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Índios de volta à Esplanada

CB, Brasil, p. 12
04 de Abr de 2006

Índios de volta à Esplanada

Paloma Oliveto
Da equipe do Correio

As ocas estão de volta ao gramado da Esplanada dos Ministérios. De hoje a quinta-feira, cerca de 500 índios de várias etnias ficarão acampados em Brasília para reivindicar direitos como terra, saúde e educação. Na terceira edição do movimento Terra Livre, que faz parte do Abril Indígena, o governo não terá trégua. Ao contrário de 2005, quando, eufóricos com o anúncio da homologação da reserva Raposa Serra do Sol, eles fizeram protestos tímidos contra a política indigenista de Luiz Inácio Lula da Silva, para este ano, os índios prometem endurecer o discurso.

"Esse foi o pior governo para os índios nos últimos 20 anos", declara o cacique Aurivan dos Santos, mais conhecido como Neguinho Truká. Um dos principais líderes indígenas brasileiros, o truká reclama, principalmente, da situação de insegurança em que vivem os índios brasileiros. Em junho passado, o irmão e o sobrinho do cacique foram assassinados por policiais militares à paisana, no município de Cabrobó (PE) dentro da reserva da etnia. Segundo levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em 2005, 38 índios foram assassinados. O último, Dorvalino Rocha, líder guarani caiuá, morreu no dia de Natal, alvejado por seguranças de uma fazenda do município de Antônio João (MS). "Os fazendeiros costumam achar que existe muita terra para pouco índio", conclui Neguinho Truká.

Além da violência, os índios vão insistir na regularização fundiária de 14 terras. No último Abril Indígena, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, garantiu aos líderes que se encontraram com ele que o processo de legitimação das reservas seria agilizado. Porém, até agora, nenhuma delas está próxima de ser homologada. "A Funai sempre fala que vai criar um grupo de trabalho para fazer o estudo antropológico, mas isso nunca acontece", reclama o líder Maurício Guarani, de Viamão (RS). Os índios da etnia brigam com o governo estadual por uma área de 5.556 hectares, que seria tradicionalmente indígena. Já o estado considera a área uma reserva de conservação ambiental.

Nem a criação da Comissão Nacional de Política Indigenista, anunciada no mês passado pelo presidente Lula, agradou aos líderes. Desconfiados, não sabem se realmente terão poder junto ao órgão. A líder do povo Tiryó, Valéria Payé, questionou a coincidência do decreto presidencial que instituiu a comissão pouco tempo antes do Abril Indígena. "O governo tenta calar nossa boca fazendo ações exatamente no mês de abril", disse, na sexta-feira passada. "O governo tenta fazer de tudo para desviar as atenções quando se sente pressionado. Mas não vamos deixar de apresentar nossas reivindicações", garante o cacique Maurício Guarani.

CB, 04/04/2006, Brasil, p. 12

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