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Índios urbanos enfrentam desemprego na periferia de SP

Agência Carta Maior-Brasília-DF
Autor: Rafael Sampaio
07 de Jun de 2005

Além da falta da posse da terra, questões comuns aos habitantes de grandes cidades, como violência, desemprego e desenraizamento cultural, são os principais problemas dos três mil índios paulistanos, dos quais apenas uma parcela vive nas três aldeias existentes na cidade.

Metrópole de todos os povos, a cidade de São Paulo também tem índios entre seus quase onze milhões de habitantes. São mais de três mil membros das etnias guarani, pankaruru, kariri-xocó, pankararé, folni-ô, kaxinawá e xavante, que tem sofrido com a exclusão social e o descaso do poder público. Chamados de índios urbanos, poucos deles conseguem ter acesso, por exemplo, aos direitos específicos garantidos pela Funai (Fundação Nacional do Índio).

Além da falta da posse da terra, questões comuns aos habitantes de grandes cidades, como violência, desemprego e desenraizamento cultural, são os principais problemas dos índios paulistanos, dos quais apenas uma parcela consegue viver nas três aldeias existentes na cidade. Havia a expectativa de que o reconhecimento desses índios como pertencentes a etnias, o que começou a ocorrer só há 13 anos, fosse beneficiá-los - o Estatuto do Índio impede a Funai de desenvolver políticas para indígenas que não estejam agrupados em aldeias. Mas até agora pouco mudou.

Os primeiros a serem reconhecidos foram os da etnia pankararu, residentes no Real Parque, na zona sul. "Sabemos que a situação dos índios não está melhor com o reconhecimento. Muitos vivem em favelas e não tem a posse de sua terra", admitiu Amaury Vieira, administrador regional da Funai em São Paulo. Ele foi um dos participantes, ao lado de lideranças indígenas da capital, do seminário "A realidade dos Povos Indígenas nas Áreas Urbanas de São Paulo", realizado na Assembléia Legislativa na última segunda-feira (6).

Os próprios Pankararu, que migraram do interior de Pernambuco para a capital, compartilham dessas dificuldades. "Começamos a migrar em 1950", diz Maria Dolores Pankararu, a Dora. "Nossa etnia é pobre e deixou de falar a língua Tupi depois da migração. Vivemos em uma favela próxima ao Palácio do Governo, no Morumbi", conta ela.

Pobreza
Oim-Porã, líder dos índios Kariri-Xocó, conta que o medo do desemprego e do desrespeito leva membros da etnia a não assumirem suas origens. "Desde que saímos do interior de Alagoas vivemos em estado de vergonha. Não temos aldeia em São Paulo, vivemos de bicos", diz o líder indígena. Segundo ele, os Kariri-Xocó complementam sua renda com apresentações em escolas, universidades e outros lugares de onde recebem doações. "Me sinto um pedinte. Tudo que queremos é trabalhar, e não cesta básica ou assistencialismo". Durante o Toré (apresentação de dança dos Kariri-Xocó), um dos índios pediu à estudante de Ciências Sociais Carolina Besse, que assistia ao seminário, para lhe dar um real para comer.

A prioridade nas reivindicações indígenas diz respeito à demarcação de suas terras. "As etnias não compõem aldeias porque não tem terras, e por isso o Ministério da Justiça não homologa a demarcação. É urgente que esse círculo vicioso seja quebrado com terras demarcadas", se exalta Antonio Salvador Coelho, representante da Pastoral Indigenista, ligada à Arquidiocese de São Paulo. Cacique Timóteo, representante da aldeia Guarani localizada na represa do Guarapiranga, reclama do desprezo a que seu povo foi submetido pelo Governo do Estado. "Não fomos consultados pela Secretaria Estadual dos Transportes quando o trecho sul do Rodoanel foi construído".

Durante a construção do trecho Sul, ao governo apresentou um laudo antropológico feito sem a participação dos indígenas, cujo conteúdo afirma que eles não seriam afetados pelo Rodoanel. O cacique mostra-se preocupado com a ocupação desordenada em torno da represa. "Agora que o Rodoanel está pronto, o governo precisa demarcar as terras dos Krucutu e as nossas para evitar ocupações que podem torná-las favelas", reclama Timóteo.

Guarani
Os líderes das aldeias localizadas no pico do Jaraguá [zona Oeste] e em Parelheiros temem perder a pouca infra-estrutura que possuem. "Vivemos em 52 famílias. Dá quase 280 pessoas vivendo em 2 hectares de terra", informa Poty-Poran, a jovem líder dos Guarani no Jaraguá. "É pouco espaço para muita gente. Nosso povo está acostumado a viver espaçado e agora temos que nos amontoar", diz ela.

Até pouco tempo atrás, a renda da comunidade provinha de exposições de sua cultura e venda de artesanato. Desde 2001 a instalação de uma escola estadual na aldeia mudou sua rotina. "Conseguimos fazer com que a escola fosse bilíngüe e que o corpo de funcionários e professores fosse todo de moradores da aldeia", diz com orgulho Poty-Poran. "O desemprego diminuiu". As classes do Jaraguá são multisseriadas, com estudantes de primeira a quarta série do ensino Fundamental.

Para suprir a falta de ensino para crianças de quatro a seis anos na aldeia, a Prefeitura de São Paulo instalou no ano passado uma unidade do projeto Ceci (Centro de Educação e Cultura Indígena). As aulas incluem lendas, canções, religião e brincadeiras tradicionais. Porém a mudança de gestão na Prefeitura em 2005 causa receio à líder Guarani, que também é estudante de Pedagogia na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e professora da escola da aldeia. "Não sabemos o que vai acontecer a partir de agora. Teremos que procurar outro parceiro para realizar a nova edição do Fórum de Lideranças Jovens Indígenas", diz Poty-Poran.

Amaury Vieira e o deputado Adriano Diogo (PT), que promoveu o seminário na Assembléia, temem igualmente. O deputado afirma que um membro do governo estadual publicou um texto na internet em que criminaliza os povos indígenas paulistas. "Posso presumir que o governo de Geraldo Alckmin considera que povos como os indígenas e os quilombolas 'devastam' o meio ambiente. O texto fala que índios caçam animais em extinção", diz Diogo.

Poty-Poran pondera que o Fórum de Lideranças realizado em 2004 teve pelo menos uma vitória: um projeto de educação sexual para os Guarani foi aprovado pela Prefeitura de São Paulo. "As jovens da aldeia têm engravidado antes do casamento. Precisamos da educação sexual para impedir que as tradições da aldeia sejam quebradas", diz ela.

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