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Índios se unem em reação a prisões

Zero Hora-Porto Alegre-RS
Autor: VIVIAN EICHLER
15 de ago de 2002

Caingangues estão revoltados porque a Polícia Federal deteve cinco indígenas que bloqueavam a RS-324

A prisão de cinco caingangues pela Polícia Federal em Planalto, no extremo norte do Estado, está unindo centenas de indígenas na região e deixando a situação tensa.

A Polícia Federal garantiu estar articulando nova operação para desobstruir novamente a RS-324, bloqueada ontem em três pontos. A ação teria proporções ainda maiores do que a de terça-feira, quando os caingangues foram presos.

Indígenas de outras reservas gaúchas e do oeste catarinense prometeram se unir aos manifestantes que bloqueiam a RS-324 desde quinta-feira. Os protestos começaram depois da morte por atropelamento da caingangue Janete Nascimento, 13 anos.

O pai dela, Valério Nascimento, é um dos cinco presos pela PF e não poderá acompanhar hoje os rituais de sétimo dia da morte da filha.

Desde a prisão, o número de indígenas se multiplica, passando de uma centena para quase mil, estima a Fundação Nacional do Índio (Funai). Na terça-feira, a rodovia foi parcialmente desbloqueada com a intervenção policial. No final da tarde de ontem, os índios intensificaram o bloqueio, trancando com pedras e paus três locais diferentes. Conforme o administrador regional de Chapecó (SC), Antônio Marini, a situação se agravou:

- Estamos tentando evitar o deslocamento de mais indígenas para a área e tentar acalmar os ânimos do pessoal, mas está difícil.

Marini explica que, com a prisão do cacique José Orestes do Nascimento, 52 anos, e de outros quatro líderes, houve falta de unidade de opiniões no grupo. As prisões foram homologadas pela Justiça Estadual. Entre as acusações, estão desacato, resistência, formação de quadrilha e extorsão. Os cinco estão no Presídio Regional de Passo Fundo.

Desde o início do protesto, eles pedem aumento da segurança na rodovia, que cruza as aldeias do Toldo Nonoai. Querem melhor sinalização e construção de um caminho paralelo para pedestres de aproximadamente 15 quilômetros de extensão. Este ano houve duas mortes por atropelamento no local. Segundo o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), há uma proposta de suplementação orçamentária na Assembléia Legislativa, de R$ 251 mil para atender à reivindicação.

Em assembléia ontem, os indígenas aumentaram as exigências e decidiram que só deixarão a rodovia depois da libertação dos caingangues. A Polícia Rodoviária Estadual reforçou o policiamento com mais de 20 homens, remanejados do norte do Estado.

A Brigada Militar está fazendo a segurança do fórum e da família do Juiz Gilberto Pinto Fontoura, que exigiu a desobstrução da rodovia no início da semana. A Polícia Federal garantiu estar articulando nova operação, com proporções ainda maiores do que a de terça-feira.

- A ordem não foi cumprida na integralidade, e a desobstrução poderá ser feita compulsoriamente, se for necessário - afirmou o juiz.

ENTENDA O CASO
o A caingangue Janete Nascimento, 13 anos, morreu atropelada por uma S10 no km 37 da RS-324, em Planalto, na tarde da última quinta-feira. O acidente gerou revolta na comunidade indígena, que há um ano reivindica segurança na rodovia, que cruza aldeias indígenas em Toldo Nonoai.
o A área de 34 mil hectares de reserva estava parcialmente ocupada por agricultores, que, nos últimos cinco anos, passaram a ser indenizados para deixar o local. Como compensação pela passagem da rodovia em terra indígena, o Estado acordou com a União investir R$ 1 milhão em máquinas agrícolas, construções e segurança. Foram instalados um pardal na reserva e redutores de velocidade.
o Conforme o acordo, faltaria a construção de um caminho paralelo ao asfalto, de pelo menos 15 quilômetros de extensão, para o trânsito de pedestres.
o Após o atropelamento, os índios decidiram bloquear a rodovia para reivindicar a obra. No sábado à noite, eles liberaram meia pista, mas voltaram a interrompê-la no domingo à noite.
o Na segunda-feira, a Justiça de Planalto ordenou a desobstrução imediata da rodovia. Para cumprir a ordem, na terça-feira pela manhã, a Polícia Federal e a Brigada Militar montaram uma operação com mais de uma centena de policiais.
o A ação resultou na prisão em flagrante de cinco indígenas, entre eles, o cacique de reserva e o pai da menina morta.
o Na terça-feira, o movimento indígena foi agravado pelas prisões. Componentes de outras reservas mostraram solidariedade e prometeram se unir em Planalto.
o Em represália às prisões, o Movimento de Resistência Indígena afirmou que iniciará ações de retomada de terras em 15 áreas, o que deverá gerar novos conflitos. Em todo o Estado, há cerca de 70 mil hectares ocupados por brancos e reivindicados indígenas.

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