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Autor: Marcos Terena
31 de Ago de 2009
Quando a Maria Fumaça cruzava o Bairro Amambaí, Cabeça de Boi e o Cascudo apitando toda feliz como se anunciasse aos campo-grandenses, que depois de cruzar o pantanal com sua fumaça chegava trazendo paraguaios, bolivianos, árabes, índios, pantaneiros enfim.
Na chegada a Estação descia todo feliz com seu quepe e uniforme, um índio todo vaidoso: era o maquinista, o comandante daquela viagem para surpresa de muitos.
Lembrei-me desse fato ao ver o Prefeito Nelsinho Trad, assumindo mais um compromisso social com as etnias indígenas que vivem e contribuem com o quadro sócio-econômico da capital.
Junto com o Secretário Athayde Neri inaugurou a primeira feira de cultura e comidas típicas indígenas, e graças a uma iniciativa da Caixa Econômica Federal, contribuía também na geração de emprego e renda a jovens indígenas como estagiários desse banco social.
Mesmo assim na contra mão da historia, vozes de currais do conservadorismo e de um poder rural ultrapassado, seguiam quase inaudíveis contra a demarcação das terras das primeiras nações de toda a região.
Coube a Campo Grande, como capital do Estado com a segunda maior população indígena do País, exercer o rito de passagem de toda essa situação.
Há um caldeirão de diversidades que nos leva a novas reflexões sobre o papel indígena na afirmação de sua identidade cultural, sua língua, costumes e com direitos plenamente assegurados como a terra, a moradia e a qualidade de vida, assim como o acesso a novos conhecimentos tecnológicos e políticos.
Um caminho sem volta, afinal os primeiros passos foram dados.
A sociedade campo-grandense como disse o superintendente da Caixa Econômica Federal e uma das estagiárias indígenas, agora quer ser Índio. Não há mais a vergonha do passado, mesmo quando ainda são chamados de bugres ou vagabundos.
Nelsinho Trad ao enaltecer essas ações como parte da agenda positiva do aniversário de Campo Grande, percebe que os ventos são outros.
O Índio de ontem deixou um legado para que o Índio de hoje, com celular e laptop, como universitário ou mestrando, possa seguir firme diante das novas oportunidades.
É um soldado do século XXI bilíngüe e intercultural capaz de falar uma língua diferente, celebrar uma espiritualidade sem religião e viver nos centros urbanos de igual para igual com qualquer cidadão. Já são quatro bairros indígenas.
Por isso, tal como na historia da Maria Fumaça, não se assustem se algum dia ao entrarem num hospital, serem examinados por um médico, um enfermeiro ou um dentista indígena.
Não se assustem se entrarem na Câmara de Vereadores e derem de cara com um Vereador Indígena, ou ao entrarem numa sala de aula e além de encontrar com alunos indígenas, encontrarem também instrutores e professores indígenas.
O valor indígena e o valor de uma cidadania estão na sua consciência e no seu coração. Como dizia um velho pajé, está no espírito indígena e na sua terra.
Que o diga o Governador Pucinnelli, nascido na Itália, em plena II Guerra Mundial, hoje usufrui de todos os valores da nossa terra, inclusive a cidadania, mas ele sabe que naquela época saindo de suas Ocas no Pantanal, diversos guerreiros Terena lutaram pela paz e isso não deve jamais ser esquecido.
Não existe o ódio ao homem branco, afinal o direito do índio por sua terra é um direito assegurado por Lei e um resgate da justiça e da história.
Não abrimos mão, no entanto, desse direito e sobre isso exigimos respeito de todos aqueles que optaram por essa região como fazendeiro, ruralista, comerciante ou político.
A ética e a democracia indígena estão baseadas no respeito ao outro e isso exige reciprocidade, sem a qual não iremos a lugar nenhum.
Campo Grande é o retrato desse valor quando um cidadão enche seus olhos de lagrimas ao ouvir em Guarani, Anahí, ou ao assistir a dança do ventre do pedaço árabe da Avenida Calógeras e 14 de Julho, sem falar no toque dos tambores da cultura negra da Igreja São Benedito e claro, a Dança Kipaé dos Terena.
Marcos Terena - É comunicador indígena, articulador dos direitos indígenas na ONU e cidadão campo-grandense.
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