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Indigenas atuam em 'terra de ninguem'

JB, Internacional, p.A10
20 de Jun de 2004

Indígenas atuam em "terra de ninguém"
Bolívia e Peru sofrem nas mãos dos aimaras
LIMA-A etnia aimara, estabelecida entre o Peru e a Bolívia, estimulou um levante indígena que, em menos de dois meses, já custou a vida a dois prefeitos e gerou alarme por sua resistência à ordem legal e capacidade de organização. A região é considerada uma "terra de ninguém" até pelo governo boliviano, que esta semana reconheceu "ter perdido o controle sobre os índios".
O exemplo dessa força foi registrado terça-feira no vilarejo boliviano de Ayo Ayo, cenário da execução do prefeito, Benjamín Altamirano, acusado de corrupção e queimado vivo em público. Ayo Ayo fica a 50 km de nave, vila peruana onde foi linchado o prefeito Cirilo Robles, no dia 26 de abril, também acusado de corrupção e administração fraudulenta. Nenhuma das acusações contra eles foi comprovada.
As duas cidades estão no que é considerado território da "nação aimara", grupo com pouco mais de 1,5 milhão de pessoas, das quais 300 mil moram no lado peruano.
O centro nevrálgico dessa província informal é o lago Titicaca, que banha tanto Peru quanto Bolívia. Em torno dele passam as principais estradas usadas para o transporte de produtos do comércio entre os dois países e que os aimaras perceberam ser importante dominar.
0 clima de tensão predomina nos vilarejos em torno do lago desde que uma assembléia em Ayo Ayo decidiu bloquear a estrada que leva ao Peru e explodir torres de eletricidade, se o governo da Bolívia não libertasse um dos suspeitos do crime. A justificativa é cultural, dizem. Dirigentes aimaras dos dois lados da fronteira assinalaram que sua tradição contempla a aplicação da justiça pelas próprias mãos, incluindo a pena de morte.
Os aimaras bolivianos reivindicam a "justiça comunitária" como herança de seus antepassados. Este tipo de legislação inclui direitos e obrigações seculares reconhecidos pela Constituição boliviana, mas, ao contrário do que alegam os líderes rurais, não prevê a execução do réu. A tática pode ser aplicada por sábios anciãos em pontos remotos dos Andes no Peru e na Bolívia e é adotada também por outra etnia nativa, os quéchua.
Entre as premissas aimaras figura, ainda, o código usado desde o império finca, com suas máximasAmu Sua (não sejas ladrão), Ama Llulla (não sejas mentiroso) e Ama Quella (não sejas frouxo). Analistas locais dizem que o linchamentos e outras formas de justiça com as próprias mãos se multiplicaram na região desde os anos 90. Nesta época, entrou em vigor um conjunto de leis - as leis Blatmann e a Lei de Participação Popular - que absolvem alguns tipos de crime.
Cientes de que os dois linchamentos começaram a atrair a atenção da imprensa internacional, os aimaras passaram a hostilizar também jornalistas. Na terça-feira, um grupo de Ayo Ayo intimou repórteres a "desligarem câmeras e gravadores" em um bloqueio de estrada e passou a persegui-los e aos poucos policiais que davam cobertura. Uma jornalista da rede privada de TV Unitel relatou que um colega, que também trabalha para a TV, foi ferido a pedradas na cabeça. (AFP)
JB, 20/06/2004, p. A10

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