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Índios reclamam de apreensão de artesanato

Zero Hora-Porto Alegre-RS
Autor: NILSON MARIANO
03 de mar de 2004

Ao apreender mercadorias piratas em prédio, fiscais da Smic levaram produtos produzidos pelos caingangues

Índios caingangues podem ficar em pé de guerra contra a Secretaria da Produção, Indústria e Comércio (Smic). Na sexta-feira, ao apreender mais de 150 bancas contendo mercadorias piratas ou contrabandeadas em um edifício no Centro, os fiscais da Smic recolheram também artesanato indígena.

O cacique Jaime Alves, 40 anos, exige a devolução das peças, vendidas nas ruas para sustento da pequena tribo acampada na Capital. Moradores na Agronomia e na Lomba do Pinheiro, os índios guardavam o artesanato no térreo do edifício inacabado, na Rua Marechal Floriano, junto à Praça XV.

Na sexta-feira, fiscais varreram o prédio, de 16 andares, chamado de QG do crime pelo secretário da Smic, Adeli Sell. Ao apreender produtos de camelôs, levaram o artesanato dos caingangues: chá de macela, bolas de cipó, estatuetas de animais, brincos, anéis, cintos, colares e outros artigos confeccionados em madeira, coco e bambu.

Dono maior do artesanato, o cacique Alves reclamou que as peças serviriam para alimentar sete crianças sob sua guarda. Vindo da reserva de Nonoai (Norte do Estado), Alves vende artesanato há 12 anos, no Centro e no Brique da Redenção.

A tia do cacique, Lourdes da Silva de Oliveira, 61 anos, ressaltou que 43 índios sobrevivem do comércio ambulante. Eles deixavam o material em depósitos, no Centro, porque andam de ônibus e queriam poupar o frete.

- O artesanato não está rendendo. Quando vendemos, são R$ 10 ou R$ 15 por dia, no máximo - disse Lourdes, que fraturou a perna há cinco meses e caminha com muletas.

Os caingangues pediram ajuda ao Conselho Estadual para o Índio. O coordenador da entidade, Luiz Carlos Machado, disse que tenta obter a devolução do artesanato desde sexta-feira, sem êxito. Na segunda-feira, enviou ofício à Smic, pedindo pressa:

- Achei uma insensibilidade para com um povo tão sofredor. Concordo que o secretário Adeli dê uma dura nas mercadorias importadas, mas não com o artesanato dos índios, feito por eles mesmos.

Polícia Civil investigará ilegalidades no edifício

Ontem, Sell reuniu-se com o secretário-adjunto da Justiça e da Segurança (SJS), Fábio Medina Osório, pedindo uma investigação sobre o que vem ocorrendo no edifício abandonado. O local se prestaria para depósito de mercadorias ilegais, abrigo de criminosos e venda de drogas.

Medina Osório disse que encaminhou o pedido da Smic para a chefia da Polícia Civil. Destacou que a SJS será parceira da prefeitura na repressão ao comércio de mercadorias piratas.

Sell e Medina Osório também cogitaram a criação de uma delegacia especializada no combate à pirataria, com a parceria do empresariado.

( nilson.mariano@zerohora.com.br )

Contraponto
O que diz Adeli Sell, secretário da Produção, Indústria e Comércio (Smic):
"Durante a apreensão, não havia como saber que bancas fechadas continham o artesanato dos índios. Esse é o ônus que eles pagam por deixar o material em um local ilegal. Vamos devolver nos próximos dias, o mais breve possível. Não temos pessoal suficiente para abrir as bancas apreendidas tão rapidamente. Não podemos resolver no mesmo dia, somos os responsáveis pelas mercadorias que estão em depósito."

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