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Índios enfrentam preconceito e falta de reconhecimento

O Povo-Fortaleza-CE
04 de mar de 2002

Venâncio Ferreira, presidente do Conselho Indígena: ''os índios acompanharam o ritmo do mundo''

''Por que o índio não anda nú?'' Essa pergunta já foi feita por muitas pessoas a Venâncio Rodrigues Ferreira, presidente do Conselho Indígena do povo Pitaguary. O comerciante diz que não demora a responder: ''Por que vocês tomaram nosso lugar. Hoje, quem anda nú são vocês, nós andamos vestidos'', ironiza.

Para Venâncio Ferreira, a questão de ser índio está no sangue e no auto-reconhecimento. Roupas, idéias e até o uso de tecnologias não descaracterizam um grupo indígena. ''Os índios acompanharam o ritmo do mundo, mas sem perder o vínculo com sua etnia e seus costumes'', ressalta.

Mas, para ele, é difícil ser índio. ''Precisa de coragem para assumir sua própria identidade por causa do preconceito'', diz Venâncio. Preconceito inclusive dos próprios vizinhos da comunidade, motivados muitas vezes pelo direito que o índio tem à terra. ''O posseiro nunca vai dizer que o índio é dono da terra'', garante. Ele diz que pessoas próximas consideram que a comunidade de Santo Antônio do Pitaguary não é de índios, mas de descendentes de escravos.

''De 1999 para cá, a questão da educação e memória Pitaguary cresceu muito'', avalia Venâncio Ferreira. O comerciante ressalta que as crianças estavam ''desaculturadas do seu povo'' e acredita que os professores vão ter uma tarefa difícil. Para ele, as conquistas são resultado da luta dos índios. ''A gente só consegue as coisas brigando'', diz. Ele informa que foram feitas reuniões com a prefeitura de Maracanaú e a Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Ceará (Seduc) para essa mudança.

É da venda de frutas em uma barraca na estrada próxima à comunidade que Venâncio Ferreira tira o sustento de sua família. Ele é casado a trinta anos com uma índia da etnia Potiguara e tem três filhos. O comerciante teve que sair da aldeia adolescente para ajudar a mãe no sustento de seus oito irmãos. Primeiro destino: Fortaleza, trabalhando como ajudante de pedreiro. ''Fui enfrentar uma vida dura'', lembra. Depois Rio de Janeiro e São Paulo. ''Tem muitos índios cearenses em São Paulo'', informa Venâncio. Ele diz que há cerca de quinhentas pessoas da aldeia em outras partes do Brasil. ''No futuro, pretendo trazer esse pessoal de volta para a comunidade'', garante.

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