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Índios comemoram a inauguração da maloca Casa de Conhecimento

Intituto Socioambiental - www.socioambiental.org
Autor: Andreza Andrade
13 de set de 2008

Símbolo da valorização cultural de povos indígenas que vivem próximos à cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), noroeste amazônico, a maloca baniwa "Casa de Conhecimento", da comunidade de Itacotiara-Mirim, é inaugurada depois de dois anos de construção.

Desde o início da formação da comunidade de Itacoatiara-Mirim, as famílias baniwa lideradas por Luíz Laureano, sempre procuraram manter vivas as tradições dos seus antepassados. Mas embora ali houvesse um centro comunitário para acolher manifestações culturais, ritos religiosos e tradições, os baniwa sentiam necessidade de ter um local, uma grande casa comunal como tinham seus antepassados, onde várias famílias viviam, tomavam decisões políticas, celebravam rituais de dança, de benzimentos e de iniciação. Seria o "espaço ideal" para motivar toda a comunidade a participar de atividades culturais e um contraponto às situações de risco - ­ alcoolismo, drogas, prostituição, suicídios e outros - às quais os jovens indígenas estão expostos na cidade.

Assim, em 2005, Itacoatiara-Mirim organizou uma reunião com lideranças locais para discutir a construção desse espaço. "Era um sonho do meu pai, falecido há pouco tempo, construir a maloca para que pudéssemos matar saudade da nossa terra, dançando e cantando com crianças e velhos", conta Laureano. "É na maloca que vamos nos reunir para contar histórias de antigamente, dizia meu pai".

O arquiteto e urbanista Almir Oliveira, pesquisador associado ao Instituto Socioambiental e estudioso da arquitetura tradicional do Alto Rio Negro, foi convidado a contribuir no desenho e na construção da maquete do que viria ser a tão sonhada maloca. Projeto pronto e planta nas mãos, ainda faltava o financiamento para a construção. Pequenos projetos em busca de apoio foram enviados e a construção acabou viabilizada com recursos da Cafod (Agência Católica para o Desenvolvimento), do ISA, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), da Escola Agrotécnica Federal e da Prefeitura Municipal de São Gabriel da Cachoeira. O Prêmio Cultura Viva 2007, do Ministério da Cultura, que o grupo de danças de Itacoatiara-Mirim ganhou por conquistar o segundo lugar na categoria "grupo informal", também foi um grande incentivo. Saiba mais sobre o prêmio. O grupo foi formado por Luiz Laureano ao tempo em que foi capitão, tuxaua da comunidade, e ganhou reconhecimento local, nacional e internacional ao dançar em Paris, durante as comemorações do ano do Brasil na França, em 2005.

Mas o fundamental para a concretização do projeto foi o esforço da comunidade que durante dois anos organizou mutirões de trabalhos nos quais crianças, jovens e velhos trabalharam juntos somando forças para erguer a maloca que passou a ser chamada de "Maloca Casa de Conhecimento".

Espaço de transmissão de cultura

"A Maloca Casa de Conhecimento é um espaço de transmissão e aprendizagem da nossa cultura para quem não a conhece ou esqueceu. Lá iremos conversar, contar histórias de antigamente, reviver nossos costumes de comer juntos a quinhapira e o mingau pela manhã. Vamos dançar, fazer nossos próprios instrumentos, mostrando aos jovens como os antigos faziam" explica Laureano. "A Casa de Conhecimento também irá receber parentes que virão do Içana para compartilhar conosco as notícias de nossos familiares que ficaram por lá, para dançar e conversar. Será como uma escola que irá passar conhecimento".

Transformar o espaço em uma "maloca-escola" está nos planos para o futuro. A comunidade planeja discutir como será o projeto político-pedagógico da Casa, para assim atender as crianças e jovens locais e também os das comunidades vizinhas. Serão as gerações futuras, de acordo com Moisés Laureano, presidente da Acicc (Associação Cultural Indígena Casa de Conhecimento), filho de Luiz Laureano, que manterão vivas as tradições dos baniwa. "Os jovens indígenas que estão perto da cidade precisam se interessar pela nossa cultura. A cachaça, a televisão, as coisas ruins da cidade já influenciaram demais, e assim vemos nossos filhos, irmãos mais novos, envolvidos com bebedeiras, brigas e outras coisas", diz Moisés. "Eles também sofrem com o desemprego. Às vezes, eles nem terminam seus estudos, não conseguem emprego e ficam vagando por aí. Esses jovens, não estão formados nem na cultura do branco e muito menos na nossa cultura indígena. A maloca irá ensiná-los a sobreviver conforme nossos costumes, fazendo artesanato, trabalhando na roça, pesquisando as plantas e outras atividades".

Outra conquista da comunidade foi a formação da Acicc, fundada em maio desse ano. A associação teve sua origem relacionada diretamente com o empenho da comunidade em construir a maloca, trazendo união e espírito de cooperativismo entre todos. A comunidade entendeu que é necessário se organizar, criar uma associação para dar os próximos passos na ampliação do projeto da Casa de Conhecimento, que prevê a estruturação de uma praça comunitária no entorno da maloca.

