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Índios de RR querem quartel em Normandia em vez de Uiramutã

Folha de Boa Vista - Boa Vista - Roraima
Autor: Marilena Freitas
22 de Fev de 2001

Pela primeira vez o Exército ouviu ontem as lideranças indígenas que são contra o local escolhido para a construção do 6o Pelotão Especial de Fronteira (PEF), no Uiramutã. O encontro aconteceu na maloca Maturuca, durante a visita da comitiva de Brasília.

Os tuxauas, que estavam reunidos em assembléia desde anteontem, sugeriram que o quartel seja construído no município de Normandia, onde já existe uma unidade militar. Ao justificar o motivo de ser contra a instalação naquele local, relataram vários casos de violência contra os indígenas praticados por militares e não índios.
Eles entregaram cópias dos relatos à procuradora da 6ª Câmara do Ministério Público Estadual (MPE), Déborah Duprat, ao presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, Tourinho Neto, e ao juiz relator do processo, Daniel Paes Ribeiro.
Estavam na comissão o procurador regional da AGU (Advocacia Geral da União), Manoel Lopes de Sousa, a procuradora-chefe da AGU local, Dalva Machado, o coronel do Comando do Exército, Walter de Carvalho Simões Júnior, general Claudimar Magalhães, o administrador da Funai (Fundação Nacional do Índio), Martinho Alves, e os deputados Berinho Bantim (PSL) e Salomão Cruz (PPB).
AGRESSÃO
Das sete pessoas agredidas, quatro mostraram para as autoridades as marcas da violência como cicatrizes de bala e faca. "Não queremos (o Exército) porque essa mesma farda já atormentou nossas comunidades, invadiu casas, torturou, baleou e esfaqueou os índios", disse o 2o tuxaua do Maturuca, Demonito José de Souza.
Ele contou que em 1987 o Exército com as polícias Militar e Civil invadiram a Maloca da Santa Cruz e agrediram homens, mulheres e crianças, provocando o aborto na índia Cleonice. "Com armas e até fuzis eles destruíram diversos utensílios e toda a alimentação da aldeia", acrescentou.
Citaram a invasão na maloca Maturuca quando obrigaram um índio doente a andar, e a paralisação das atividades no retiro Tamanduá, na maloca Caraparu II. Lembraram ainda as denúncias de abuso sexual praticado contra as índias em outras regiões.
"Não queremos ver nossas filhas deixadas com filhos ou levadas para cidade para ser empregada doméstica", disse a tuxaua Diva de Souza. O líder indígena Valdir Tobias, da maloca do Congresso - Baixo Cotingo -, frisou que os índios não querem criar um país dentro do Brasil, mas defender a cultura.
"De 900 grupos, só restam 300. Onde estão as outras etnias?", questionou ao criticar alguns deputados federais que usam a tribuna, para dizer que naquela região vários índios são estrangeiros. As lideranças garantiram estar dispostas a conversar com o Exército.
"Esperamos ser convidado para discutir noutro momento. Pedimos apenas que nos respeite", complementou o indígena Nelino Galé, ex-vereador do PT em Normandia. Na reunião, os representantes do Exército nada argumentaram sobre a sugestão do local feita pelos índios e nem sobre os relatos de violência.
EXÉRCITO
Indagado durante entrevista se havia possibilidade de ser acatada a sugestão dos índios e implantar o quartel em Normandia, o General Claudimar Magalhães respondeu que já havia um Pelotão naquela região.
"Ali não cabe o recurso. Aquele Pelotão está na medida certa, bem dimensionado para aquela situação", disse ao comentar que está convicto de que a melhor área é a do Uiramutã.

Sodiur a Arikon reúnem cerca de 150 indígenas

Índios favoráveis à construção do quartel fizeram manifestação em Uiramutã

Os tuxauas favoráveis a construção do quartel, ligados a Sodiur (Sociedade dos Índios Unidos de Roraima) e Arikon (Associação Índios da região do Baixo Cotingo), reuniram cerca de 150 indígenas no município do Uiramutã para receber a comitiva de Brasília.
A comunidade com maior representatividade foi a Uiramutã II que, segundo o tuxaua Julião da Silva, 30 indígenas deixaram as atividades diárias para demonstrar que são favoráveis a construção do Pelotão. Depois dela estava a maloca Ticoça, com 21 índios, seguidos da Monte Muriá II, com 20, e a do Flechal, com 18. A demais levaram em média cinco indígenas.
Para reforçar o apoio, eles levaram cartazes com frases de impacto como: "Exército é mais saúde e segurança" e "Sim ao Exército. Fora Funai e Ongs". Além da prefeita Florany Mota (PPB), seis vereadores estavam presentes.
O tuxaua Miguel Agostinho Bento, da maloca Macedônia, aproveitou a ocasião para criticar Funai, que segundo ele, só atende aos interesses dos índios ligados ao Cir (Conselho Indígena de Roraima). O tuxaua Lauro Barbosa entregou as autoridades um documento com uma fita cassete em que mostra a harmonia dos índios Yanomami da região de Erikó com os militares.

Índio ameaça invadir Funai

O presidente da Arikon, Gilberto Macuxi, ameaçou invadir a sede da Funai em Boa Vista, caso a decisão da Justiça seja desfavorável as comunidades que são a favor da construção do Pelotão. Além disso, disse que vai realizar um protesto em Brasília.
"Queremos uma definição justa porque a região da Raposa/Serra do Sol está sendo administrada pelos padres e pelas Ongs (Organizações Não Governamentais). Vamos organizar protesto em Brasília", ameaçou.
Entre as queixas contra a Funai, Macuxi disse que o órgão não tem interesse em trabalhar em conjunto com todas as facções, principalmente àquelas que desejam o desenvolvimento.
"Se a Funai apoiar a decisão do Cir, vamos invadir novamente a sede porque o Martinho (administrador da Funai) está a serviço da Diocese", acusou o líder indígena.

Indígena do Cir é agredida

Índia Lidiane Pereira levou um tapa por ser contra quartel

Depois de enfrentar cerca de 150 indígenas favoráveis à construção do Pelotão para defender a comunidade em que vive, a índia Lidiane Pereira da Silva, ligada ao Cir, foi agredida pela mulher do presidente da Arikon, Marilene Macuxi.
Lidiane é filha do tuxaua do Uiramutã, Orlando Pereira. Ela contou que foi estuprada aos 9 anos por um garimpeiro. Na hora em que dava entrevista para a imprensa levou um tapa no rosto. Marilene Macuxi só não agrediu mais porque os jornalistas impediram.

AGRESSORA
A índia Marilene Macuxi disse que a agrediu para que ela respeitasse os índios que são a favor da construção do quartel. "Fiz isso e se for preciso, faço de novo", disse ao ressaltar que os índios adversários costumavam fazer o mesmo.

Relator não quis emitir posição

O juiz relator do processo do caso de Uiramutã, Daniel Pael Ribeiro, preferiu não se emitir posição. Ele limitou-se a dizer que a visita poderia influenciar ou não no parecer dele que será analisado por mais três juizes.
O presidente do TRF, Tourinho Neto, que deu duas decisões diferentes em menos de 15 dias, disse que a visita serviu para o relator observar de perto a situação porque ouviu os dois lados.
Segundo ele, na última decisão pesou a proposta do Ministério Público Federal (MPE), que propôs uma conversa entre as duas partes para se definir o local para a construção do quartel.

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