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Índios urbanos

Revista Horizonte Geográfico - www.edhorizonte.com.br/revista
Autor: Flávio Bonanome
21 de ago de 2008

Eles sabem tudo da modernidade, pois têm acesso à maior metrópole do País. Mas os guaranis das aldeias paulistanas insistem em manter sua identidade

Para quem ainda imagina que os índios constituem uma população homogênea, habituada apenas à vida na floresta e sem contato com a cidade, a existência de quatro aldeias guaranis no espaço urbano de São Paulo, a maior metrópole do País, pode despertar estranheza. Mas eles estão ali há bastante tempo e, apesar da proximidade com o modo de vida dos juruás (como chamam os não índios), mantiveram seus costumes e identidade ancestral, adaptados ao mundo onde vivem e à falta de serviços e infra-estrutura do lugar. Na aldeia Pyau, por exemplo, um terreno descampado de 2,5 hectares, a cerca de 15 metros da barulhenta rodovia dos Bandeirantes, na região do Pico do Jaraguá, moram cerca de 320 índios. Ali mesmo, do outro lado da avenida que corta o bairro, fica a aldeia Ytu, de 1,8 hectare, onde vivem mais 120 guaranis.

No outro extremo da capital paulista, na zona sul, está situada a aldeia Tenonde Porá, com 800 pessoas que habitam uma área de 26 hectares; e seu desdobramento, a aldeia Krukutu, de 180 índios. São terras situadas em rotas históricas de migração guarani, habitadas por famílias vindas do Paraná, do Vale do Ribeira e do litoral paulista, homologadas em 1987. No Jaraguá, a situação é mais complicada, pois apenas a aldeia Ytu foi regularizada – Pyau constituía um terreno desocupado em frente à aldeia, onde hoje moram diversas famílias. O modo de vida, porém, é o mesmo em todas as comunidades.

Os mais velhos ensinam histórias, costumes e religião para as crianças. Estas só se comunicam em guarani até os 6 anos, quando são alfabetizadas em português (e guarani) e, para não romper a relação com a natureza, pelo menos duas vezes por ano viajam para outras aldeias situadas em áreas mais verdes e isoladas. Todos os dias, quando anoitece, os moradores se reúnem na casa de reza, cantam orações e discutem os acontecimentos do dia.
Para Pedro Luis Macena, vice-presidente da Associação República Guarani Amba Vera, a cultura guarani continua bem viva. "Temos 508 anos de sobrevivência", afirma. A única diferença é a relação com a sociedade e a própria modernização da aldeia. "Não é preciso viver como os índios da época do descobrimento para praticar nossos costumes", explica. "Precisamos nos adaptar."

Morador de Pyau há oito anos, Pedro nasceu em uma aldeia guarani próxima de Foz do Iguaçu, no Paraná, mas viveu muitos anos no litoral paulista, principalmente em Parati. "Esse é um dos nossos costumes", explica. "Chegar, plantar um ou dois anos e depois mudar para outro lugar. Assim a terra descansa." Apesar de seguir a tradição e manter a vida errante, o líder guarani compreende a importância da relação com a sociedade moderna. "Só com o conhecimento tradicional não temos como garantir o futuro de nossos filhos", considera. "Por isso, é importante que as crianças aprendam também o português."

Essa relação entre os guaranis e a cidade é um dos objetos de estudo do antropólogo Fábio Nogueira da Silva, que atua desde 2001 no Núcleo de História Indígena da Universidade de São Paulo. Segundo ele, "a cidade tornou-se a floresta na qual os guaranis fazem a caça e a coleta". Ou seja, nos locais onde a mata proporciona recursos, os índios se bastam. Na cidade, eles têm de procurar outras fontes de sobrevivência, o que é muito difícil.

Na pequena área do Pyau e do Ytu, por exemplo, não é possível caçar e o plantio é quase impossível. Cercados pela rodovia, sem espaço para cultivar suas plantas medicinais, sem água potável e alimentos obtidos diretamente na natureza, eles vivem como podem. A maioria depende do auxílio do governo e de cestas básicas doadas por igrejas e organizações não-governamentais. Alguns se dedicam ao pequeno artesanato e, aqueles que aprenderam mais, desempenham funções nas instituições criadas dentro das aldeias, como centro de saúde e escola. Sabem trabalhar com computadores, internet e usam telefone celular.

A esperança são os Centros de Educação e Cultura Indígena (Ceci), órgãos criados pela prefeitura em parceria com as comunidades, nos quais as crianças recebem educação equivalente à dos não índios até o quarto ano do ensino fundamental. Os centros ensinam em guarani e os mais jovens aprendem aspectos culturais do seu povo. Tudo ensinado pelos próprios índios. Na aldeia Tenonde Porá, na zona sul, a escola atende da 1ª à 8ª séries do ensino fundamental. A comunidade desenvolve projetos de ecoturismo para receber os não índios, além de outras atividades, como CDs com músicas guaranis.

No Jaraguá, após o ensino fundamental, as crianças precisam se matricular nas escolas estaduais próximas. Isso não impediu que Potu Porá, moradora de Ytu, se formasse em pedagogia. Nas duas aldeias do Jaraguá, há seis universitários que freqüentam as faculdades do centro da cidade, mas nunca esquecem suas obrigações com a família e as tradições. "Graças a Deus, a vida coletiva não se perdeu", constata Alísio Tupã Miri, presidente da Associação República Guarani Amba Vera e morador do Pyau. "É isso que importa."

Quem são os guaranis

Os guaranis representam uma das etnias mais numerosas do Brasil, somando 35 mil índios distribuídos por aldeias na costa sul e sudeste do País e no interior do Mato Grosso do Sul. Outros 50 mil guaranis vivem entre a Argentina, o Paraguai e o Uruguai. Moradores do litoral, foram os primeiros índios a entrar em contato com os colonizadores e, no embate entre as duas culturas, foram dizimados, escravizados ou abrigados em aldeamentos erguidos pelos jesuítas, que se serviam de sua força de trabalho. Ainda assim, resistiram em defesa de suas tradições. Divididos em três grupos - Kaiova, Nhandeva e Mbya (ao qual pertence as quatro aldeias paulistanas) - vivem em pequenas reservas, algumas regularizadas e outras não. Também se movem muito ao longo da costa, à procura de recursos naturais e para visitar familiares.

A vida como ela é

As fotos e desenho desta página foram feitas por crianças e jovens das comunidades guaranis de São Paulo durante oficinas de fotografia e desenho, coordenadas pela fotógrafa Rosa Gauditano. Mostram o cotidiano e as origens das aldeias Mbya da cidade. São uma pequena amostra de um acervo muito maior, produzido com câmeras digitais coloridas para documentar a comida, o banho, a casa, a mata, a escola e os animais.

O trabalho se transformou no livro Aldeias Guarani Mbya na Cidade de São Paulo e em uma exposição realizada em 2006. Mostram as impressões das crianças com o projeto; as brincadeiras tradicionais, como a de "arrancar mandioca"; as salas de aula decoradas com motivos indígenas; a aprendizagem do uso do arco-e-flecha; e uma vista geral de Tenonde Porá.

Exclusivo On-line

Acesse o blog da Aldeia Pyau e veja um pouco mais sobre o modo de vida dos índios urbanos

http://sem_limites.zip.net/index.html

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