Isto É, Comportamento, p. 52
29 de Mar de 2006
Índio quer vestibular
Primeiro exame exclusivo para indígenas reúne em Brasília 598 candidatos para disputar dez vagas
Por Rita Moraes
As dez vagas em cinco cursos da área de saúde (ciências biológicas, ciências farmacêuticas, enfermagem e obstetrícia, medicina e nutrição) atraíram 1.176 inscritos. Destes, apenas 598 fizeram as provas. Mesmo assim, e apesar do número simbólico de vagas, os educadores da Universidade de Brasília (UnB) ficaram satisfeitos por organizar o primeiro vestibular dedicado exclusivamente aos índios. A ação faz parte de um acordo entre a UnB e a Fundação Nacional do Índio (Funai). A comunidade indígena também comemorou. O sargento da Aeronáutica Maiky Ianacuai, 38 anos, sonha com uma das duas vagas de medicina para realizar o sonho de cuidar de sua tribo, de etnia kamayurá, em Mato Grosso. "Médico lá é uma raridade." Ficará ansioso até 5 de abril, quando sairão os resultados.
O principal motivo da alta abstenção foi a dificuldade de deslocamento. Dois outros fatores podem ter contribuído: o fato de a inscrição ter sido feita no ano passado e de outras universidades terem oferecido cotas para indígenas. "A Estadual do Amazonas, por exemplo, ofereceu vagas. Quem foi aprovado ficou por lá mesmo", explica a coordenadora de apoio pedagógico da Funai, Neide Martins. Nessas provas especiais, os candidatos apresentaram uma redação de no máximo 30 linhas, responderam a 50 questões de língua portuguesa e literatura e a 50 de matemática. "Não fizemos exames de biologia ou química porque a intenção inicial é conhecer o potencial do estudante", explica o pró-reitor da UnB, Murilo Camargo.
Aos aprovados, a Funai oferecerá moradia e bolsa de R$ 260. Candidato ao curso de nutrição, Clecildo Santos, da etnia fulni-ô, de Águas Belas (PE), vive há três anos em Brasília. Ele elogiou o projeto, mas avalia que o benefício não é suficiente. Ele se mantém com um ateliê de costura e gasta em média R$ 400 em alimentação e transporte. "Um índio recém-chegado da tribo dificilmente arruma trabalho logo. A inserção social é difícil", pontua. Para o próximo vestibular, a UnB pretende pelo menos dobrar o número de vagas. A torcida é grande.
Isto É, 29/03/2006, Comportamento, p. 52
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