O Globo, O País, p. 4
12 de Mai de 2008
Índios reagem à nova manifestação militar
Conselho Indígena de Roraima pede afastamento de general Eliezer Monteiro. PF deve interditar fazenda hoje
Evandro Éboli Enviado especial
O Conselho Indígena de Roraima (CIR) reagiu às declarações do general Eliezer Monteiro, comandante da 7ª Brigada de Infantaria de Selva (BIS) de Roraima, e acusou os militares de promoverem uma perseguição histórica aos indígenas. O general havia acusado os índios ligados ao conselho e a própria entidade de serem segregacionistas e radicais. O indígena Júlio Macuxi, coordenador de Programas Sustentáveis dos Povos Indígenas do CIR, disse que a posição de Monteiro é uma afronta à Constituição e defendeu que ele seja destituído do cargo.
Para índio, militares perseguem comunidades
Os índios desaprovam o fato de o general ter permitido, na última sexta-feira, que se realizasse um ato contra a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol no interior da unidade militar que comanda, no auditório do batalhão.
A postura do general revela não só preconceito, mas é uma demonstração de que os militares, em plena democracia, continuam perseguindo as comunidades indígenas. Por que índios não podem estar presentes nas fronteiras? A terra é da União e não do Exército. Os militares têm dificuldade em entender isso - defendeu Júlio Macuxi.
O líder indígena negou que o CIR promova a cisão entre as comunidades e assegurou que o conselho repassa os recursos para os índios vinculados a outras entidades não-governamentais. O general Monteiro disse ao GLOBO, na última sexta-feira, que o conselho concentra o dinheiro liberado pelo governo federal e não garante a outras comunidades o acesso à saúde.
- Isso é a mais pura inverdade. Mantemos convênios de saúde com as mais variadas entidades, independentemente de sua vinculação. Atendemos a 38 mil índios de 294 comunidades - garantiu Júlio.
Segundo o dirigente do CIR, o conselho recebe anualmente cerca de R$ 11 milhões do governo federal para o atendimento médico das comunidades indígenas em Roraima.
Júlio Macuxi comentou o episódio da última sexta-feira, quando Monteiro recebeu um grupo de políticos, arrozeiros, indígenas e comerciantes que foram pedir a intervenção do Exército em Raposa Serra do Sol, fazendo também duras críticas ao presidente Lula e ao ministro da Justiça, Tarso Genro.
- Se a Constituição é para valer, e proíbe manifestação política dentro de área militar, o general deveria ser demitido.
Semana começa com expectativa de mais tensão
O embate em torno da reserva continua esta semana, ao longo da qual os aliados do fazendeiro Paulo César Quartiero, líder dos arrozeiros que se opõem à demarcação contínua da reserva, esperam que ele seja solto. A mulher de Quartiero, Erecina Almeida Quartiero, afirmou que a prisão do marido foi injusta e acusou o governo de ter agido com arbitrariedade. Erecina está casada com Quartiero há 23 anos.
- Foi um ato de ditadura. O governo Lula persegue quem trabalha, gera emprego e ajuda o país a crescer. Ele mandou a Polícia Federal para cá, mas sequer os policiais cumprem o trabalho de impedir o conflito. É um absurdo. Meu marido não é bandido -reagiu Erecina.
Na sexta-feira, ela participou de uma carreata que ocorreu na cidade em defesa de Quartiero e contra a presença dos policiais federais. Erecina preferiu não seguir até Brasília, onde Quartiero está preso nas dependências da Polícia Federal, e continua administrando a empresa da família, que planta, beneficia e comercializa quase duas mil toneladas do arroz "Acostumado" por mês.
Erecina reagiu ainda à decisão do Ibama, de multar o marido em R$ 30,6 milhões por crimes ambientais. Hoje, a Polícia Federal deve interditar a fazenda de Quartiero.
- Isso não é verdade. Estão aproveitando que ele está preso em Brasília e cometendo todas as injustiças possíveis conosco. Sabem que aqui isso seria difícil - declarou a mulher de Quartiero.
O Globo, 12/05/2008, O País, p. 4
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