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Índios querem compromisso da Funasa

A Tarde-Salvador-BA
Autor: CRISTINA LAURA
11 de jun de 2005

Atikuns que ocupam prédio da fundação, em Juazeiro, não pretendem sair enquanto não tiverem resposta para seus pedidos

Os índios das tribos Tumbalalás e Atikuns Bahia, que ocupam o prédio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em Juazeiro desde último domingo, não pretendem sair enquanto representantes dos órgãos de assistência indígena, na região, não se manifestarem de forma concreta quanto às suas reivindicações. O administrador da Funasa em Paulo Afonso, Sílvio Marques, reuniu-se com líderes das duas tribos, na tarde de terça-
feira, mas não houve acordo que desse "certeza de compromisso".

Na pauta de reivindicações das tribos, endereçada à direção da Funasa, além de assistência médica e um carro, na tribo, para transportar doentes, estão o pagamento das terras da Fazenda Altamira, que ocupam; um trator, bombas d'água e de pulverização, enxadas e sementes. Na reunião, Sílvio Marques disse que "poderá disponibilizar uma equipe com médico, dentista, enfermeira e auxiliar de enfermagem, para atender os Atikuns e os Tubalalás, uma vez por semana".

Contrários à proposta, os índios irredutíveis estão dispostos a ficar o tempo que for necessário. "Não aceitamos mais respostas em papel, queremos resultado concreto, e não adiantam falsas promessas, não vamos desocupar o prédio enquanto nosso povo não for assistido da forma que merece", reafirma a cacique Atikun, Djanira Jovelina Diniz Silva (Ainã).

A ocupação, que começou com 13 índios de duas tribos do norte da Bahia, no domingo à noite, já reúne mais de 120 pessoas, também de outras tribos, que estão chegando para reforçar as reivindicações. Como Maria Helena, da Aldeia Tapera, distrito de Orocó, sertão de Pernambuco, que diz viver dificuldades, mas alega que sua tribo tem equipe médica, dois carros e uma ambulância, "bem mais que os Tubalalás e os Atikuns".

DESNUTRIÇÃO - Na tribo Atikun, os irmãos Daniel de um ano e meio, e Daniela, de apenas três meses, filhos de Nicelma Janice da Conceição e Damião Ferreira dos Santos, morreram desnutridos mesmo levados a hospitais em Juazeiro e Petrolina em anos diferentes. "A mãe fraca, não pode amamentar, o filho sem forças é que sofre mais e chega a morrer", diz, revoltada, a cacique Djanira Silva.

A desnutrição, segundo ela, está relacionada com a estrutura da aldeia, como a falta de água, assistência médica e saúde sanitária. Para a cacique, "são essas questões que estão no foco principal desse movimento que não pode perder a força e nem se deixar levar pelas propostas da Funasa".

A Fundação forneceu, aos índios, almoço e janta durante dois dias, depois cortou. A água do prédio também foi cortada e o gás de cozinha já está no fim. O carro que estava à disposição, em caso de emergência de saúde dos que estão doentes, também foi retirado da porta da Funasa. Para o pajé Antônio Lourenço, "é uma forma de nos fazer desistir e desocupar o prédio, mas não vamos ceder".

O administrador da Funasa não foi encontrado. Um funcionário, Cristiano, no escritório em Paulo Afonso, pelo telefone (75) 3281 6651, não soube informar onde Sílvio Marques estava hospedado e disse que o administrador "viajou a Juazeiro para tentar resolver a situação com os índios sem levar seu telefone celular".

A cacique Djanira afirma que ele estava com celular na reunião e repassou o número para que entrássemos em contato com ele, mas no número dado, a pessoa que atendeu disse que falava de Alagoinhas e não era Sílvio Marques.

Cacique Ainã é comandante

Na liderança da tribo, há cinco anos, Djanira Jovelina Diniz Silva, de 41 anos, que chegou ao posto de cacique por indicação do Ministério Público de Brasília, pela luta pelos direitos dos índios de sua aldeia. As famílias aprovaram a indicação e deram apoio à mulher que nasceu na aldeia, numa família de 25 irmãos.

A mãe dela, índia Maria Joventina dos Santos, de 84 anos, apesar de cega, cumpre o ofício natural das mulheres mais velhas da tribo, é responsável pelo nascimento de mais de 200 crianças. A cacique é casada pelas leis dos brancos no civil e no religioso e tem uma filha de 17 anos. O tempo de comando na aldeia depende de suas ações. Se forem benéficas ao seu povo, o limite é o tempo de vida. Caso faça algo que desagrade, é substituída por votação.

CANDEEIROS - Djanira Silva ou apenas Ainã, seu nome indígena, comanda 55 famílias que vivem numa área de 700 hectares na Fazenda Altamira, distante 7km do município de Curaçá. A estrutura da aldeia segue alguns costumes dos ancestrais, apesar das modernidades. As casas são de taipa cobertas de palha, não existe água encanada e energia elétrica só na casa do fazendeiro, dono das terras e em alguns postes espalhados pela aldeia. Nas casas, a luz é de candeeiros.

Como estão em área ribeirinha, a salvação é o Rio São Francisco, usado não só para as necessidades básicas como para aguar os cultivos. Eles não possuem cisterna e dizem que nunca receberam visita da Funai. Os Atikuns se dizem discriminados pela Funai "por serem em menor número" e não se conformam com o descaso.

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