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Índios realizam produções em vídeo

OESP, Caderno 2, p. D7
19 de Abr de 2006

Índios realizam produções em vídeo
Mostra no Itaú Cultural exibe trabalhos indígenas feitos em colaboração com ONG em povoados amazonenses

Livia Deodato

No dia do índio, um presente do próprio índio para o homem branco. Começa hoje, e vai até o domingo, a mostra Vídeos e Realizadores Indígenas, no Itaú Cultural - além de apresentar vídeos de cineastas retratando costumes e rituais indígenas, o público poderá conferir filmes feitos pelos próprios integrantes das tribos. A realização destes filmes por indígenas só foi possível graças ao trabalho da ONG Vídeo nas Aldeias, que desde 1987 oferece oficinas de audiovisual em povoados amazonenses.
Como parte da programação da exposição Rumos Artes Visuais 2005/2006 - Paradoxos Brasil, a mostra tem como objetivo apresentar a diversidade etnológica brasileira sob curadoria do etnólogo, documentarista e professor da UFMG, Ruben Caixeta. "Segui três critérios para realizar a curadoria: mostrar filmes feitos por indígenas, gravados por meio de oficinas dadas pela ONG Vídeo nas Aldeias; contemplar uma diversidade de povos indígenas brasileiros; e apresentar filmes com conteúdo político", explica Caixeta.
Vídeos e Realizadores Indígenas vai exibir, ao todo, 17 filmes divididos em quatro programas: Realizadores Indígenas, que apresenta a última safra de filmes produzidos por índios dentro do projeto Vídeo nas Aldeias; Práxis e Vozes, que mostra a produção política; Estética Indígena, que trata de temas relacionados aos rituais e ao corpo dos índios; e Encontros e Personagens, com cineastas e etnólogos que acompanharam a vida indígena, entre eles, Sérgio Bianchi e Andrea Tonacci.
A abertura da mostra que ocorre hoje, às 19h30, traz o vídeo Xinã Bena ou, em português, Novos Tempos, que tem 52 minutos de duração. O cineasta indígena, que retratou a rotina da aldeia Hunikui de São Joaquim, localizada entre os Rios Jordão e Branco, no Acre, foi Zezinho Yube. "A idéia é mostrar o passado, o tempo do cativeiro, do massacre, e o presente, o tempo dos direitos", conta o indígena. Após um rápido making of da oficina da qual participou, Yube parte para o centro de sua aldeia. "Tem de mostrar as coisas de forma verdadeira, sem nenhuma representação", diz o pajé e patriarca de Hunikui, Augustinho, no vídeo, dando as instruções básicas de como se portar à frente de uma câmera.
Aliás, Caixeta relembra a observação que o antropólogo Claude Lévi-Strauss teve ao realizar um trabalho nas planícies da América do Norte. Um índio, ao ver pela primeira vez a imagem de um inimigo, pintada por um branco, disse que o desafeto não passava de meio homem. Em aldeias mais afastadas dos centros urbanos, ainda hoje existem indígenas que crêem que a foto e o vídeo extraem a alma da pessoa em foco. "Mas a grande maioria dos indígenas utiliza a câmera de vídeo e fotográfica para defender seus direitos e lutar para a construção de uma identidade étnica", ressalta Caixeta no texto de abertura do programa.
O público deve notar uma grande diferença nas línguas faladas nos 17 vídeos - enquanto algumas são bastante próximas ao português, como a língua falada pela comunidade de Zezinho, a hantxakui, outras soam como orientais, como no filme Nguné ou O Dia em Que a Lua Menstruou.
(SERVIÇO)Vídeos e Realizadores Indígenas. Itaú Cultural (255 lug.). Av. Paulista, 149, 2168-1776. Hoje, 17 h e 19h30. Grátis (retirar ingressos com meia hora de antecedência). Até 23/4

Programação

XINÃ BENA, NOVOS TEMPOS - De Zezinho Yube. Hoje, às 19h30. O dia-a-dia da aldeia Hunikui de São Joaquim, no Rio Jordão, Estado do Acre.
NGUNÉ, O DIA EM QUE A LUA MENSTRUOU - De Takumã e Maricá Kuikuro. Amanhã, às 17 h. Durante uma oficina na aldeia Kuikuro, no Alto do Xingu, ocorre um eclipse. De repente, tudo muda.
WAI'Á RINI, O PODER DO SONHO - De Divino Tserewahú. Amanhã, às 17 h. A festa do Wai'á, que integra o ciclo de cerimônias de iniciação do povo Xavante, introduz o jovem na vida espiritual, em contato com as forças sobrenaturais. O diretor Tserewahú dialoga com seu pai, um dos dirigentes deste ritual.
KINJA IAKAHA, UM DIA NA ALDEIA - De Araduwá, Iawusu, Sawá e Kabaha Waimiri, Sanapyty e Wamé Atroari. Sexta-feira, às 17 h. Seis índios de diferentes aldeias Waimiri e Atroari, na Amazônia, registram o cotidiano de seus parentes da aldeia Cacau.
CONVERSAS NO MARANHÃO - De Andrea Tonacci, 1977. Sexta, 19h30. Retrato dos mecanismos de afirmação de identidade de uma nação indígena

OESP, 19/04/2006, Caderno 2, p. D7

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