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Índios elaboram projeto de preservação

CB
18 de jun de 1995

Índios elaboram projeto de preservação

Joaquim Monteiro

Os índios da aldeia Xikrin Cateté, no Para, querem assumir a responsabilidade da preservação ambiental de suas terras, executando um plano de manejo sustentável dos recursos madeireiros.

O projeto. elaborado durante quatro anos pela comunidade com o apoio de uma ONG, o Instituto Socioambiental de São Paulo. e do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de São Paulo (USP). foi entregue esta semana aos ministros Nelson Jobim. da Justiça, e Gustavo Krause, do Meio Ambiente.

Os xikrin um subgrupo da tribo caiapó querem que os órgãos do governo colaborem tecnicamente com o projeto e mantenham permanente acompanhamento da sua execução.

Você precisa visitar nessa aldeia e conhecer nosso trabalho. Nós não quer (sic) esconder nada do branco disse o cacique Carangué ao ministro Krause.

O plano prevê a utilização econômica de madeiras nobres como o mogno, cedro e jacarandá. em apenas 10% do território indígena da tribo durante 30 anos quando serão exploradas anualmente, em sistema rodízio.

As faixas de terras a serem exploradas são equivalentes a 1.500 hectares, segundo afirma o diretor do Instituto Socioambiental, Márcio Santilli. A produção estimada destaca é de 4.000 metros cúbicos/ano.

A exploração e comercialização dos recursos madeireiros, além da administração dos lucros ficam sob a responsabilidade da Associação Bep-Noi que será criada ainda este ano pelos xikrin.

Cacique é tigre indomável
A tribo xikrin com uma aldeia de 517 índios. ocupa uma área de 439.150.5 hectares, à margem esquerda do Rio Cateté, no município de Parauapebas no estado do Pará.

Além da exploração madeireira. que pretendem otimizar com o projeto, vivem da caça, pesca e da agricultura. Plantam milho. feijão e colhem castanha do Pará.

Os xikrin não se misturam nem mesmo com índios de outras aldeias. A maior parte da tribo e constituída por homens. As mulheres representam apenas 30% da comunidade. São ciumentas e trabalham na roça com os homens.

Carangué, o cacique mais jovem da raça caiapó (26 anos), por seu porte "elegante e varonil" - segundo definição de um funcionário da Funai - é chamado pelas moças brancas da região de "tigre indomável".

De acordo com esse funcionário, as brancas querem se casar mas o cacique apenas se diverte com as transas.

Expulsão - Em 1989, quando a demarcação das terras foi homologada oficialmente. os índios assinaram contratos com madeireiras. Recebiam 10% dos lucros na venda.

Mas as indústrias, denuncia o cacique. abriram cerca de 400 quilômetros de estradas ilegais na sua aldeia para escoar a produção de madeiras nobres.
"Em 1992. decidimos romperes contratos e entrar com um processo de indenização na Justiça para recuperar os prejuízos conta Carangué. O processo ainda rola nos tribunais.

Krause responde em 15 dias
O ministro Krause. ao receber o documento das mãos do cacique Carangué Xikrin. Filosofou: "Recebo-o como uma importante contribuição de ensinamento para os outros indígenas brasileiros e para a Aldeia Brasiliense".

Após ouvir o diretor do Instituto Socioambiental. Márcio Santilli. sobre os objetivos do projeto, Krause afirmou que sua finalidade atende plenamente aos interesses do G-7 (grupo das sete potências do Primeiro Mundo que subvencionam a preservação ambiental no Brasil).

O Ministério do Meio Ambiente vai analisar o projeto sob o ponto de vista jurídico das normas de preservação ambiental e. no prazo de 15, dias. encaminhará os resultados à liderança dos xikrin.

Segundo Márcio Santilli a iniciativa da tribo xikrin representa a primeira proposta concreta do uso econômico dos recursos naturais na Amazônia, pelos próprios índios rompendo com o modelo de exploração predatória das madeireiras''.

CB, 18/06/1995

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