OESP, Geral, p.A20
29 de Set de 2004
Índios intelectuais, a minoria dentro da minoria
Apenas 0,32% dos indígenas do País consegue superar o preconceito e ingressa no ensino superior
Evanildo da Silveira
Eles são uma minoria dentro de uma minoria e têm histórias muito parecidas. Quase todos nasceram em lugarejos afastados da cidade, tiveram uma infância pobre, enfrentaram preconceito e dificuldades para estudar, mas hoje são, ou estão a caminho de se tornar, mestres ou doutores. São os índios que, com muito esforço e dedicação, concluíram a faculdade e agora fazem ou já têm pós-graduação. Não passam de duas dezenas, mas são a voz e o orgulho de seus povos.
Segundo dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), há no Brasil 400 mil indígenas, de 215 etnias, que falam 180 línguas. Desses, apenas 1.300, ou 0,32%, conseguiram ingressar num curso superior. O número dos que foram adiante é menor ainda. Menos de 20 chegaram ao mestrado e apenas 2 alcançaram o doutorado.
Um deles é o terena Rogério Ferreira da Silva. Desde fevereiro de 2003, ele está no programa de doutorado da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná, mas vem desenvolvendo seu trabalho de tese na Embrapa Agropecuária Oeste, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que fica em Dourados, em Mato Grosso do Sul.
Pertencente a uma nação de agricultores natos, foi natural a escolha de Rogério pela faculdade de Agronomia, concluída em 1995, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Desde criança até os 17 anos eu trabalhei na roça com meus pais, conta. Presenciando todos os problemas enfrentados por nós e pela aldeia, busquei uma alternativa que considerava mais promissora: o caminho dos estudos acadêmicos. Meu objetivo era e ainda é adquirir conhecimentos e buscar soluções dos problemas da nossa comunidade, explica.
Luta - Objetivo semelhante impulsionou a também doutoranda Maria das Dores de Oliveira, índia pancararu. Ela faz doutorado em lingüística, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), onde se graduou em Pedagogia e História. Eu sempre quis estudar, diz. Pois percebi desde cedo que quanto mais eu soubesse mais eu poderia lutar pelo meu povo e ajudar outros povos indígenas com o meu trabalho e com a minha voz.
Lutar pelo seu povo e dar voz a ele parece mesmo ser a grande motivação dos indígenas que decidem fazer pós-graduação. A situação da minha gente é que me levou a ser sociólogo e lingüista, diz, por exemplo, o índio xoclengue Nanblá Gakran, graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Itajaí (Univale), de Santa Catarina, e mestrando de lingüística na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Depois de concluir o mestrado, vou voltar para minha aldeia, em Ibirama (SC), para trabalhar no resgate da língua da minha tribo.
Para a paresi Francisca Novantino Pinto de Angelo, estudar é o único caminho para os índios conseguirem conquistar o respeito da sociedade brasileira. Ela é formada em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e agora faz mestrado em Educação na mesma instituição.
A educação escolar para nós é o instrumento de defesa dos nossos direitos, explica. Com ela a gente busca melhorar as condições de vida do povo indígena, assim como compreender os códigos complexos da sociedade ocidental para colocá-los a nosso serviço.
Preconceito Por isso, eles não se rendem diante dos obstáculos. Um dos maiores, sem dúvida, é o preconceito. Nascida na periferia de Cuiabá, em 1960, Francisca não escapou dele. Tudo o que consegui foi com muita dificuldade, sofrendo preconceito, discriminação e resistências, diz. Tive de enfrentar a desconfiança e o descrédito. Só pude alcançar os meus objetivos com o apoio do meu povo e a certeza do retorno para a comunidade indígena direta ou indiretamente.
O xoclengue Gakran também sofreu com a discriminação. O preconceito é demais, diz. Como somos uma das únicas etnias a manter nossos nomes indígenas nos documentos, sofri muito. Era e ainda é difícil arranjar trabalho ou alugar uma casa. Aqui em Campinas mesmo, uma mulher deixou de alugar uma casa para mim depois que soube que eu era índio.
A pobreza é outra dificuldade que os índios que querem estudar têm de vencer. Sempre passei por muitas dificuldades, diz Maria das Dores, que nasceu em 1964, na aldeia Brejo dos Padres, município de Tacaratu, em Pernambuco, mas viveu dos 6 aos 15 anos em São Paulo. Minha família sempre foi pobre, então tive de estudar em escolas públicas e andar quilômetros a pé para ir às aulas.
