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Indios Katukinas denunciam agressões e ameaças de morte

Página 20-Rio Branco-AC
12 de dez de 2004

Este Papo transcreve parte de um testemunho da liderança Katukina da aldeia Sete Estrelas, João Carlos Rirá, conhecido por João Grosso, gravado em 24 de novembro por membros do Grupo Técnico da Funai que está fazendo a revisão dos limites da Terra Indígena Rio Gregório. Nele, João Grosso relata um assalto, violências físicas e ameaças de morte sofridos por ele, o pajé Raimundo Macário, uma mulher e crianças Katukina, poucos dias antes, na Br-364, na altura do rio Tauari, quando retornavam de Cruzeiro do Sul, a pé, para o Gregório. Dado que fatos semelhantes têm ocorrido nesse ponto da estrada, tendo índios, outros transeuntes e mesmo moradores locais como vítimas, João Grosso, o GT da Funai e Biraci Brasil, liderança Yawanawá que também gravou um depoimento, solicitaram-me a pronta divulgação daquele grave acontecimento como meio de demandar providências urgentes do Governo Estadual, da Administração da Funai e da Polícia Federal para responsabilizar criminalmente os responsáveis pela violência cometida contra os Katukina e evitar que episódios como esse venham a se repetir (Marcelo Piedrafita Iglesias).

Violência contra os Katukina: um chamado às autoridades

Txai Terri: Pois bem, seu João, conte aí com suas próprias palavras o que aconteceu com o senhor e o pajé Raimundo Macário ali na Br-364, nas proximidades do rio Tauari. A violência física e ameaças de morte que vocês sofreram desses marginais não podem passar em branco.

João Katukina: Bom, a nossa viagem foi porque nós somos aposentados e o nosso ordenado a gente recebe em Cruzeiro do Sul, eu e o pajé Raimundo Macário, que é meu primo. Então, fomos juntos pra Cruzeiro. Saímos daqui da aldeia Sete Estrelas no dia 8 de novembro. Fomos de canoa até o São Vicente e caminhamos dois dias pela estrada até Cruzeiro. Lá recebemos o nosso dinheiro e compramos coisinhas. O Raimundo e os meninos que foram mais nós compraram as coisinhas deles, pra trazer pras mulheres e crianças, roupinhas pra elas. Aí nós viemos caminhando pela estrada de volta. Vinha avexado, porque não tinha rancho, sem nada mesmo, pra chegar logo no Pelado (comerciante no rio Gregório/Br-364), que é nosso conhecido e recebe muito bem quando a gente chega lá no São Vicente, na beira do Gregório. Era dia de domingo. Nós trazia um dinheirinho pra comprar sal lá no Pelado. Eu vinha trazendo R$ 55 pra comprar sal, três latas de leite em pó pra criancinha pequena e 15 litros de gasolina nas costas pra subida no rio Gregório, de São Vicente até Sete Estrelas. O Raimundo vinha trazendo 10 litros de gasolina e R$ 45 em dinheiro pra comprar sal.

Quando nós chegamos na beira do Tauari, os marginais atacaram nós e tomaram nosso dinheiro e a nossa gasolina toda. Na hora da passagem do rio Tauari, nós tava do lado de lá e eles tava do lado de cá. Nós esperando passagem pra atravessar, porque o Tauari tava alagado. Ficamos esperando até que apareceu um rapaz perguntando: "Vocês querem passagem?". Eu disse: "Querem". Aí ele veio numa canoa. Nós embarquemos e antes de encostar do outro lado, ele foi e disse: "A passagem é paga, um real por cabeça". Aí o meu primo Raimundo Macário deu R$ 1 pra ele. Ele disse: "Rapaz, a passagem é R$ 5, porque tem o aluguel da canoa. Eu cobro desse preço porque a canoa é meu, cobro o tanto que quiser". Aí eu disse assim: "Eu pago, porque vamos avexados, com fome e queremos chegar ainda hoje na beira do Gregório". Como o Raimundo tinha dado o seu, dei mais R$ 3 pra ele.

Na hora que a canoa encostou no barranco, o rapaz pegou o tambor de gasolina do Raimundo e disse: "Se vocês não pagarem a passagem direito, vou pegar o tambor de gasolina, vou furar e derramar". Na hora que ele disse isso, outro rapaz correu lá da casa com uma faca na mão. Chegou e disse pro outro: "Pega essa faca aí e fura logo o tambor e derrama a gasolina dele". Aí outro disse: "Rapaz, não fura, não. Eles já pagaram a passagem. Não fure, não. Entrega o tambor de gasolina pra ele". Aí entregou o tambor pro Raimundo e disse: "Some da minha vista magote de caboclo. Vão se embora".

