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Índios do Rio Negro resgatam costumes

Agência Amazônia
06 de ago de 2007

São Gabriel da Cachoeira, no alto Rio Negro, é um município que guarda sua tradição. O município, com população 85% indígenas, tem como língua oficial o português e mais três línguas co-oficiais - Nheengatu, Tukano e Baniwa.

São Gabriel da Cachoeira, no alto rio Negro, é um município que guarda sua tradição. Com 32 mil habitantes, dos quais 85% indígenas, o município tem como língua oficial o português e mais três línguas co-oficiais - Nheengatu, Tukano e Baniwa que foram aprovadas pela lei municipal 145/2002 e na prática são as línguas tradicionais faladas pela maioria dos habitantes.

O nheengatu é a língua geral da Amazônia, é uma língua da subfamília tupi-guarani sendo falada por cerca de 30 mil habitantes da região do Alto Rio Negro, no estado do Amazonas. A língua materna mantém o caráter de língua de comunicação entre índios e não-índios, ou entre índios de diferentes línguas. Recentemente, uma destas tradições, a Cachoeira de Iauaretê, no rio Uaupés, teve seu registro no Livro dos Lugares do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, do Ministério da Cultura.

O tombamento pelo Iphan marca mais uma etapa no processo de revitalização cultural promovido por lideranças indígenas da região, que inclui também a reconstrução de malocas, a retomada de práticas rituais nas comunidades e a

implementação de escolas indígenas. O levantamento reuniu o Instituto Socioambiental (ISA), o Iphan, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e a ONG Vídeo nas Aldeias e ainda a participação direta de ideranças Tariano e Tukano.

O local é considerado sagrado pelos povos Tariano e Tukano e por outras etnias que vivem em Iauaretê e passa assim a ser o nono patrimônio imaterial brasileiro, o primeiro a ser registrado no Livro dos Lugares - os demais patrimônios imateriais estão descritos nos livros dos Saberes, das Celebrações e das Formas de Expressão.

As pedras que formam as corredeiras do rio Uaupés são especialmente importantes aos Tariano, uma das etnias mais numerosas do povoado. "Grande parte da toponímia de Iauaretê refere-se às transformações de Okomi, um dos seres do começo dos tempos que foi devorado pela gente-onça. Os Tariano referem-se a ele como osso avô, pois seriam seus descendentes em linha direta", resume Geraldo Andrello, antropólogo do ISA.

A partir desse registro há outros sonhos latentes das lideranças de Iauaretê que começam a ganhar forma, entre elas, a publicação de um livro registrando seus mitos de origem e a história recente do povoado e de suas populações e ainda de recuperação de alguns ornamentos e enfeites de seus antepassados atualmente guardados no Museu do Índio de Manaus, muitos deles arquivados na reserva técnica do museu e não expostos ao público.

Estes objetos sagrados foram obtidos pelo estabelecimento, de acordo com seus administradores, por doação e em troca de artefatos e mercadorias como espingardas, sabão, material fotográfico e roupas.

Contra aculturação

O movimento de revitalização cultural no Alto Rio Negro pode ser entendido como uma reação das lideranças indígenas mais antigas ao progressivo distanciamento dos jovens em relação a suas tradições culturais. Esse distanciamento, que resulta de programas de catequese e civilização, operados pelo Estado e missões religiosas ao longo de mais de dois

séculos de contato, é hoje agravado por um movimento de concentração das famílias indígenas nos centros urbanos do Alto Rio Negro - principalmente Iauaretê e São Gabriel da Cachoeira -, em busca de educação continuada, renda e outros serviços públicos.

Esse movimento tem implicado, para os mais jovens, em um desconhecimento de certas referências culturais mais associadas ao estilo de vida comunitário. O processo é apontado pelos mais antigos como uma das causas dos recorrentes problemas sociais detectados nos núcleos urbanos regionais, envolvendo jovens indígenas, como os confrontos violentos entre gangues, casos de estupro e de alcoolismo.

A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), define como patrimônio cultural imaterial as práticas, representações, conhecimentos, objetos e lugares associados aos saberes de grupos e comunidades, transmitidos por gerações e constantemente recriados.

A cachoeira de Iauaretê é o oitavo bem cultural imaterial registrado no Brasil - os outros sete são a arte Kusiwa dos índios Wajãpi; o ofício das paneleiras de Goiabeiras; o samba de roda no Recôncavo Baiano; o Círio de Nossa Senhora de Nazaré; o ofício das baianas de acarajé; a viola-de-cocho; e o jongo.

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