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Indígenas abrem as portas da comunidade no AM para difundir tradições e preservar cultura em reserva sustentável

G1 https://g1.globo.com
16 de jul de 2019

Entre os kambeba da terra indígena do Jaquiri, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, 47 das 49 pessoas que residem na pequena comunidade frequentam a escola. "As outras duas ainda são muito bebês", explica André da Cruz, coordenador geral da União dos Povos indígenas do Médio Solimões e Afluentes. A assiduidade às aulas de kambeba faz parte de um esforço coletivo entre comunitários para recuperar e fortalecer as tradições da etnia indígena, que, apesar de resistirem, passaram por um processo de esquecimento nos últimos séculos devido à colonização da região.

Somando esforços nesse sentido, o Programa de Turismo de Base Comunitária (PTBC) do Instituto Mamirauá realizou uma reunião com moradores da comunidade Jaquiri para dar andamento à elaboração de um plano de visitação, a partir do qual a comunidade poderá passar a receber turistas interessados em conhecer o modo de vida e as tradições da etnia kambeba. A conversa aconteceu na quarta-feira, 26.

Segundo Patrícia Rosa, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Territorialidades e Governança Socioambiental na Amazônia do Instituto Mamirauá, a iniciativa é uma oportunidade para que sejam resgatados alguns traços da cultura kambeba, como "a língua, o artesanato, a dança e até mesmo os hábitos alimentares".

"Essa é uma realidade daqui, mas pode ser estendida a outras terras indígenas. Durante muito tempo eles deixaram de falar a língua de origem. Houve um apagamento de vários elementos do que seria uma identidade indígena. Foi imposto aos indígenas um modo de vida não indígena", complementa a pesquisadora.

Uma das ideias discutidas foi a possibilidade de intercâmbio cultural entre kambebas do Jaquiri e de outras comunidades da região.

"Nos orgulhamos de ter, hoje, seis professores bilíngues em comunidades kambeba. Fui professor na comunidade durante 22 anos, era um sonho começar a trabalhar com turismo aqui. Nós vamos nos unir novamente para esse intercâmbio, eles (populações kambeba de outras localidades) vêm olhar como é a comunidade aqui e nós vamos ver como é lá. Precisamos estar mais perto uns dos outros", conta André da Cruz.

O plano
O plano de visitação é uma exigência da Fundação Nacional do Índio (Funai) para a realização de projetos de turismo em terras indígenas. O documento vai estabelecer regras e orientar as atividades para que a comunidade possa acolher pessoas de diferentes países e mostrar a cultura kambeba, além de ganhar uma alternativa para incrementar a renda dos comunitários.

Quando o processo estiver concluído, a comunidade poderá receber turistas hospedados na Pousada Uacari, um empreendimento de ecoturismo gerido em parceria entre o Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), e moradores de seu entorno na Reserva Mamirauá com o objetivo de gerar renda para comunidades ribeirinhas.

"A ideia é que essas pessoas venham aqui para conhecer e vivenciar o cotidiano da comunidade", afirma Pedro Nassar, coordenador do PTBC. Experiências similares já acontecem em outras comunidades ribeirinhas beneficiárias da pousada flutuante, mas essa será a primeira implementação de um projeto de turismo de base comunitária em terra indígena nas regiões do Médio e Alto Solimões.

Gestão territorial
Para Patrícia Rosa, o turismo na região é também uma forma de gestão do território pelos próprios moradores. "A ideia é que eles se apropriem da ferramenta do turismo para fortalecer ações de monitoramento territorial. Quando se abre uma trilha para o turismo, eles não estão só apresentando o local para os turistas, mas também monitorando o que está acontecendo nele, o que acaba criando práticas de cuidado. "

João Fernandes Cruz, tuxaua (liderança eleita pelo povo da aldeia) do Jaquiri, entende que o turismo pode beneficiar a comunidade de diferentes formas. "Isso pode fortalecer a nossa identidade como indígena, a proteção da nossa terra, a nossa renda. Esperamos que esse plano possa melhorar cada vez mais a integração da sociedade com a população indígena da região. "

"Nós temos um pouco do conhecimento da tradição kambeba, mas não temos todo. E tudo o que foi do povo kambeba nós queremos resgatar e colocar aqui em nossa aldeia. Algumas palavras do nosso vocabulário que ninguém mais sabe, nossa dança e comidas típicas. Não só para apresentar, mas para ser usado como instrumento no nosso dia a dia", completa.

https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2019/07/16/indigenas-abrem-as-…

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