A grande festa de inauguração

O madzero Luiz Laureano comandou a festa de inauguração entre 3 e 5 de setembro passados. Madzero significa em baniwa mestre das cerimônias, aquele que comanda essas festas. As danças se revezavam entre o cariçú baniwa e o cariçú dos tukano e tuyuka. Jovens e crianças participaram o tempo todo puxando as danças e fazendo a alegria do madzero. A dança da saúva, tipicamente baniwa, foi uma novidade para os que não a conheciam. O par de flautas japurutu era tocado com muita habilidade, com a experiência daqueles que receberam ensinamentos repassados há várias gerações. Também não faltou caxiri, a bebida tradicional feita de caldo de mandioca fermentado.

Na primeira noite, a convidada de honra foi a comunidade São José do Rio Ayari, que ofereceu um Dabucuri (troca de presentes) para Itacoatiara-Mirim em agradecimento. Outro grupo convidado, foi o Wese, formado por índios tuyuka que vivem na cidade e também realizam apresentações de danças. Na última noite, os integrantes do Wese homenagearam o madzero Luiz com a dança do Macará.

Apesar da intensa programação das noites, mal amanhecia o dia e o sino já tocava anunciando o mingau coletivo da manhã. Logo após, começava a programação diurna basicamente composta por práticas de esportes indígenas e não-indígenas. Povoados próximos a Itacoatiara-Mirim também participaram da comemoração com seus grupos de dançarinos e de esportistas. No último dia, houve a entrega dos prêmios para as equipes vencedoras.

A comunidade indígena encosta na cidade

"O nome da comunidade em baniwa é Kapithinai, quer dizer quati. Um padre que freqüentava minha comunidade quando eu ainda morava lá no Ayari, me falava de uma cidade que ficava abaixo de Manaus que se chamava Itacoatiara, e aquele nome ficou na minha memória. Então eu disse pra mim mesmo, quando eu tiver um sítio vou chamá-lo de Itacoatiara. Quando nos mudarmos pra cá, eu batizei como Itacoatiara-Mirim. Mirim, porque é uma pequena comunidade. Itacoatiara-Mirim significa em nhengatú "pequena pedra pintada", conta Laureano. É nesse lugar, às margens da estrada que leva ao aeroporto e ao porto de São Gabriel, que vivem 22 famílias.

A comunidade surgiu 20 anos atrás, quando a família de Luiz Laureano, baniwa do clã Hohodone, migrou da comunidade Camarão, no Rio Ayari, rumo à cidade de São Gabriel. De acordo com Luiz, o principal motivo que os levou a saír de sua comunidade de origem foi a busca de melhores condições de vida. "As nossas comunidades cresceram muito, aí começou a faltar peixe, caça e terra para plantar roça. Não tinha onde comprar pequenos objetos como fósforo, sabão, panelas. Para ir até São Gabriel ou Mitú (na Colômbia) e voltar para nossa comunidade era quase um mês a remo. Naquele tempo não tínhamos motor rabeta, gasolina e barco. Não tinha escola para meus filhos e assim a situação ficou cada vez mais difícil. Por isso resolvemos mudar para a cidade".

Luiz Laureano conta que no início foi difícil, pois a família precisava se acostumar ao novo ambiente. Apesar de um pouco afastados da cidade, acabaram vivenciando uma realidade que não era a deles. "A minha maior preocupação era com as crianças que agora estavam perto da cidade. Eu não gostaria que elas esquecessem dos ensinamentos dos mais antigos". Estabelecido na cidade, o grupo procurou a prefeitura de São Gabriel que cedeu um lote de terra para se instalarem na zona periurbana, a 11 km do centro da cidade.

Degradação ambiental

Depois de anos vivendo na região, os recursos naturais ficaram mais escassos e boa parte de área de roça, caça e de pesca da comunidade sofreu impactos ambientais, principalmente por conta de obras que a Comara (Comissão dos Aeroportos da Amazônia), órgão da Aeronáutica responsável pela construção de aeroportos militares na Amazônia, vem causando nos últimos anos. A ação mais prejudicial foi a retirada de terra e areia na cabeceira do principal igarapé que abastece a comunidade. A contaminação da água devido ao assoreamento do leito, vem trazendo muitas conseqüências. Uma delas é o alto índice de malária e diarréia que atinge sobretudo as crianças e os mais idosos.

"Publicamos uma carta endereçada à Comara, reivindicando reparos na área degradada e solicitando compensação por danos causados à nossa comunidade. Eles prometeram ajudar, mas já faz um ano que esperamos a resposta da carta que protocolamos na Comara e até o momento nada foi feito. Nossos igarapés estão assoreados, nossa área de roça e caça está com grandes erosões", informa Moisés Laureano. (Leia quadro abaixo).