Aí saímos andando pela estrada. Depois, cada qual armado com uma faca, cercou nós. Nós desarmado e eles cercaram. Nós era quatro pessoas, dois velho, uma mulher e uma criança. Eles eram mais de seis e tudo armado de faca. Nós fomos andando e quando passemos da escola, já pro final do campo da escola do Tauari, lá vinha eles gritando na carreira. Aí cercaram e tomaram a nossa frente. Nós não tinha mais o que fazer, principalmente eu que sou doente da perna e já vinha andando fazia mais de um dia. Eu não podia correr. Antes deles me cercar, mandei meus parentes correr. Aí o Raimundo, a mulher e os meninos ganharam a mata.

Bom, eles me pegaram. Era aquele Orestes. Ele me bateu muito e quase me fura de faca. Ele mora perto da escola do Tauari, esse Orestes. Aí ele me pegou e ele me deu uma porrada aqui na minha cabeça com um pau, que até me cortou a cabeça. Não sei se tem sinal ainda. Deu uma pancada forte aqui e outra aqui (apontando para os dois lados de sua cabeça). Na hora que ele me abarcou o pau, eu caí. Senti um choque na minha cabeça e caí. Na hora que ele pegou no meu braço pra cortar com uma faca, pra rolar o braço, aí o Quino disse: "Não corte não, que ele já está morto". Esse Quino é sobrinho do Vila, morador dali do Tauari. Foi esse Quino que falou pra esse Orestes: "Rapaz, não mate ele não!" Aí ele tomou a minha frente e me levou pra casa do Vila. "Eu vou te levar ali pra casa do meu tio, porque ali é a casa do Vila e ele é meu tio. Vamos embora que eu te levo pra lá". Queriam me cortar assim mesmo, mas o Quino fez um jeito deles não me bater mais.

Quando cheguei lá, o Vila me recebeu, me deu café e eu tomei. O Vila ficou na estrada, em frente da casa dele, até as 11 horas da noite pra ver se meus parentes passavam, que era pra levar pra casa dele. Eles ficaram até tarde da noite escondidos no meio do tabocal, com medo de sair, nem lanterna tinham. Quando resolveram sair, uns vieram dormir na casa da Alcirene e outros foram dormir na casa do Zé Coco, outro filho do Vila. Eu fiquei na casa do Vila sem poder andar, passei a noite cheio de dor das pancadas que eles me deram com um pau. Meus joelhos estavam inchados de tanto andar. Era o nosso segundo dia de caminhada pela Br-364, saindo de Cruzeiro do Sul, de volta pro Gregório.

O Vila me disse assim: "Rapaz, tu vai com o Bira (Biraci Brasil, cacique geral dos Yawanawá da TI Rio Gregório) e dá parte desse pessoal, que ele denuncia na Funai e na Polícia Federal. Mas primeiro tu vai com o Bira, porque é ele que manda ali dentro da área indígena do Gregório". O Vila ainda disse: "Diz pro Bira que quando ele e a Polícia Federal chegar aqui no Tauari, eu dou apoio aqui pra eles, pra tu e pra nós também, porque esses marginal são acostumado de furar muita gente por aqui. Só que ninguém não descobre o problema que está acontecendo aqui nesse local onde o rio Tauari corta a Br-364".

O caso foi isso, nós não tava bebendo nem nada. Nós vinha na nossa viagem, caminhando tranqüilo pela estrada até chegar na travessia do rio Tauari, quando isso aconteceu com a gente. Peço providência pra que isso não aconteça mais. Veja aí o nosso pajé Raimundo Macário, enquanto eu falava no acontecido, ele ficou tremendo de medo só em se lembrar do que se passou com a gente.

Às autoridades competentes, um pedido de providências

Biraci Brasil Yawanawa: Eu fiquei muito sentido com essa violência toda contra os nossos parentes Katukina da aldeia Sete Estrelas. Fiquei sentido porque nós, povos indígenas, estamos passando um processo de mudança por conta do asfaltamento da Br-364 e pela força desse contato. A maior parte de nossos parentes mais velhos nós estamos perdendo e com eles parte importante de nossa cultura. Fico triste quando vejo uma humilhação dessa como aconteceu com o pajé Raimundo Macário, que eu chamo de Kuka Kustï, e o João Grosso. Um pajé no mundo de um povo indígena é o guardião do celeiro espiritual e cultural de uma comunidade. É ele que faz o controle da manutenção da hierarquia do mundo daquele povo. Muitas pessoas não entendem isso. Na oportunidade que tenho de conversar com antropólogos, indigenistas e sertanista, tenho dito que ninguém é melhor do que nós pra contar nossa própria história, que é cheia de violência e desrespeito contra nosso povo, como essas agressões físicas e ameaças de morte que acabam de acontecer com o pajé, o João Grosso e alguns de seus parentes, inclusive mulher e criança. São essas pessoas, os pajés, que guardam o povo indígena. São eles que guardam a tranqüilidade do povo. Tu vê uma família dessa e todo mundo tem a mesma carinha. Parece que é simples, mas não é. O pessoal não sabe que por trás do Kuka Kusti está um grande homem que guarda a tradição de seu povo, que se dedica ao mundo espiritual pra guardar um povo. Porque se o marginal matar uma pessoa como o Kuka Kusti, ele mata não só um ser humano: mata também o guardião do mundo espiritual do povo indígena e o conhecimento sagrado desse povo. É muito triste perceber que corremos risco de vida em plena luz do dia.

