VOLTAR

Índios suspeitos de canibalismo

CB, Brasil, p. 11
11 de fev de 2009

Índios suspeitos de canibalismo
Segundo polícia, jovem com deficiência mental teria sido morto por cinco kulinas no município de Envira. Grupo teria esquartejado e comido partes do corpo da vítima

Paloma Oliveto
Da equipe do Correio

A população de Envira, município do sudeste amazonense, está chocada com um crime ocorrido no último dia 2, mas que só ficou conhecido ontem, depois que fotos de um jovem decapitado e esquartejado começaram a circular pela internet. Portador de deficiência mental leve, Océlio Alves de Carvalho, 21 anos, foi assassinado na aldeia Cacau, povoada por índios kulina e localizada a 4km da cidade. De acordo com testemunhas, cinco indígenas comeram partes do corpo do jovem e abandonaram os restos na mata.

O sargento da Polícia Militar José Carlos Corrêa, que atua como delegado no pequeno município de 17 mil habitantes, deve concluir o inquérito até amanhã, mas afirma que já sabe quem são os suspeitos. Trata-se de um grupo de cinco pessoas, conhecidas por Vadeci, Socorro, Aleijadinho, Macaquinho e Todomar. "Foi o próprio chefe da aldeia quem entregou os nomes", disse Corrêa. Segundo ele, o crime teria ocorrido por vingança. No ano passado, um kulina da aldeia morreu afogado em um acidente, mas alguns índios acreditam que ele foi assassinado. "Testemunhas, inclusive índios da própria aldeia, ouviram esse grupo dizer que matariam um cariú, como chamam os brancos. Foi o Océlio, como poderia ter sido qualquer outro", afirma o delegado.

Valdeci chegou a ser preso, mas, sob a tutela da Fundação Nacional do Índio (Funai), foi solto e encontra-se na aldeia. Os outros fugiram. O guarda municipal Francisco Eudo, tio de Océlio, diz que a população está em pânico. "Todos estão com medo de novas ocorrências. Eu mesmo fui ameaçado de morte no domingo passado, assim como o Raul Kulina, uma das testemunhas", conta. O delegado afirma que o filho de Valdeci é o suspeito de ter ameaçado Eudo.

A família, de acordo com o tio de Océlio, está desolada não só por causa do homicídio, mas pelo que consideram um descaso da Funai, que demorou dois dias para ir à cidade, só acessível por meio de avião ou barco. Os próprios familiares tiveram de ir à aldeia resgatar os restos mortais da vítima.

Na segunda-feira 2, por volta das 16h, o jovem deveria ir para casa depois de pastorear bois. Foi nesse momento que, de acordo com testemunhas, teria sido induzido pelo grupo de índios a visitar a aldeia. Lá, ainda conforme indígenas que viram a cena, ele foi esfaqueado. A perícia, realizada no Hospital Geral de Envira, contabilizou 80 facadas. Depois, o corpo de Océlio foi partido ao meio, num corte vertical do crânio até os órgãos genitais. As pernas e os braços foram cortados. "Os outros índios pediam para eles não fazerem aquilo, mas então eles começaram a assar o coração, o fígado, parte das vísceras e um pedaço da coxa esquerda. Depois, comeram", conta o delegado. Ele ressalta, porém, que não houve qualquer tipo de ritual. Os índios estariam bêbados. "Esse é um problema muito grave aqui. Eles chegam a beber álcool puro, que chamam de 'cabeça azul', por causa da cor da tampa", relata.

Cultura
Em nota, a Funai afirmou ontem que "a prática da antropofagia entre os povos indígenas no Brasil contemporâneo não ocorre mais". "A antropofagia não faz parte da cultura dos kulina. Além disso, eles estão em contato com os não índios há muito tempo", confirma o antropólogo Stephen Baines, professor da Universidade de Brasília (UnB). Os primeiros registros de encontro entre os índios dessa etnia com os brancos foi no século 19.

"Nunca houve um caso como esse entre os kulina", reforça Edgar Rodrigues, administrador da Funai em Manaus. Ele confirma que o consumo de álcool é excessivo entre os índios da região, mas refuta a afirmação de que o órgão do Ministério da Justiça tenha sido negligente. "O acesso desde Manaus é difícil. Mas ficamos três dias no local, levamos um indigenista e uma intérprete para a aldeia", diz. "Fizemos tudo dentro dos trâmites legais", garante.

CB, 11/02/2009, Brasil, p. 11

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.