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Índio e turismo: esta mistura dá certo?

O Povo-Fortaleza-CE
Autor: Debora Dias
06 de mar de 2002

A construção do primeiro Pólo Turístico Indígena do Ceará divide opiniões. O projeto prevê uma verdadeira ''cidade'' em torno da cultura dos índios Jenipapo-Kanindé, de Aquiraz. Segundo entidades, experiências de etno-turismo já realizadas no Brasil não foram bem sucedidas

Um projeto de transformação da aldeia dos índios Jenipapo-Kanindé, localizada em Aquiraz (30 km de Fortaleza), em Pólo Turístico Indígena, está provocando discussões. Enquanto a prefeitura de Aquiraz apresenta vantagens com a construção de casas e escolas para os índios, entidades ligadas à questão indígena questionam os benefícios do etno-turismo.

Elaborado pela prefeitura municipal, o projeto do Primeiro Pólo Turístico Indígena no Ceará prevê a construção de 26 casas para os índios, um centro cultural indígena, um centro de artesanato, uma praça para a dança do Toré, escola diferenciada, posto de saúde e terminal turístico dentro da área dos Jenipapo-Kanindé. As obras, que começam daqui a 30 dias, estão previstas para serem concluídas em seis meses.

''Até onde o empreendimento é proposto pelos índios?', indaga a coordenadora da Associação Missão Tremembé (Amit), Maria Amélia Leite. Para ela, a realidade indígena é muito mais complexa. Maria Amélia considera que se a iniciativa partir do grupo e este tiver consciência do turismo, pode ser um caminho. ''Já chega de projeto de não índios. A terra indígena tem que ser controlada pelos índios'', defende.

Maria Amélia diz que ficou preocupada quando, além do projeto, tomou conhecimento de intenções de emancipação do Iguape. A prefeita de Aquiraz afirma que não é contra nem a favor da emancipação de distritos. Se for um desejo da população ela apóia: ''Sou a favor da vontade popular''.

Ritelza Cabral diz este é o primeiro Plano Diretor de Aldeia Indígena do Brasil. Ela afirma que é uma verdadeira ''cidade'' projetada dentro da cultura dos Jenipapo-Kanindé. ''Um projeto ousado'', define a prefeita. ''Tentamos resgatar a história deles associado a uma qualidade de vida'', diz.

''Uma coisa é visibilizar a cultura indígena no centro da cidade (de Aquiraz), outra é levar multidões para a área dos índios'', defende a coordenadora da temática indígena do Centro de Defesa dos Direitos Humanos, Ana Maria de Freitas. Ela diz que foi informada que o Centro Cultural seria construído na cidade de Aquiraz, e não na área indígena como disse a prefeita.

Se fosse construído em Aquiraz, Ana Maria considera que seria uma ajuda aos índios na geração de renda. Para ela, seria uma forma deles repassarem seu artesanato. ''Se for na mesma região dos índios é complicado. É preciso selecionar cada vez mais o número de pessoas na área'', defende Ana Maria.

Cacique Pequena, representante da tribo Jenipapo-Kanindé, diz que ficou acertado que a prefeitura iria construir novas casas para aqueles cuja moradia estava deteriorada. Ela considera que a construção das casas vai beneficiar a comunidade. ''O posto de saúde e a escola diferencial também são um sonho antigo nosso'', revela. Como o artesanato que a comunidade produzia foi todo vendido ou doado, ela espera que o Centro de Artesanato seja um estímulo à produção.

De acordo com a coordenadora da Amit, existem tentativas de exploração do etno-turismo no Brasil que se mostraram prejudiciais. Maria Amélia cita uma exemplo similar no estado do Mato Grosso. ''A experiência foi prejudicial para a tribo, principalmente para os mais jovens'', afirma. Para ela, o projeto pode atrair outros tipos de turistas, além dos interessados em história local. Ela lança vários questionamentos: ''Qual vai ser o futuro dessa reserva indígena? E por que a prefeita não faz um esforço para a demarcação da terra?', pergunta.

Para levantar os recursos que faltam e procurar novos parceiros no empreendimento, a prefeita de Aquiraz, Ritelza Cabral Demétrio, está em Brasília. Segundo a prefeita, a Campanha da Fraternidade e a proximidade das eleições beneficiam seus planos. ''Como é ano de eleição, as coisas se apressam'', diz. Ritelza Cabral garante que a verba para a construção da escola, do Centro Cultural e das casas já estão garantidas.

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