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Índios dão aulas na USP para pesquisadores

Estado de S. Paulo-SP
Autor: LUCIANA MIRANDA
08 de Fev de 2002

Durante uma semana, eles participaram de curso na Faculdade de Saúde Pública

Quando tinha 1 ano, a pequena Lulu escapou por pouco das estatísticas de mortalidade infantil. Desnutrida e desidratada, ela foi atendida por Pablo, um jovem auxiliar de enfermagem. A menina sobreviveu e tem hoje 3 anos. A história seria comum não fosse por Lulu e Pablo serem índios da aldeia Morená, no Parque Indígena do Xingu, norte do Mato Grosso.

Para contar experiências como essa, Pablo Kamaiurá, de 28 anos, e outros quatro índios estiveram na capital esta semana. Eles atuaram como professores em um curso de verão sobre saúde indígena, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Entre os alunos, estavam pesquisadores, enfermeiros e médicos.

Cacique Adolfo Timóteo, de 32 anos, e Karai Tataendy, de 37, vieram de uma aldeia guarani, em Bertioga. Noel Patrocínio Terena, de 70 anos, veio de mais longe, de uma reserva no Mato Grosso do Sul. Vitorino Guajajara, de 46 anos, é da reserva de Araribóia, no Maranhão. Todos têm a mesma missão: trocar conhecimento com o homem branco para melhorar a qualidade de vida nas aldeias.

Não importa qual é a tribo. Kamaiurás, terenas, guajajaras ou guaranis são unânimes: as ações de saúde só funcionam quando o índio participa.

Para os indígenas, saúde não é apenas ausência de doença. Tratamento não é só feito com remédios. Na aldeia de Bertioga, onde vivem 300 índios, saúde é criar frango. O cacique explica: "A carne é alimento, as penas são usadas para fazer artesanato e as fezes da ave adubam a terra que fica boa para plantar."

Na reserva de Noel, perfuração de poços e instalação de água encanada reduziram a mortalidade infantil. Lá, vivem 2,5 mil terenas. Em Araribóia, Vitorino luta para informar o índio sobre como se proteger contra as doenças sexualmente transmissíveis - principal problema que atinge os 6 mil índios da reserva, muito próxima da cidade.

Projetos - A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mantém um projeto de saúde indígena no Xingu. A FSP-USP é responsável por outro, na aldeia guarani de Bertioga. Nos dois casos, índios e profissionais de saúde trabalham juntos. Os resultados: queda da mortalidade infantil. Pablo diz nem acreditar que Lulu seja a mesma criança que ele atendeu há dois anos. Satisfeito, Karai vê a população de sua aldeia crescer. "As crianças estão morrendo menos."

O diretor da FSP-USP, João Yunes, explica que o curso de verão foi um "tubo de ensaio" para verificar o grau de interesse dos pesquisadores pelo assunto. A idéia é planejar uma especialização na área. O curso teve lotação completa. Adolfo, Karai, Noel, Vitorino e Pablo voltaram para suas aldeias com mais uma missão cumprida.

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