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Indios cobram demarcacao e deputados, demissao na Funai

OESP, Nacional, p.A1 e A10
20 de Abr de 2004

Índios cobram demarcação e deputados, demissão na Funai Representantes de 28 tribos ameaçaram acampar no plenário da Câmara
EUGÊNIA LOPES
BRASÍLIA - O Dia do Índio foi comemorado ontem com protestos no Congresso e com o pedido de deputados para que o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Mércio Gomes Pereira, seja demitido. A principal manifestação contra o governo ocorreu na Câmara, onde cerca de 70 índios de 28 tribos ameaçaram acampar no plenário em represália à demora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em homologar a reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Depois de mais de uma hora de negociação com os deputados, os índios concordaram em deixar o plenário com a promessa de que Lula iria recebê-los.
Uma comissão de deputados foi ao Palácio do Planalto tentar marcar a audiência. Mas o chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, avisou que Lula não poderia receber os índios nem ontem nem hoje. Depois de aceitarem deixar o plenário, os índios permaneceram durante toda a tarde no Salão Verde da Câmara. Somente por volta das 20 horas, decidiram sair das dependências da Câmara, depois da promessa de que serão recebidos hoje por Carvalho.
Bombeiro - "Não queremos mais ser homenageados, queremos que Lula diga, com clareza, de que forma vai tratar a política indigenista", disse o líder indigenista Jecinaldo Sateré-Mawé. "Ou o governo fica do nosso lado ou fica do lado dos políticos corruptos de Roraima", completou, referindo-se à demora do governo em decidir sobre a Raposa Serra do Sol.
Enquanto os índios ocupavam o Salão Verde, deputados se revezaram na tribuna para criticar o presidente da Funai e pedir o seu afastamento do cargo. O deputado Lindberg Farias (PT-RJ) considerou "estapafúrdias" as declarações de Mércio Pereira, que afirmou que os índios cintas-largas apenas reagiram às invasões de suas terras ao matarem dezenas de garimpeiros. "O presidente da Funai não pode continuar à frente dos trabalhos, porque ao invés de tentar pacificar os conflitos, de agir como bombeiro, ele atiça a confusão, joga litro de querosene no fogo", disse.
Nem mesmo o PPS, partido de Mércio, o apóia. O líder do partido na Câmara, Júlio Delgado (MG), fez discurso apoiando o relatório de Lindberg para a demarcação da Reserva Raposa Serra do Sol. Mércio foi contra a proposta do petista. "Aos poucos a bancada do PPS forma uma convicção de que o relatório de Lindberg é a mais adequada."
UDR - Ontem, Mércio reiterou que a Funai vai defender os cintas-largas envolvidos nas mortes de garimpeiros. Ele disse que os índios estão lutando pelos seus direitos. "Nós temos que entender que o território indígena não é como uma propriedade privada. As terras dos povos indígenas são uma extensão de sua vida, de sua cultura. Eles têm que lutar por ela", afirmou Mércio, ao comentar a possibilidade de os índios serem condenados pelas mortes dos garimpeiros.
"Foi uma declaração infeliz, inconseqüente. Não poderia ter sido feita, especialmente em se tratando de um homem público. Como ele pode tentar justificar um ato desses?", afirmou ontem o presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia, que acusou Mércio de estimular a violência em conflitos agrários no País. "Quer dizer, então, que agora temos alvará para matar quem invadir nossa propriedade?", contou Nabhan. O governo poderia ter evitado o conflito em Rondônia, segundo ele, se estivesse monitorando a região. "Esses garimpeiros não chegaram ontem."
(Colaborou Mariana Caetano)

OESP, 20/04/2004, p. A10

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