Apesar disso, Maria das Dores de certa forma teve sorte, porque, apesar das dificuldades financeiras e de terem estudado apenas até a 4.ª série do ensino fundamental, seus pais sempre fizeram de tudo para os filhos estudarem. Foram bem-sucedidos. Todos os meus cinco irmãos têm ou estão fazendo curso superior, diz Maria. Um irmão está fazendo mestrado em Direito e uma irmã é formada em Letras. Outra irmã e outros dois irmãos estão na faculdade, cursando Letras, Direito e Enfermagem, respectivamente.
O terena Silva também teve de vencer a falta de dinheiro ao longo do caminho até o doutorado. Nascido em 1969 na aldeia Cachoeirinha, no município de Miranda, em Mato Grosso do Sul, aos 17 anos ele deixou a tribo, onde estudou até a 8.ª série, e foi para um colégio técnico em Cuiabá cursar o equivalente ao ensino médio.
Depois de formado como técnico agrícola, ele foi tentar uma vaga na Faculdade de Agronomia na UFRRJ. Na primeira tentativa, Silva não conseguiu passar no vestibular.
Ele não desistiu, no entanto. Sem dinheiro para voltar para sua aldeia, ele procurou a Funai. Consegui apoio de uma conselheira daquela instituição e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conta. Sensibilizada com minha grande vontade de ingressar na universidade, ela me convidou para trabalhar no sítio onde morava com o marido, professor da UFRRJ. No ano seguinte, passei no vestibular. Com muito sacrifício me formei, fiz o mestrado e hoje faço doutorado e realizo pesquisas sobre qualidade do solo, afirma.
Identidade Apesar de exibir seus títulos de mestres e doutores, esses índios felizmente não perderam sua identidade cultural. Ao contrário, o estudo parece ter reforçado o orgulho de suas origens e os laços com suas aldeias.
Maria das Dores resume bem esse sentimento do grupo. Sempre que posso, vou visitar minha aldeia, participar das festas, dos rituais, das políticas internas, conta. A minha ligação é bastante estreita porque sou parte do meu povo e ele é parte de mim. Lá estão minhas raízes, minha história, meus valores culturais. É lá que fortaleço a minha essência, que é ser índia pancararu, diz.
Preconceito e escola ruim travam formação
A avaliação é de orientadores de universitários indígenas
O preconceito e a má qualidade dos ensinos fundamental e médio nas escolas públicas do Brasil estão entre os principais motivos pelos quais há tão poucos índios na faculdade ou fazendo pós-graduação. A afirmação é de orientadores de mestrandos e doutorandos indígenas.
Para a lingüista Januacele da Costa, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que orienta a índia pancararu Maria das Dores de Oliveira, existe um preconceito latente em todo brasileiro contra o índio. "Mesmos os mais racionais cientistas ainda parecem acreditar que o índio, por ser índio, não tem capacidade igual à dos brancos", diz.
Januacele vai mais longe. Segundo ela, a situação dos índios no Brasil é pior do que a dos negros. "Fala-se muito sobre discriminação racial. Essa raça discriminada é a negra", explica. "O que se faz com relação aos índios, no entanto, é bem pior. Não é só discriminação, é apagamento. A raça foi apagada, sobrevive apenas nos livros de História ou na Amazônia."
Para o engenheiro agrônomo Fábio Martins Mercante, co-orientador do índio terena Rogério Ferreira da Silva, a explicação para o baixo número de indígenas na faculdade e na pós-graduação está na má formação que eles recebem nos ensinos fundamental e médio. "A única opção de ensino para eles são escolas públicas", diz. "Como elas são ruins, os índios não recebem uma boa formação e são mal preparados para a faculdade."
Segundo Januacele, o Brasil perde muito com essa situação. "O País poderia ganhar muito com mais índios no ensino superior", diz. "Um cidadão brasileiro com boa formação sempre terá muito para fazer para ele próprio e para a sua sociedade. Em segundo lugar, esse cidadão, sendo índio, serviria de modelo para uma geração de jovens que acham que não podem nada porque são índios. Esse cidadão funcionaria, assim, como uma espécie de Ronaldinho, elevando a auto-estima da sua comunidade."
Além disso, Januacele acredita que um cidadão índio com pós-graduação compreende muito bem os dilemas e problemas do seu povo, porque compreende muito mais em termos universais. "Enfim, o ganho do Brasil seria enorme em termos de imagem, que nós sabemos ser hoje muito importante para o País", diz. "Seríamos vistos como uma nação que se preocupa com os direitos humanos e dá oportunidades para todos." (E. S.)
OESP, 26/06/2004, p. A16
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