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Índios reivindicam seus direitos

CB, Brasil, p. 13
05 de Abr de 2006

Índios reivindicam seus direitos
Com críticas a Lula, 500 líderes indígenas de todo o país acampam na Esplanada dos Ministérios para cobrar empenho do governo e apresentar nova pauta a presidenciáveis

Paloma Oliveto
Da equipe do Correio

A cantoria atraiu o olhar de motoristas que passavam pela Esplanada dos Ministérios. Vestidos a caráter e com chocalhos nas mãos, índios pataxós realizavam o toré, um ritual de luta. "É o que viemos fazer aqui. Lutar pelos nossos direitos", explicou o cacique Evangelista Pataxó, da aldeia Pau Brasil, no sul da Bahia. Assim como ele, outros 500 índios de 20 estados brasileiros acamparam ontem em Brasília, para avaliar a política indigenista do governo Lula e cobrar a regularização fundiária, o acesso à saúde e à educação.

Durante a madrugada, os índios montaram ocas improvisadas, com lonas pretas cobertas por folhas de palmeiras. Nos pequenos barracos, famílias inteiras vão se acomodar até amanhã, quando termina o terceiro acampamento Terra Livre, evento organizado pelos movimentos indígenas. Se em 2005 a homologação da reserva Raposa Serra do Sol (RR) norteou as discussões, este ano os índios prometem ampliar o debate e cobrar mais empenho do governo na construção de uma nova política indigenista. "Como estamos perto das eleições, queremos apresentar aos presidenciáveis e aos candidatos ao Poder Legislativo nossas reivindicações", afirma o sateré-maué Jecinaldo Cabral, coordenador geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

O cacique Marcos Xucuru, de Pesqueira, a 240km da capital pernambucana, avalia que os índios estão decepcionados com o governo Luiz Inácio Lula da Silva. "A carta que ele escreveu para os povos indígenas quando era candidato prometia várias coisas, que não se concretizaram. Até agora, o que conseguimos foi pelo mérito da articulação dos povos indígenas", lamenta. O xucuru afirma que a política indigenista de Lula não foi consolidada, o que estaria provocando, entre outros problemas, conflitos agrários graves. "Os fazendeiros estão sempre ameaçando as lideranças. A violência contra os índios é grande", critica.

Mulheres unidas
Entre os quase 1 mil indígenas que participam do evento, um grupo se destaca por lutar especificamente pela construção de políticas públicas voltadas à mulher indígena. Entre os dias 1o e 2 de abril, várias líderes de comunidades do Norte, do Centro-Oeste e do Nordeste formaram a Articulação das Mulheres Indígenas Brasileiras, com apoio do Departamento de Mulheres da Coiab. Débora Bakairi, uma das coordenadoras do movimento, explica que até pouco tempo atrás, não era comum as índias participarem ativamente de manifestações. "A discriminação contra a mulher é grande, faltam programas voltados aos povos indígenas e a execução dos que existem é precária", relata, explicando a necessidade do engajamento feminino na luta.

Pintada com jenipapo, a índia do Mato Grosso diz que uma das principais lutas do movimento é o atendimento diferenciado à saúde da mulher indígena. Segundo Débora, os agentes de saúde que trabalham nas aldeias, muitas vezes, desconhecem a cultura e a tradição locais e não se adaptam à realidade indígena. "Esses profissionais não valorizam nem respeitam nossos saberes tradicionais. Nossa proposta é que todos trabalhem juntos. A medicina tradicional ao lado da medicina do branco", explica Valéria Kaxuyana, do estado do Pará.

Constrangimento
Graça Tapajó conta que em algumas situações, os índios necessitam consultar pajés e parteiras que, além de fazerem o parto das mulheres, também manipulam remédios naturais. "No caso dos partos, por exemplo, é tradição serem realizados por mulheres da própria aldeia. Em algumas etnias, o homem não pode ver a mulher nesse momento", lembra, ressaltando que muitas são levadas a postos de saúde e ficam constrangidas com a situação.

Para ajudar seu povo, Edna Truká, 24 anos, que vive em Pernambuco, vai estudar medicina em Cuba. A jovem quer levar para a aldeia os conhecimentos da medicina oriental e aliá-los à tradição indígena. Até os 13 anos, ela não fazia idéia de que era uma índia. Quando os trucás começaram a retomada de suas terras tradicionais, Edna, enfim, soube que era um deles. "Vou para Cuba, mas volto pelo meu povo".

CB, 05/04/2006, Brasil, p. 13

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