Outro agravante é a retirada desordenada de madeira na área da comunidade. As estradas que foram abertas pela Comara para retirada de areia, facilitou a entrada de madeireiros na floresta que extraem madeira sem nenhum tipo de licença ou permissão da comunidade.

Recentemente com a elaboração do Plano Diretor do município, a comunidade de Itacoatiara-Mirim foi classificada como "zona comunitária indígena". Portanto, essas áreas têm como objetivo garantir a permanência das formas de uso e ocupação do solo segundo costumes, usos e tradições das comunidades que vivem nelas e junto com o poder público devem planejar o seu espaço de ocupação. Mesmo não pertencendo a uma terra indígena, a comunidade poderá pensar junto com o município o futuro para sua área. "Precisamos sentar com outras comunidades que também são zonas comunitárias indígenas para pensar o uso do nosso território. Para não acontecer de uma comunidade usar todos os recursos sozinha. Quase não temos recursos perto das nossas comunidades, precisamos pensar uma forma sustentável de uso" relata Moisés.

Mesmo que a predominância seja baniwa, atualmente vivem em Itacoatiara-Mirim pessoas de outras etnias como tukano, wanano, cubeu, siriano, desana. Migraram de várias regiões do Rio Negro e pediram acolhida a Luiz Laureano para viverem em Itacoatiara-Mirim. A convivência com outros povos na comunidade fez com que Laureano aprendesse outras línguas além de baniwa e português. Ele fala nhengatú, pira-tapuia, tukano, wanano, cubeu e espanhol. Todas as famílias convivem harmoniosamente. Reconstruíram suas vidas próximas à cidade abrindo roças, coletando frutos e pescando eventualmente, já que o rio fica muito distante dali.

Algumas pessoas da comunidade admitem que precisam da cidade para sobreviver, afinal, essa foi a causa das migrações. É na cidade que fazem compras, adquirem bens, vendem artesanatos, mantém relações sociais. Mas reconhecem que a proximidade não significa que esqueceram sua cultura por estarem inseridos no contexto urbano. Luiz Laureano diz sabiamente que sendo São Gabriel uma cidade e uma cidade praticamente indígena, os dois mundos podem conviver harmoniosamente. "Só depende da iniciativa de valorização dos saberes tradicionais de grupos como o de Itacoatiara-Mirim".

Carta aberta da comunidade de Itacoatiara-Mirim

A Comunidade Indígena de Itacoatiara-Mirim, localizada na Zona Comunitária Indígena da Estrada de Camanaus/km-10 próximo ao trevo do aeroporto Uaupés em São Gabriel da Cachoeira, vem por meio desta carta informar para toda a sociedade e principalmente para a Comara (Comissão de Aeroportos da Região Amazônia), que entre os anos de dois mil á dois mil e quatro, devastaram uma área ambiental para retiradas das piçarras para reformar a pista do Aeroporto. Este lugar onde extrairam as piçarras fica a quatrocentos metros da Comunidade e isso causou problemas para comunidade, porque a área degradada está localizada na cabeceira do principal igarapé da região e na época de chuva a lama escorre para o igarapé que as pessoas da Comunidade utilizam diariamente como: para tomar banho, lavar roupa, buscar água para cozinhar e beber.

A Comunidade possui 22 famílias e cerca de 120 moradores, etnias baniwa, tuyuka e barassana. Aquele igarapé possui duas cachoeiras atrás da comunidade, aonde as pessoas da cidade vinham acampar no fim de semana. Mas depois que o igarapé torno-se lama às pessoas da cidade abandonaram a cachoeira e até os próprios moradores da comunidade. Depois desse acontecimento o Agente de Saúde preparou um poço de água (de dois metro de fundura) próximo do igarapé, mas não resolveu os problemas da Comunidade. No ano de 2002 a Prefeitura abriu um poço de nove metros para a comunidade, e esse poço é insuficiente e apenas usado na época de muita chuva pois seca muito facilmente e as pessoas da comunidade voltam pegar água do igarapé. Hoje em dia os moradores da comunidade tomam banho de vasilha num açude de criação de peixes. A temperatura da água é de 34 Co que impedem o nosso costume de tomar banho na água fria do igarapé.

Como reconhecimento a comunidade Itacoatiara-Mirim, solicita que a Comara aceita essas problemas citadas acima e que as seguintes providências sejam tomadas:

1. abrir e equipar um poço artesiano profundo para a Comunidade. Contamos que a sete anos a comunidade utilizam água suja e tem causado muitas doenças como principalmente a Malária e Diarréias.
2. que a Comara repare o dano ambiental onde foi degradado através do plantio de mudas de árvores nativas. A Comunidade está disposta a colaborar com isso.
3. que a Comara respeite a obrigação constitucional (artigo 225) tanto de prevenir como de reparar danos ambientais nas obras que ela realiza no alto Rio Negro.

Finalizamos com nossos considerações e respeito ao meio-ambiente!

São Gabriel da Cachoeira-Am, 01 de novembro de 2007. (Seguem assinaturas)

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