O Globo, Ciência, p. 42
30 de Jun de 2007
Indiana Jones na Amazônia
Explorador britânico buscava reino perdido na floresta
Roberta Jansen
O espírito aventureiro, as roupas, a capacidade de se meter em encrencas nos lugares mais exóticos do globo em tudo lembram o herói da ficção Indiana Jones. De fato, há quem diga que o diretor Steven Spielberg se inspirou mesmo no explorador inglês Percy Harrison Fawcett, que desapareceu no Xingu em 1925, enquanto buscava uma suposta cidade perdida de ouro e prata na selva Amazônica.
Mas o que há até bem pouco tempo soava mais como um delírio aventureiro imperialista típico do início do século passado, começa a ser visto com outros olhos diante das recentes descobertas arqueológicas na floresta. Elas revelam a existência de sociedades bem mais complexas do que se imaginava sob a copa das árvores, ainda que não tenham sido erguidas com metais nobres. É o que mostra o pesquisador britânico Chris Burden em artigo sobre o tema publicado na última edição da "Revista de História da Biblioteca Nacional".
- Penso que esses achados mostram que Fawcett, além de ser uma figura excêntrica e um produto de sua época, tinha também uma intuição sobre determinadas coisas que só hoje começam a ser entendidas, como a complexidade de determinadas culturas indígenas - afirma Burden. - Fawcett sempre insistiu muito nesse ponto e, agora, as novas descobertas parecem confirmar isso.
Nascido em Torquay, no sul da Inglaterra, em 1867, Fawcett era fascinado por história antiga desde garoto.
Mostrava também inclinações esotéricas. Ele seguiu carreira militar, o que acabou levando-o a algumas das regiões mais exóticas do globo.
Foi numa dessas expedições, à fronteira entre Peru e Bolívia, em plena Floresta Amazônica, entre 1908 e 1914, que Fawcett ouviu pela primeira vez os relatos sobre um reino de ouro e prata, ornado por torres de cristal e habitado por índios brancos. Diante do conhecimento que já se tinha sobre incas, maias e astecas em selvas vizinhas tais relatos soavam bastante razoáveis aos ouvidos de Fawcett. Por que não poderia existir no Brasil uma sociedade nos moldes daquelas?
Fora os relatos orais e especulações, o explorador se baseava num documento chamado Manuscrito 512, uma carta escrita pelos primeiros bandeirantes a se aventurarem no interior da floresta em 1750, em que descreviam uma grande cidade de pedra no meio da mata. Faltava pouco para convencer Fawcett a reunir uma tropa e partir em busca de seu sonho. E foi aí que entraram em cena o lado místico do explorador e uma misteriosa estatueta que lhe foi presenteada pelo escritor H. Ridder Haggard. O autor de "As minas do rei Salomão" contou que obteve a figura de basalto diretamente das mãos de índios do interior do Brasil.
Fawcett levou a estatueta a uma médium que, em transe, começou a ter visões sobre uma antiga civilização destruída pelo mar. O explorador concluiu que se tratava de Atlântida e que os sobreviventes do dilúvio tinham se refugiado na selva brasileira, onde reconstruíram parte de sua sociedade, de acordo com o relato dos bandeirantes. Fawcett partiu pela primeira vez em 1920.
Mas voltaria a se embrenhar na floresta em busca da cidade perdida mais duas vezes, em 1921 e 1924. Ele nunca regressaria dessa última expedição, em que estava acompanhado do filho Jack. Seus últimos registros datam de maio de 1925 e foram feitos no Xingu.
Mais de uma dúzia de expedições foram organizadas em busca dos viajantes e mais de cem pessoas morreram sem que se chegasse a uma conclusão sobre o que teria acontecido. Tudo indica que eles foram mortos por índios.
Floresta abrigou sociedades complexas
Descobertas arqueológicas recentes revelam que podem ter de fato existido sociedades bem mais complexas do que se imaginava há até bem pouco tempo na Amazônia. Provavelmente não erguidas em cristal, ouro ou prata, mas, certamente, com construções elaboradas, estruturas agrícolas e capacidade de abrigar populações numerosas. Esses povos podem até mesmo ter desenvolvido culturas mais elaboradas, com conhecimento matemático e astronômico.
Um dos mais impressionantes indícios dessas culturas foi estudado no Amapá pelos pesquisadores Mariana Petry Cabral e João Saldanha do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá. São 127 blocos de pedras de até quatro metros de altura, dispostos em um círculo de 30 metros de diâmetro. Por suas características vem sendo chamado de Stonehenge da Amazônia, uma referência ao sítio do Reino Unido.
Não se pode afirmar ainda com certeza de que se tratava de um observatório astronômico. Mas o fato é que a sombra projetada no chão pelo maior bloco de pedra do sítio desaparece em 21 de dezembro, dia do solstício de inverno, data em que o hemisfério norte se encontra em seu ponto mais distante do Sol.
Embora o local só tenha sido estudado agora, as primeiras notícias sobre a existência do estranho círculo de pedras no meio da floresta datam de 1920, como aponta Chris Burden em seu artigo na Revista de História da Biblioteca Nacional, justamente a época em que Percy Fawcett explorava as matas em busca de civilizações perdidas.
No Alto Xingu, por onde Fawcett andou e onde acabou desaparecendo, pesquisadores da Universidade da Flórida encontraram importantes vestígios de grandes assentamentos urbanos. Uma série de aldeias com praças, pontes fossos e estradas dispostas paralelamente com bastante precisão indicam um conhecimento matemático bastante sofisticado na análise dos cientistas. As cerâmicas descobertas em diversas partes também revelam conhecimentos geométricos surpreendentes. A ocupação da Amazônia remonta há pelo menos 11 mil anos e, cada vez mais, a floresta revela os segredos de suas culturas.
O Globo, 30/06/2007, Ciência, p. 42
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