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Índios estão isolados nas reservas

O Globo, O Pais, p.10
27 de abr de 2004

Índios estão isolados nas reservas

Rodrigo Rangel. BRASÍLIA.

O ataque que resultou na matança de pelo menos 29 garimpeiros no último dia 7, em Rondônia, deixou isolados os índios cintas-largas que vivem na área indígena Roosevelt e nas outras três reservas vizinhas: Serra Morena, Aripuanã e Parque Aripuanã. Temendo um revide de garimpeiros que moram em cidades próximas às reservas, os índios estão evitando sair das aldeias. A Funai orientou os cintas-largas a evitar as cidades, onde poderiam se encontrar com garimpeiros. O isolamento tem causado problemas. Cerca de 40 adolescentes e jovens índios que estudam em escolas fora das reservas estão sem freqüentar as aulas desde os dias seguintes ao massacre. Como já haviam passado da 4 série do ensino fundamental, eles dependiam das escolas de cidades vizinhas. Dentro das aldeias, há escolas indígenas que ensinam até a 4 série. Mas mesmo nessas escolas as aulas estão prejudicadas. Os professores da rede estadual de ensino aulas estão com medo de entrar na área, como informou um funcionário da Funai. Na saúde, outro problema. Vistos pela vizinhança como endinheirados, os índios agora já não podem mais sair para as consultas em clínicas e hospitais particulares das cidades, como faziam antes. A orientação para que os índios não saiam da reserva foi dada pelos funcionários da Funai que, nos últimos dias, estiveram nas aldeias para negociar com os caciques a entrada da Polícia Federal para resgatar os corpos de garimpeiros mortos. — Eles estão mais seguros lá dentro — disse o sertanista Apoena Meirelles, chamado para tentar apaziguar a tensão entre índios e garimpeiros na região. Um dos maiores defensores dos garimpeiros, o governador de Rondônia, Ivo Cassol, voltou a criticar a Funai e acusou a direção do órgão de negligência: — A Funai sempre soube do que estava acontecendo lá dentro da reserva e sempre tentou acobertar tudo. Se pudesse esconder os corpos (dos garimpeiros), teria escondido. O governador também criticou a força-tarefa enviada pelo governo federal. Ele diz que os policiais federais e os homens do Exército estão fora da reserva, quando deveriam estar dentro, mais corpos. Com base em depoimentos dos próprios garimpeiros, Cassol afirma que há dentro da reserva mais de 300 corpos de garimpeiros supostamente mortos nos últimos dois anos pelos cintas-largas.

O Globo, 27/04/2004, p. 10

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