó Oro Nao ensinou os Oroin (Pakaas-novos) de Rio Negro Ocaia a usar a medicina tradicional na aldeia.

Essa planta é atualmente uma das grandes riquezas amazônicas. Na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Sul do Acre, ela é encontrada em abundância. A surucuína e outras 160 espécies de plantas consideradas medicinais pelos seringueiros da reserva foram estudadas e catalogadas pelo engenheiro agrônomo Lin Chau Ming , do Departamento de Horticultura da Faculdade de Ciências Agrônomas do campus de Botucatu (SP). Ming passou um mês do ano pesquisando as plantas, morando com os nativos e se submetendo a toda sorte de aventuras. O trabalho fez parte de sua dissertação de doutorado defendida no final de 1995 no Instituto de Biociência de Botucatu.

Foi e voltou

Formado em Paris, Catheu conheceu a Associação Lettre dAmazonie. "Eu tinha apenas 15 anos e, aos 23, tomei a decisão de vir para o Brasil", conta. Dois religiosos o influenciaram: de um lado, o padre Paulo Verdier - irmão do bispo diocesano de Guajará-Mirim, dom Geraldo Verdier - que já estava em Rondônia; de outro, o padre Sylvan Dourel, fundador da revista daquela entidade.

Em 1984 voltou para Paris, optando pela pediatria em hospital público. "Fui embora, mas levei a idéia de retornar. E assim o fiz, em julho de 2005", relata. Foi morar na Colônia Sagarana, administrada desde 1965 pela Diocese". Catheu trabalha para o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Como você se aproximou dos índios?

GIL DE CATHEU - Foi amor à primeira vista: a beleza, a sensibilidade e a cultura desse povo ligaram a minha vida à deles. O céu estrelado indicou-me a formação de uma sólida aliança. Ainda havia muita discriminação da população de Guajará-Mirim em relação ao índio. Era preconceito mesmo.

Seu trabalho foi bem recebido?

Inicialmente não. Houve restrições por eu ser católico. Na verdade, eu não fui bem visto. Temi um pouco a ditadura militar ainda existente no Brasil naquela época. Notei que os índios eram tratados com mãos de ferro quando faziam alguma reivindicação.

Quem mais começou na equipe?

Entre outros, a irmã Saleta, dentista da Congregação Imaculada Conceição.

Como foi o treinamento dos índios em Sagarana?

A partir de 1986 treinei três índios: Juarez Aruá, Cândido Canoé e Coüm Oromon. Quatro anos depois, em 1990, a Funai restringiu-nos, fazendo prevalecer o conceito de que o índio não era responsável, mas a essa altura a experiência já se configurava positiva e atraiu índios de outras aldeias.

Como funcionava esse treinamento?

Assim: à noite eu dava aulas no quadro negro, com diversos temas a cada semana: diarréia, verminose, prevenção e resgate da medicina tradicional e o uso da fitoterapia própria. Durante o dia, eles me acompanhavam no atendimento. Em 1991, me afastei um pouco, mas em seguida consegui formar 12 agentes de saúde nas principais aldeias da região, entre elas, Oroari, Orowina, Jaboti, Makurape e Aruá.

Enfermagem na mais pura essência...

Isso. Eles foram motivados tanto pela necessidade de ter alguém que ficasse na aldeia e pela própria vontade de assumir o serviço de saúde. O trabalho cresceu até chegar à formação de 36 agentes, em 1999. Os mais antigos foram se reciclando. Foi possível organizar quatro viagens anuais, de aldeia em aldeia, consultando e acompanhando. A formação do agente implica o acompanhamento regular da prática, para se avaliar e completar o ensino.

A surucuína entrou nesse treinamento?

Os índios mais jovens aprenderam com os antigos o uso eficaz da batata de surucuína contra picadas de cobra. Aprenderam mais com os antigos, sobre a cana do macaco, de cujo talo se extrai um sumo que também é antídoto. Tudo veio numa boa hora, porque há dois anos um índio morreu em conseqüência de picada. Uma equipe já foi ao Purus (no sudoeste amazônico), formando 12 agentes de saúde entre o povo Apurinã.

Ouvem-se queixas dos pajés de que os conhecimentos deles vêm sendo relegados. É verdade?

Bem, no Rio Negro Ocaia (afluente do Rio Pakaas-novas), ministramos um curso que foi totalmente acompanhado por anciões. Eles deram aulas completas sobre plantas medicinais. Em 1996 começamos a atuar em Vilhena (divisa de Rondônia com Mato Grosso), entre os Nambikwara e os Aikanã. Em duas oportunidades de 15 dias cada uma, formamos 18 agentes. Uma equipe do Cimi, com enfermeira, acompanhou esse trabalho. Os agentes checam nascimentos, óbitos, ocorrências gerais e fazem a ficha completa do paciente.

Como está a situação dos indígenas do Guaporé?

Não é boa. Faltam óleo diesel, inseticida e meios de transporte. A tuberculose, por exemplo, está entre eles desde a época do contato. A incidência de malária é altíssima. Diarréia e desidratação preocupam muito. E a alimentação mudou bastante, desde a farinha de mandioca. Atualmente eles compram arroz, sal e açúcar, algo que há dez anos não havia. Eles ainda comem castanha.

Ambientalmente, a situação também é difícil?

Ninguém controla o fogo em incêndios criminosos, não há fiscais. Eu, pessoalmente, não creio em reflorestamento. No Distrito de Surpresa, um santuário ecológico situado na parte 2 do Zoneamento Agroecológico do Estado de Rondônia e na Zona de Amortecimento do Parque Nacional da Serra da Cutia, o desmatamento ilegal avança, para a formação de pastagens. A Secretaria Estadual do Meio Ambiente não consegue controlar as invasões nas unidades de conservação sob sua responsabilidade.

Você é totalmente contra a exploração da madeira?

Não. Defendemos, no Cimi, na Diocese e na Comissão Pastoral da Terra, que seja feita uma exploração racional, com fiscalização eficiente ditada por decisão política dos governantes. Pedimos que não seja aprovado nenhum Plano de Manejo Florestal em Rondônia e que sejam suspensos os que forem aprovados enquanto houver desmatamento ilegal e roubo de madeira nas reservas. Os infratores devem ser multados e pagarem essas multas.

Há precedentes que levam a esse raciocínio...

Claro! Nas operações de fiscalização, os infratores raramente são encontrados. Em 14 de outubro de 2006, no Distrito de Nova Dimensão, no município de Nova Mamoré (a 40 Km de Guajará-Mirim), ocorreu uma apreensão de milhares de metros cúbicos de madeira de lei. Seriam 7 mil, mas há divergência de números entre a Secretaria de Meio Ambiente do Estado e o Ibama. As toras foram retiradas de área indígena.

O índio preserva...

Sim, e muito. Até 2012 o Brasil e os países do G-8 firmaram compromisso para alcançar 50 milhões de hectares de florestas conservados, já foi possível conseguir 18 milhões de ha, mas as áreas indígenas não estariam incluídas nesse esforço. É preciso considerar que nas terras indígenas também se conserva.

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