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Indigenas pintam o Rio Negro de seus tataravos

OESP, Caderno 2, p.D8
13 de Jul de 2005

Indígenas pintam o Rio Negro de seus tataravôs
Relato antropológico feito entre 1903 e 1905 viram telas feitas por descendentes dos índios retratados na época
Liege Albuquerque
MANAUS - Cem anos depois de seus tataravôs aparecerem em desenhos e fotografias em preto-e-branco, descendentes dos indígenas retratados pelo antropólogo alemão Theodor Koch-Grünenberg, que fez uma viagem pelo Rio Negro, no Amazonas, de 1903 a 1905, homenageiam o expedicionário com uma releitura colorida de seu relato em acrílico sobre tela. Desde o dia 9, as 70 telas pintadas por seis indígenas de cinco etnias diferentes estão na exposição Um Viajante na Amazônia, no Studio 5, em Manaus.
Ao mesmo tempo, será lançada pela editora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) a primeira tradução brasileira do estudo do alemão, publicado até agora apenas em sua língua original. Traduzido pelo Padre Casimiro Béksta, o livro Dois Anos entre os Indígenas - Viagens ao Noroeste do Brasil tem quase 500 páginas de relatos, fotografias e desenhos feitos pelo antropólogo que viajou em um batelão (canoa de porte maior, sem motor) e perdeu as contas de quantas malárias pegou durante a longa viagem.
A idéia da homenagem ao alemão nasceu de conversas entre os alunos do curso Ye'Pá (mãe criadora do mundo, em Tukano), do Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura Amazônicas, e da curadora da exposição e presidente do instituto, a médica Idalina Costa. Conseguido o apoio para a exposição do Banco da Amazônia (Basa), uma artista plástica, Suzana Farache, ajudou a aperfeiçoar as técnicas dos alunos pintores Dhiani Pa'saro (da etnia Wanano), Duhigó (Tucano), Füãreicü (Ticuna), Sãnipã (Apurinã) Tóo Xac Wa (Oro Daó) e W e'e 'ena (Ticuna). "A exposição foi preparada em cinco meses, mas a professora só ensinou técnica e ficou impressionada com o talento dos pintores", conta Idalina. As cores e a idéia de cruzar várias fotos e desenhos do antropólogo foram escolhas individuais de cada aluno, que estudam pintura há dois anos. "Teve coisas que a gente viu, como o jeito que ele descrevia o bambu, que eram muito visão do branco, então desenhei do nosso jeito", conta Tóo Xac Wa, de 27 anos.
Dhiani Pa'sara, de 30 anos, é o campeão no número de quadros expostos: 22. Dos cerca de 300 quadros do acervo do Instituto Dirson Costa, Dhiani também conta ter lá "uma fatia grande de sua obra". "Pinto desde pequeno, mas não sabia que podia virar uma profissão. Agora não consigo parar", destaca. As cores predominantes nos quadros de Dhiani são os tons de terra.
Da exposição, seu quadro preferido é um dos que chamam mais a atenção: mostra Koch-Grünenberg e seus ajudantes levando o batelão nas costas na subida de uma cachoeira. No livro, há fotos em preto-e-branco da difícil empreitada. "Lá, a correnteza puxando rio abaixo encontra as águas do remanso, lança altas ondas sobre nós, o bote já tem água pela metade e é necessário carregá-lo", conta o antropólogo no livro.
Um dos quadros, que originalmente está numa fotografia em preto-e-branco de Koch-Grünenberg, chama a atenção pelas cores retratadas pelo pintor indígena. Em um tronco de árvore no meio de um rio, há roupas, frutas, sapatos, armas e flores penduradas. A legenda do quadro na exposição, tirada do livro do alemão, explica: "Aqui reside Uaimi-Payé (avô do pajé). Cada indígena que passa por aqui, subindo o rio, deixa ao demônio uma dádiva de maior ou menor valor para se assegurar de uma boa viagem. Nós oferecemos o nosso tributo de grande valor, em forma de limões e frutos amarelos de umari".
Em alguns quadros, a rápida mudança do clima amazônico é retratada pelos indígenas, nas chuvas e tempestades na floresta, que tanto impressionaram o antropólogo. "Enquanto em Manaus já estávamos no meio da temporada da seca, depois de um dia de viagem rio acima, estranhamente, começaram os temporais, dos quais não se pode ter idéia na Europa, ao mesmo tempo um espetáculo medonho e extraordinariamente grandioso." Toda a riqueza dos detalhes das tempestades escritos nos livros são retratados em alguns quadros. "As paredes da vegetação na beira do rio, durante a noite, ficam iluminadas pelos relâmpagos. A ventania enfurece-se e se despeja uma chuvarada que, conforme nossos conceitos, não pode ser chamada de chuva: os céus estão desmoronando."
Torturadores
Os mosquitos amazônicos, chamados por Koch-Grünenberg de "pequenos alados espíritos torturadores", também são lembrados na paisagem dos quadros. Segundo a curadora da exposição, o final do livro é pessimista, já que o antropólogo começa a assistir à chegada da civilização às aldeias. "Com a exposição, queremos resgatar essa cultura, numa perspectiva inédita: os indígenas vistos pelos olhos dos indígenas e a necessidade de preservação e valorização do que é produzido por eles", diz. O último trecho do livro do antropólogo alemão diz: "Quem for hoje para lá não encontrará mais o meu idílio. Atos de violência bruta estão na ordem do dia. Assim se destrói uma raça forte, um povo com excelentes disposições de espírito e coração. Um material humano capaz de desenvolver-se fica aniquilado pelas brutalidades dessa moderna cultura da barbárie."

OESP, 13/07/2005, p. D8

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