Eu queria deixar minha mensagem pra que vocês do Grupo Técnico de revisão de limites de nossa terra possam levar essa denúncia do João Grosso e do pajé Raimundo ao conhecimento da Funai e de outros órgãos competentes, como a Polícia Federal e o próprio governo do estado, que é responsável pelo asfaltamento da Br-364 e os impactos negativos que já começam a envolver as comunidades e terras indígenas situadas na sua área de influência. É preciso tomar providências que punam esses marginais irresponsáveis do Tauari. Porque assim como eles fizeram com membros importantes dessa família Katukina, podem fazer com qualquer cidadão acreano. Esse lugar em que o rio Tauari corta a Br é muito perigoso. Há três dias um homem matou outro lá na maior frieza e saiu caminhando tranqüilamente pela estrada até Tarauacá, onde, dizem, foi se entregar às autoridades.

Então, eu queria que a denúncia do João Katukina chegasse ao conhecimento da Funai de Rio Branco, que leve isso ao conhecimento da Polícia Federal, de todas as autoridades jurídicas e do Governo do Estado. Sinceramente, estou querendo, junto com vocês, colocar essa denúncia pra frente. Nós já recebemos o governador em nossa casa e eles, os Katukina, estavam juntos. O governador tem se manifestado um grande amigo nosso. Se ele não tomar nenhuma providência, vou fazer todos os esforços possíveis pra tudo isso chegar ao conhecimento das autoridades federais desse estado. Isso não pode passar impune, passar em branco como se nada tivesse acontecido.

O que aconteceu com os Katukina do Sete Estrelas foi um crime e de uma tamanha brutalidade e desigualdade de entendimento. Então, queria aqui completar o meu sentimento e minha indignação por esse crime contra o povo Katukina. E isso aconteceu logo com membros de uma comunidade que está vivendo uma situação extremamente difícil, como a dos Katukina da aldeia Sete Estrelas. Esse povo resolveu mudar daqui para o Campinas. Há pouco tempo foram muito massacrados espiritualmente pela missão Novas Tribos, que mexeram muito com a mente deles. Justamente essas famílias do João Grosso e do Kuka Kusti, por serem enraizadas no Gregório, não conseguiram sobreviver no Campinas e resolveram voltar, trouxeram suas famílias e continuam aqui guardando esse celeiro valioso que o nosso criador deixou pra nós, essa terra indígena do Rio Gregório. Eles são nossos companheiros que têm ajudado a tomar conta desta terra. O pai do Raimundo era o Tobias, o maior pajé Katukina daqui do Gregório. Ele, portanto, é o herdeiro da tradição espiritual de seu povo. Nós estamos preservando a vida em nossa terra. Não queremos confusão com ninguém. Se as autoridades do nosso estado não tomarem providências, nós vamos tomar. Queria passar isso pra vocês nesse registro desse triste acontecimento pra que providências sejam tomadas e isso não venha acontecer de novo.

Txai Terri: Vamos ouvir agora o seu Correia, que sabe os nomes dos marginais que atacaram e ameaçaram de morte essa família Katukina daqui do Sete Estrelas.

Correia (Antonio Paulo de Alcântara, morador da colônia Bela Vista, no rio Gregório, nas proximidades da Br-364): Rapaz, pelo o que fui informado, um deles é o Zú, o Quino que é filho do Zé Basílio, o Bilta que é filho do Piaba, o Macilom e o Orestes, que foi quem bateu e ameaçou furar os índios Katukina. Dizem que fizeram isso mandado pelo Bilta. Agora, dizem que o Quino, que também tava no meio deles, foi quem tirou o índio João Grosso da confusão e levou pra casa do tio dele, que é o Vila. Esse Orestes, que é o mais perigoso marginal dali do Tauari, é filho do Claudino. O pai dele mora ali perto da escola do Tauari. Se a polícia quiser é muito fácil localiza-los

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