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Índio é assassinado em emboscada

Diário de Cuiabá - www.diariodecuiaba.com.br
21 de dez de 2001

Índio é assassinado em emboscada
Há três meses, Carlito Cinta-Larga havia denunciado extração ilegal de madeira ao Ministério Público

ORLANDO MORAIS
Da Reportagem

Foi assassinado anteontem com vários tiros na cabeça o índio Carlito Cinta-Larga, de 28 anos, que há três meses vinha denunciando ao Ministério Público Federal (MPF) a extração ilegal de madeira em aldeias no município de Aripuanã (a 976 quilômetros de Cuiabá). Carlito Cinta-Larga sofreu uma "tocaia" de pistoleiros quando chegava em casa, em Aripuanã, às 21 horas.

A Polícia Federal já abriu um inquérito para investigar o crime. O clima é de tensão na cidade de Aripuanã (de 17 mil habitantes) - que tem boa parte de sua economia voltada para a extração de madeira em reservas indígenas. Há denúncias de que pistoleiros contratados por madeireiros estejam "vigiando" a cidade contra uma eventual revolta dos índios.

Assim que estacionou sua pick-up Chevrolet S-10, Carlito foi surpreendido por homens que atiraram primeiro para quebrar o vidro do carro - e depois atiraram várias vezes em sua cabeça. A esposa de Carlito, que havia descido antes para abrir o portão, apenas escutou os tiros e correu para dentro da casa.

Um delegado da Polícia Federal de Juína foi ontem para a região, e outro delegado segue hoje de Cuiabá. As investigações foram solicitadas pelo procurador da República em Mato Grosso, José Alexandre Benvenuto. Depois que recebeu a denúncia do índio Carlito em seu gabinete, em setembro deste ano, o procurador determinou que a Polícia Federal fizesse uma fiscalização no local. "A fiscalização foi feita e diversos inquéritos foram abertos para coibir a ação dos madeireiros", afirmou Benvenuto.

Ao todo, os índios cinta-larga vivem em quatro áreas nos municípios de Aripuanã, Juína e Rondolândia, em Mato Grosso, e no município de Cacoal, Rondônia. São 2,7 milhões de hectares habitados por 1,1 mil pessoas. Há mais de 20 anos, os cinta-larga são assediados por madeireiros.

Segundo o antropólogo João Dal Poz, que já esteve inúmeras vezes nas aldeias de Aripuanã, os índios fazem contratos verbais com madeireiros para permitir que eles abram frentes de exploração. "Cada aldeia trata com um grupo de madeireiros. O problema é que hoje já não há madeira à vontade para todos, o que motiva disputas de índios contra madeireiros e até de índios contra índios", disse ele. "Aquilo não é comércio, é um jogo de pressões".

Depois de duas décadas vendendo o seu patrimônio ambiental, alguns cinta-larga tinham um padrão de vida superior ao da média da população do município. O próprio Carlito já teve dois times de futebol da cidade. "E nesses times índio não jogava, índio mandava", afirma Dal Poz. Os índios trocavam a madeira principalmente por camionetes.

De acordo com a indigenista Maria Inês Hargreaves, os parentes de Carlito Cinta-Larga estavam transtornados, ontem, durante o velório. "Há a necessidade de uma investigação urgente e eficaz, ou a situação pode piorar mais", diz ela. "Foi um crime bárbaro. Como ainda se mata um índio, em pleno século 21, por causa de madeira!". Segundo Inês Hargreaves, a cidade de Aripuanã não tem qualquer estrutura investigava. "Não há sequer um perito criminal na cidade, quem teve que fotografar o local do crime foi uma fotógrafa amadora".

Diário de Cuiabá, 21/12/2001

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