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Índios Tenharins recebem turistas à bala

Estadão do Norte-Porto Velho-RO
Autor: Vismar Kfouri
31 de jul de 2001

Parece que a ocupação da Amazônia já existe há muito tempo no interior da maior floresta do planeta. Brasileiros que fazem turismo deixam de viajar para o exterior para conhecer as belezas luxuriantes da selva amazônica são tratados como inimigos, ao passo que estrangeiros que praticam pirataria de nossa flora e fauna são tratados como senhores feudais do século XVIII.Cerca de 25 turistas do Estado do Paraná que há nove anos vêem para Rondônia praticar pesca ecológica, neste ano mudaram o roteiro. Deixaram o Rio Guaporé e alugaram o barco Ruth Nascimento para descerem o lendário Rio Madeira onde permaneceram por quase um mês. A família Dobgenski, formada por empresários e universitários, todas as vezes que vêm a Rondônia fazer esse tipo de turismo, aproveitam para levar mensagens e ensinamentos aos povos do interior. O empresário Elcio Dogenski prega os ensinamentos de Alan Kardec aos ribeirinhos e caboclos contratados para servirem de guia aos componentes da expedição. Os jovens e crianças que fazem parte dessa turnê aproveitam para travar conhecimento com as coisas simples da Região Norte, fotografam, filmam e entrevistam as famílias que vivem às margens dos nossos rios.Todavia, neste ano as coisas não correram tão bem como nos anos anteriores quando os componentes dessa expedição percorria o Rio Guaporé descendo de Pimenteiras até o Porto Rolim de Moura.Quando navegávamos no Rio dos Marmelos, onde a Funai está demarcando a Reserva Indígena dos Tenharins, fomos informados de que os silvícolas não deixariam o barco Ruth Nascimento entrar no mesmo. Na boca do Rio dos Marmelos, uma canoa com um cacique e dois guerreiros chegaram de voadeira até o nosso barco e informaram que não podíamos seguir adiante porque a sua Associação que fica ali na boca do dito rio. Isso já era de madrugada, o cacique informou que nem a lancha com o governador Amazonino Mendes conseguiu subir o Rio dos Marmelos. Todavia, com muito custo e argumento de que só praticávamos pesca ecológica — pesque e solte - , e que iríamos fotografar e filmar, os índios concordaram que subíssemos o mencionado rio se levássemos um representante da tribo dos Tenharins e outro dos Piranhãns, para servir de guia para a expedição.Feito o acerto, o barco Ruth Nascimento subiu com muita cautela o Rio dos Marmelos. No quarto dia chegamos na boca do Rio Amazônia onde formos informados que teríamos que parar por ali e seguir até a primeira cachoeira em voadeiras. Os rondonienses Edson Dobgenski, Edmar Cabral e Adão Valmorbida, os irmãos Dobgenski Elcio e Edgar, e os dois índios conseguiram chegar até a primeira cachoeira que já próxima da rodovia Transamazônica.Os demais componentes da equipe ficaram no barco pescando e fotografando as belezas próximas. Os jovens universitários Franco Dobgenski, Luigi Eugenio Prolucci, Robson Dobgenski, Lucio Morelli Soares e Rodrigo Faucs Munhoz da Cunha, secundaristas de engenharia em Curitiba, aproveitaram o tempo fotografando e filmando a região. Levaram vasto material para o Paraná, juntamente com o material informativo que conseguiram em Porto Velho.Alguns representantes da expedição estranharam o fato de que o Rio dos Marmelos não tem uma piscosidade como se imaginava, suas margens são pobres de fauna, raramente se via uma ave ou um animal silvestre. Os componentes argumentavam entre si que, ou os índios haviam acabado com a caça e a pesca no Rio dos Marmelos, ou algo diferente impedia a proliferação da fauna em suas margens. Nas praias de areias brancas não se via um pássaro ou rastro de animais, apenas vimos rastros de pés calçados e de uma onça.Já na cidade de Humaitá, onde paramos quinze dias depois para abastecer o barco, fomos informados pelo filho da terra Antônio Vivaldo de que os americanos levam areia monazítica das praias do Rio dos Marmelos e que pagam os índios para não deixar turistas entrarem no mesmo a fim de não surpreenderem os mesmos.HidroaviãoO índio Codó Tenharin, que assessorava os turistas, muito palrador, dizia que não entendia como deixaram o barco Ruth Nascimento entrar no Rio dos Marmelos, já que nem o governador do Estado do Amazonas conseguiu entrar no mesmo. Continuando a conversa o mesmo informou que apenas o avião dos americanos desce no rio uma vez por mês e seus cinco ocupantes ficam dois ou três dias acampados nas praias e