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Indígena amazonense enfrenta desafios e conclui doutorado na UFSC: 'Tinha que honrar meus ancestrais'

G1 https://g1.globo.com
03 de jul de 2019

João Rivelino Rezende Barreto, de 38 anos, é o primeiro indígena brasileiro que concluiu o doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no campus de Florianópolis. Também conhecido pelo nome indígena Yúpuri, que significa guardião das portas do universo, ele pertence a aldeia São Domingos Sávio, que fica no município de São Gabriel da Cachoeira (AM), com etnia Tukana e atualmente atua como professor universitário em Manaus (AM), onde vive com a esposa e os três filhos.

Barreto entrou no doutorado em 2015 pelo programa de pós-graduação em antropologia social da UFSC. A tese "Úkusse: forma de conhecimento Tukano via arte do diálogo kumuãnica" foi defendida no dia 13 de junho e aborda as raízes culturais do conhecimento indígena.

Segundo o pesquisador e professor, o trabalho traz três figuras definidas como detentoras de conhecimentos: kumu (o pensador tukano), yai (o pajé), baya (o mestre de música). A pesquisa mostra como acontece o processo de formação dessas três figuras, a responsabilidade de cada uma e a existência do conhecimento Tukano.

O contato com a capital catarinense, começou no final do ano de 2013, quando ele foi convidado para participar como palestrante no Encontro das Licenciaturas Indígenas no Brasil, promovido pela Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica da universidade.

"Depois desse evento, recebi convite para trabalhar nessa licenciatura indígena da UFSC. Comecei como professor e depois passei a ser coordenador pedagógico de 2014 a 2015, ocasião em que participei do processo seletivo para ingresso no doutorado via políticas de ações afirmativas. Tinha convicção de que estava em uma das melhores universidades do Brasil, por isso mesmo diariamente procurava ser melhor nos estudos ou pelo menos me esforçava para tentar ser melhor", afirma.

Desafios
Apesar de ser o único indígena tukano durante as aulas na época do curso de doutorado, Barreto diz que não sofreu nenhum preconceito entre os colegas, mas a situação era diferentes fora dos muros da universidade.

"Em algum momento fora da UFSC houve sim algum preconceito, mas isso não me desanimava e não vai me desanimar. Creio que a competência, o desempenho, a seriedade nos estudos chamava atenção tanto dos meus colegas como dos meus professores. Isso fez muita diferença", afirma.
Para ele, a conclusão do doutorado representa mais "uma luta vencida para sobreviver em diferentes espaços externos da aldeia". Barreto também considera a conquista como "uma forma de transformar os desafios em novas possibilidades por meio dos estudos".

"Culturalmente, dentro do meu grupo tukano sou de hierarquia alta, filho e neto de grandes detentores de conhecimentos excepcionais tukano, como apresento na tese, ou filho e neto de grandes pajés, xamã como são chamados popularmente. Então, por esse motivo, tinha que fazer diferença, tinha que honrar meus ancestrais, tinha que buscar sim essa formação acadêmica, mas pensando minha própria cultura", disse.
Para Barreto, o doutorado foi fundamental para que ele pudesse alcançar um espaço de destaque na vida pessoal e profissional.

"Eu nunca quis ser um eterno coadjuvante, sempre procurei alcançar no limite de ser protagonista da história em que estava envolvido. Creio que o doutorado que eu consegui concluir, mostra um pouco da capacidade intelectual dos indígenas, mostra que nós indígenas temos competência para estudos, que através dos estudos queremos fazer diferença para nossas culturas, fortalecer o diálogo sobre as políticas públicas indígenas, continuar discutindo sobre a valorização das nossas culturas, das nossas línguas, da nossa educação, das nossas territorialidades", defende.
Barreto espera que a presença de indígenas nas universidades não seja vista apenas como uma oportunidade, mas como o exercício de direito.

"Nós queremos sim que a educação faça parte da nossa vida cultural, mas também queremos respeito dos nossos direitos, que tenha mais políticas públicas para os nós povos indígenas. Queremos reescrever uma nova história através das nossas culturas indígenas estando também nas universidades", afirma.
Após a conclusão do doutorado, Barreto voltou trabalhar como professor em uma faculdade privada no Amazonas.

Segundo a UFSC, Barreto é o primeiro da etnia Tukana a concluir o doutorado, embora existam outros com título de mestrado e graduações concluídas. Na universidade, ele é o segundo estudante autodeclarado indígena com título de doutor. O chileno Luis Hernán Rodríguez Cisterna foi o primeiro a defender a tese em 11 de fevereiro de 2019 no programa de pós-graduação em engenharia mecânica. Ainda, a instituição já formou três mestres autodeclarados indígenas.

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