Correio da Bahia-Salvador-BA
12 de Abr de 2003
Índios de dez etnias permanecem na sede da Funai em Paulo Afonso. Ocupação visa protestar contra exoneração do administrador do órgão na região
Os índios de dez etnias que ocupam desde domingo a sede da Funai, em Paulo Afonso,
tiveram ontem, após seis dias de silêncio, um primeiro aceno por parte da direção do órgão:
assessores telefonaram para o escritório e pediram a presença do ex-administrador João
Valadares para que este explicasse a situação. Valadares foi exonerado do cargo, contrariando um pedido das lideranças indígenas que haviam solicitado ao novo presidente da Funai, Eduardo Aguiar de Almeida, a sua permanência. Por causa disso, o escritório regional da Funai foi ocupado e os índios afirmam que só saem de lá quando Valadares for reconduzido ao cargo.
A iniciativa de chamar o ex-administrador gerou satisfação pelo indício de que sairia uma
solução. Porém, no final da manhã de ontem, os índios já estavam decepcionados: havia
apenas um início de diálogo com a Funai. Desde o domingo, segundo o pajé Ramos Enéas
Feitosa, que a presidência do órgão mantém silêncio em relação à ocupação. Para resolver o
impasse, o cacique da tribo pankararé, Afonso Enéas Feitosa, diz que as etnias que
participam do movimento estão dispostas a ir até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se for preciso.
Contatos - Ramos conta que há 60 dias, em Brasília, o presidente da Funai, Eduardo Almeida, havia garantido a permanência de João Valadares no cargo que vinha ocupando há cinco anos
- há 20 anos ele atua na Funai. "É um bom administrador e tem um bom contato com a
comunidade", descreve Ramos. Ao procurar a Funai, os índios temiam que duas outras
lideranças - os Tuxá Sérgio Luiz e Sandro Cruz Santos - chegassem aos cargos de
administrador e vice em Paulo Afonso. Semana passada foram surpreendidos com a
exoneração de Valadares e a indicação de um administrador temporário. Inconformados,
decidiram ir à luta ocupando o escritório regional.
Na região, as etnias são representadas por uma população de 14 mil pessoas, segundo o pajé pankararé. Destes, ainda segundo os cálculos de Ramos, 12 mil gostam e reivindicam a permanência de Vasconcelos. Para eles, um novo administrador teria que começar de novo todo o trabalho de ganhar a confiança do povo indígena da região, onde 44 mil hectares, informa Ramos, pertencem ao seu povo. Um bom administrador, ensina o pajé, "tem de entender de índio e não de branco".
Na Funai, em Brasília, procurados por telefone para falar sobre o problema, nem o presidente - que estava em viagem a Rondônia, segundo informações de sua assessoria - nem o vice, Antonio Pereira Neto, que participou de uma reunião durante toda a manhã e viajou por volta do meio-dia, foram encontrados para falar sobre o assunto. Em Paulo Afonso, os índios - cerca de 360 - continuam a ocupação e se for preciso vão passar seu dia - 19 de abril - por lá mesmo. Uma viagem de uma comissão está sendo articulada para ir a Brasília.
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