depois vão embora e que não sabia o que eles fazem quando ficam no Rio dos Marmelos. O empresário do ramo de auto peças em Curitiba, Josefh Luzycki que ouviu a informação do índio tenharim, argumento que é por isso que as grandes nações pensam em internacionalizar a nossa Amazônia, o governo brasileiro não consegue vigiar e proteger com segurança seu vasto e inóspito território na Região Norte do país. Os gringos vêm e fazem o que querem, levam o que querem, patenteiam nossos produtos e nos revendem com preços absurdos, alguma coisa cara os gringos estão levando do Rio dos Marmelos, caso contrário não fariam um investimento tão alto como usar um hidroavião.Durante oito dias os componentes da nossa expedição ficaram nadando, pescando, fotografando e filmando o interior do Rio dos Marmelos, uma beleza para os olhos e uma tristeza no coração tal a sua depredação ambiental.Tiros e revoltaNa volta ao Rio Madeira, após oito dias navegando pelas águas verdes do Rio dos Marmelos, os jovens da expedição estavam eufóricos porque iriam conhecer uma cidade do Estado do Amazonas, a cidade de Manicoré. No entanto, ainda iria demorar um ou dois dias até chegarmos a ela. Antes teríamos que deixar os dois índios que nos serviram de guias, Codó Tenharin e o Pirahãn que ganharam muitos presentes úteis dos jovens acadêmicos de Curitiba que não se cansavam de fazer perguntas aos silvícolas.Não deu e até o momento ninguém conseguiu ou consegue entender o porque, ou o que motivou os fatos a seguir. Quando chegamos na boca do Rio Madeira, o cacique e outros representantes da Tribo Tenharim nos receberam em festa, receberam presentes e uma certa importância em dinheiro e presentes, conversaram animados e alegres, apertaram se as mãos e se despediram com cordialidade.Todavia, quando o barco Ruth Nascimento navegou cerca de 200 metros a favor da correnteza em direção a cidade de Manicoré, da margem onde fica a aldeia Tenharim, foram disparados cerca de 10 tiros de armas de fogo, cujos projéteis chegaram a cerca de dois a três metros do nosso barco. O menino Tatá Dobgenski, de apenas 11 anos, dizia alterado: estão atirando em nós, tio. Olha quantos tiros, as balas estão caindo perto, tio, o senhor não vai fazer nada?!.Eu ponderei ao meu sobrinho que não podíamos fazer nada, além de nos afastarmos do alcance dos tiros das espingardas. Se eles usassem rifles, com certeza teriam acertado alguns de nós.Já fora de perigo, o barco seguiu em direção a cidade de Manicoré onde iríamos abastecer de combustível e de alimentos.MalhadeirasA nossa floresta amazônica é tão rica e bonita que não temos dúvida de que grandes nações a cobicem e planejam ocupá-la com o pretexto de que não conseguimos preservar suas riquezas vegetais e minerais. Muitos acreditam que isso esteja para acontecer, nativos da região, políticos e intelectuais já disseram que se acontecer a tão falada internacionalização, a Região Amazônica se transformará num novo Vietnã, sua gente jamais aceitará que isso aconteça, que sua soberania seja conquistada por outras nações como pretexto de salvar o oxigênio do planeta.Sofismas à parte, o que a expedição viu e anotou no decorrer de 25 dias aproximadamente, foi deveras estarrecedor. Por onde navegávamos, milhares de quilômetros de malhadeiras usadas por pescadores profissionais e clandestinos, acabam com várias espécies de peixes. Não existe um padrão para se usar as malhadeiras, são de todos os tamanhos, pegam tanto peixes grandes como miúdos, o que provoca a extinção de várias espécies.O que os pescadores não notam que estão acabando com seu próprio sustento estão enriquecendo os grandes atravessadores que ficam no conforto das cidades e seus filhos num futuro muito próximo terão que deixar a tranqüilidade do interior, dos rios e das matas para irem morar nas favelas das grandes cidades.A verdade é que em quase um mês de viagem pelo interior dos rios da Amazônia, não vimos uma embarcação oficial, nem da Marinha e tampouco do Ibama, fiscalizando ou dando assistência aos nossos caboclos amazônidas.Notamos que estrangeiros continuam roubando nosso minérios, nossas essências vegetais e nossa fauna linda e maravilhosa. Até que o Sivam seja ativado ou até a tão falada internacionalização?Se existe fumaça, há fogo, que custa às autoridades investigar? Afinal, a nossa soberania na Amazônia não está sendo desejada mesmo pelas grandes nações?Isso todos nós sabemos, até a minha Santa Tambura sabe!

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